Opinião

A Grande Aceleração

Há poucos dias, a sonda Perseverance, da NASA, completou a sua abordagem a Marte e, com sucesso, pousou na superfície daquele planeta. No planeta Terra, a cerca de duzentos e vinte e cinco milhões de quilómetros de distância, os cientistas responsáveis pela proeza exultavam com aplausos e abraços. Enquanto profundo leigo na matéria, e, sobretudo, confesso, pouco interessado por ambiências extraterrestres, não deixei de seguir, curioso, a explosão de alegria de mulheres e homens que, acredito, com muitas noites em branco, estudaram e tentaram e erraram e tentaram novamente e voltaram a errar, até que o dia certo, quinta-feira, 18 de Fevereiro, finalmente chegaria. Olho, acima de tudo, zeloso por saber o que lhes mostram aqueles míticos ecrãs, instalados numa sala de degraus provida com um tela gigante que segue, com aqueles infindáveis dez minutos de atraso, o percurso do veículo que irá permitir perceber como poderá o planeta ser reabilitado com uma atmosférica rica em oxigénio.

Os meios de comunicação social abrem noticiários, fazem primeiras páginas e títulos de chamadas para o evento, aludindo à possibilidade de um futuro caótico no nosso Planeta. O tema do aquecimento global é, assim, caracterizado como a razão principal de tão importantes investigações. A sobrepopulação é vista como a catalisadora do aquecimento global. O planeta Terra entraria, desta forma, um ponto de não-retorno, a partir do qual só os mais frágeis sucumbiriam. O apocalipse é-nos mostrado, ligeiramente, sem que dêmos conta de que tal pode não acontecer.

O público recebe a informação e não pensa sobre a mesma. Desacredita apenas. E, após o momento em que começa a desacreditar, sugere que não existe mais caminho, juntando-se à maré imparável. No entanto, esta maré é, neste momento, ainda muito residual. O reforço das falsidades aproveita o ímpeto das redes sociais virtuais, bem como os aproveitadores da desgraça, geralmente ligados à extrema-direita conservadora, aproveitando o balanço da ignorância geral.

Ora, isto é, de facto, preocupante. Numa época em que o tema COVID-19 ocupa a quase totalidade do espaço informativo, é fundamental que se relacionem o surgimento deste vírus à destruição contínua do Planeta, o parco aproveitamento dos poucos recursos naturais, evitando a aniquilação de ecossistemas fundamentais à sobrevivência de todos nós. Há caminho a fazer-se e há margem de manobra para inverter a desgraça.

Num dos seus mais recentes artigos, a propósito do seu mais recente livro, intitulado “Uma Vida No Nosso Planeta”, David Attenborough começa por afirmar que teme por aqueles que irão ser testemunhas dos próximos noventa anos, se continuarmos a viver como vivemos hoje. Já no final deste mesmo artigo, o biólogo afirmará que «não é por acaso que a estabilidade do Planeta vacilou à medida que a sua biodiversidade diminuiu.» David Attenborough, que defende que «a mais recente perspectiva científica sugere que o mundo vido está a caminho de oscilar e sucumbir», é o mesmo que lembra que «os cientistas encontraram nove limiares críticos integrados no ambiente da Terra; nove fronteiras planetárias. Se uma dessas fronteiras se romper corremos o risco de desestabilizar a máquina de suporte de vida. Actualmente, já rompemos quatro das nove fronteiras.» Se mantivermos, no entanto, o nosso impacto dentro desses limiares, continuaremos a ocupar um espaço de funcionamento seguro. É preciso inflectir para funcionarmos.

Quanto aos vírus, de acordo com os cientistas, a situação da rápida degradação do Planeta acelerará o surgimento de outra pandemia. Aqueles defendem que existe uma associação entre o aparecimento de vírus emergentes e a morte do Planeta. E o cenário adensa-se. Estima-se que um milhão e setecentos mil vírus, de potencial ameaça para os humanos, se escondem entre as populações de mamíferos e aves. Isto é violento e altamente preocupante. É necessário parar de fracturar a Natureza.

Perante tudo isto, por que razão estamos já a atirar a toalha ao chão? Não se justifica procurar soluções em Marte, como as de Paul Verhoeven, no seu visionário Total Recall de 1990, mas, como saliente David Attenborough, «devemos tornar o mundo selvagem outra vez!»

Voltarei ao tema.

Bruno Marques

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