A famosa rainha Isabel I de Castela, em Espanha, era conhecida por se lavar pouco e cheirar mal. Contudo, documentos recém-descobertos mostram que possuía uma quantidade enorme de perfumes de grande valor.
Isabel I financiou a viagem de Colombo ao Novo Mundo e a união do seu país e, através do seu governo firme e do casamento com Fernando II de Aragão, preparou o cenário para o domínio global da Espanha e a Idade de Ouro.
No entanto, o seu prestígio foi minado pelo que os historiadores chamam de “uma lenda negra”, constituída em parte pela sua reputação de não se lavar e pelo seu papel em instigar a Inquisição e a expulsão dos judeus.
A lenda surgiu de uma história segundo a qual a rainha jurou não mudar de camisola até que as suas forças tivessem cercado o último reino mouro na Península Ibérica. O cerco, iniciado em abril de 1491, durou oito meses.
No entanto, segundo o The Times, uma investigação num dos arquivos privados mais importantes da Espanha, a herança de uma família nobre agora nas mãos da Fundação Tatiana Pérez de Guzmán el Bueno, levou à descoberta de um inventário dos perfumes e cosméticos que a monarca usava, e dos esforços necessários para os adquirir.
O inventário, compilado por Sancho de Paredes Golfín, camareiro de Isabel I de 1484 até à sua morte em 1504, mostra que usava perfumes como almíscar, animé, uma resina ou goma de várias espécies botânicas orientais, e benjoim, uma resina de uma árvore originária das florestas tropicais do sudeste da Ásia.
Os documentos, que foram disponibilizados pela primeira vez, mostram que o toucador da rainha continha âmbar, óleo de flor de laranjeira e óleo de rosa mosqueta.
Os perfumes foram comprados pelo camareiro e a sua esposa.
“O documento lista como a Rainha possuía uma quantidade enorme de perfumes de grande valor e fornece evidências contra a lenda negra que cerca Isabel I no imaginário público”, disse Álvaro Matud, diretor académico da fundação, acrescentando que o documento veio de um livro de contas que regista em “detalhes meticulosos” as despesas de Isabel I.
A descoberta foi saudada por historiadores como contraponto aos mitos sobre a rainha.
“O documento mostra que a rainha gostava de perfumes. Achava que o seu papel significava que tinha de estar adequadamente vestida. Que uma rainha deve ter uma presença pública solene ou proeminente, disse Miguel Ángel Ladero Quesada, professor da Real Academia de História e especialista em história da Coroa de Castela durante os séculos XIII a XV.
“Isabel I tinha um conceito muito forte da vida real e de como as roupas, joias e cortesãos deveriam existir para impressionar os seus súbditos e dar-lhes a sensação de que estavam realmente diante do seu rei ou rainha. E os perfumes também fazem parte disso”, rematou.
Os historiadores acreditam que a lenda negra do odor corporal da rainha se deve, em parte, à propaganda muçulmana na época das guerras contra os cristãos.
“É um absurdo pensar que Isabel I tinha baixos níveis de higiene quando as normas que regiam os banhos públicos em Castela durante o seu período estão tão bem documentadas”, concluiu Ladero Quesada.
Maria Campos, ZAP //
