A Ponte do Bôco, que liga Amares a Vieira do Minho e a mais antiga travessia rodoviária portuguesa em betão armado será requalificada, muito em breve. Encerrada ao trânsito há mais de dois anos, está prevista a sua abertura no final do verão.
Segundo soube o ‘Terras do Homem’, junto das Câmaras Municipais de Amares e de Vieira do Minho, a obra será lançada a concurso nas próximas semanas, orçada em cerca de meio milhão de euros, custeada a meias pelas duas autarquias.
O projeto está praticamente concluído e tudo está a ser feito no sentido da requalificação da ponte, também conhecida como Ponte de Parada, passar a permitir a circulação simultânea de automóveis e de viaturas pesadas, como camionetas e camiões, mas neste caso apenas um de cada vez, devido às dimensões da largura do novo tabuleiro.
Esta é uma boa notícia para os industriais da região, que diariamente vão poupar dezenas de quilómetros, já que atualmente ou utilizam as pontes em cima da Barragem da Caniçada, de Rio Caldo ou do Porto.
Para o presidente da Câmara Municipal de Amares, Manuel Moreira, que curiosamente é natural da freguesia de Parada do Bouro, “sabíamos do incómodo para as populações, ao decidir o encerramento temporário da ponte que tão bem conheço. Essa situação estava a ser muito bem ponderada, por mim e pelo meu colega de Vieira do Minho, António Cardoso, que até é engenheiro civil”.

Segundo o autarca, “foi uma decisão muito difícil, mas não hesitamos em encerrar, quando os técnicos e peritos, em uníssono, nos disseram não poderem assegurar se a ponte se manteria de pé por um dia, uma semana, um mês, um ano ou dez anos, nós somos responsáveis, estamos aqui para defender todas as pessoas, até porque ‘o seguro morreu de velho’. O exemplo do que se passou com a Ponte de Entre os Rios ainda está bem presente e pedimos desculpa às pessoas, que perceberam muito bem o que estava em causa”.
Ao ‘Terras do Homem’, Manuel Moreira salientou que “as populações de Bouro Santa Maria e de Parada de Bouro dão-se e deram-se sempre muito bem, tiveram ao longo dos tempos muita cumplicidade, fazem muita vida aqui para baixo, para Amares”, reconhecendo que “a obra já deveria estar feita há muito tempo, e por nós, já estaria pronta. Infelizmente neste país, com tantas burocracias, quando queremos fazer alguma coisa em prol da comunidade temos de andar a mendigar ‘ao tio ao tio’, foram reuniões que ambos tivemos em Lisboa, com diversas entidades ministeriais, mas agora seremos nós que colocaremos mãos à obra ao reabilitarmos uma ponte tão necessária”.
Engenheiro civil de formação, António Cardoso destaca que se tratando a antiga ponte de um Monumento de Interesse Público, desde o ano de 2016, “não pode ser alargada. Achamos ser possível, em princípio, rentabilizar o espaço, de modo a que, sem alterar as suas dimensões, consigamos manter a estrutura aporticada e daquela mesma forma, aumentando ligeiramente o tabuleiro, bem como a sua resistência”.
“Esta ponte, além de histórica, é importantíssima, não só para as suas populações locais, mas porque faz uma grande ligação para quem circula rumo aos Caminhos de São Bento, para a Albufeira da Caniçada, a Serra do Gerês e a Serra da Cabreira, entre outros rumos turísticos e de lazer”, acrescentou o autarca vieirense.

António Cardoso disse ao ‘Terras do Homem’ que “inicialmente, eu e mais o meu colega de Amares, equacionamos a hipótese de construir uma nova ponte a montante da atual ou fazer a sua requalificação. Acabamos por optar por esta última solução, a de reconstruir a ponte, quando esbarramos com uma série de burocracias que neste país obstaculizam o planeamento e ordenamento do território, neste caso por ser zona ecológica”.
Para os dois autarcas, “como o esforço financeiro é muito grande, estamos a tentar apoios na comparticipação da obra por parte da EDP e da REN, esperando que ambas as empresas correspondam, aliás, como tem acontecido já em circunstâncias idênticas aqui na região”.
“Não havia segurança suficiente”, diz habitante da zona
Júlio Silva, um dos habitantes de Parada de Bouro, explicou ao ‘Terras do Homem’ que “a ponte faz muita falta toda a freguesia, até para abastecimento de combustível. As bombas de gasolina mais perto são em Santa Maria de Bouro. Para já continuamos sem poder passar, desde há mais de dois anos que estamos nesta situação, mas tinha que ser assim”.
Ainda segundo Júlio Silva, “o problema na ponte verificou-se quando as barragens estavam muito cheias e tiveram de soltar as comportas todas ao máximo, as águas vieram até ali acima e começaram a ver-se pedras soltas, a ver-se o ferro da estrutura da ponte”.

“Esta ponte é muito antiga e acho que de facto não havia segurança suficiente, porque o betão estava já a ficar muito puído, passavam aqui também camiões e a passagem rodoviária tinha que se fazer em condições seguras”, salientou Júlio Silva, recordando a visita ao local dos autarcas de ambos os municípios, acompanhados por técnicos, que constataram o risco iminente.
Acesso às Serras do Gerês e da Cabreira
O Município de Terras de Bouro, que não está incluído no território de ambas as margens do Rio Cávado, acabará por beneficiar bastante com a requalificação da ponte, porque para o quotidiano e fins turísticos há muito trânsito no acesso entre os lugares de Dornas (Bouro Santa Maria, Amares) e de Aldeia (Parada de Bouro, Vieira do Minho).
Também Vieira do Minho está em crescendo, sendo que “o ano passado já fomos dos concelhos do país mais procurados por novos turistas, que demandam as zonas interiores, atraídos pela qualidade de vida, mas também pelos encantos e a beleza ímpar da Serra da Cabreira”, salienta António Cardoso, destacando “a atuação dos sapadores florestais, que ao longo de todo o ano criam as melhores condições para a visitação e usufruto da zona”, enquanto este ano o centro da vila está a ser renovado, com mais e melhor estacionamento.
Ponte mais antiga que a República
A Ponte do Bôco, ou de Parada, é ligeiramente mais antiga que a institucionalização da República Portuguesa, tendo sido construída já entre os anos de 1908 e 1909, até que no início da década de 1960, foi alvo de beneficiações, havendo, desde então, um projeto do Engenheiro Edgar Cardoso, onde as duas autarquias querem ir buscar alguns contributos.
Edgar Cardoso, um expert neste tipo de estruturas, conhecido mundialmente pela autoria e realização das Pontes da Arrábida e de São João, entre Porto e Vila Nova de Gaia, antes concebeu e concretizou as duas pontes do Rio Cávado, em Rio Caldo, uma ligando esta freguesia de Terras de Bouro à de Vilar da Veiga, enquanto a outra une a Ventosa já em Vieira do Minho.

A Ponte do Bôco é a ponte mais antiga de Portugal, tendo sido erigida pela empresa de construção, Moreira de Sá & Malevez, detida pelo engenheiro Bernardo Joaquim Moreira de Sá, filho do musicólogo Bernardo Moreira de Sá, o mesmo intelectual que dá nome à escola de música, tendo sido alvo de uma vistoria, a que se seguiu um projeto de reforço, na década de 1950, mas só em 1961 é que as obras de reabilitação começaram, até 1963.
Já em 2003, após um inverno bastante rigoroso, a Ponte do Bôco teve uma nova inspeção, a cargo da Universidade do Porto, na sequência da qual por questões de segurança ficou interdita à passagem de veículos pesados. Dez anos depois, a Universidade do Minho realizou novo estudo, passando a monitorizar a situação, sempre que solicitada.
Já em 2015, as Câmaras Municipais de Amares e de Vieira do Minho decidiram, também por questões de segurança, restringir a passagem de viaturas dois metros e 60 centímetros de largura, três metros e meio de altura e doze toneladas de peso, antes da sua interrupção.
[arve url=”https://youtu.be/dVohOG2i-KI” loop=”no” muted=”no” /]
