Amares

“São duas as linhas que sempre me regi desde que sou autarca: os mais necessitados e os empresários”

Manuel Moreira vai concorrer para o último mandato. Oito anos depois considera estar um melhor presidente, mas, sobretudo, “um melhor ser humano”. Aproveita para lançar algumas farpas à oposição, diz que as finanças estão boas e lança os cinco projetos que gostaria de concretizar nos próximos quatro anos: “depois parto em paz e sossegadinho para a minha vida normal”.

O presidente Manuel Moreira que tomou posse há oito anos é diferente do presidente Manuel Moreira que se candidata a um terceiro mandato? Em quê?

Sou diferente com a aprendizagem que fiz durante estes oito anos. Quando concorri pela primeira vez, apesar de ter alguma experiência como vereador e vice-presidente da câmara de Vieira do Minho, não tinha experiência como presidente que é muito diferente. Ao longo destes oito anos, fruto do trabalho da equipa que lidero, aprendi muito em vários aspetos, até como homem se aprende. Acho que a vantagem da política, para além das decisões que tomamos, daquilo que fazemos para servir os outros, é, também aquilo que aprendemos como homens, como seres humanos, e eu aprendi muito com muita gente.

É essa a lição que leva para a sua vida?
Apesar de alguns conflitos com pessoas que não concordam com a nossa posição, é uma aprendizagem. Nunca ninguém se portou mal comigo, mesmo não concordando, de uma forma pacifica e educada toda a população foi correta. O peso da idade também nos ajuda a refletir sobre o que fizemos e o que somos. E eu tenho um passado na educação que me orgulho. Muito do que sou hoje foi aquilo que eu fiz como professor neste concelho e com várias gerações. Estou aqui há 40 anos como homem ligado ao ensino e eu tentei, enquanto presidente da câmara, ter o comportamento que tive enquanto professor, de exemplo. Se alguma coisa que eu fiz como professor, mais do que transmitir conteúdos ou conhecimentos, foi passar aos alunos comportamentos cívicos e de responsabilidade. Quando me apresentei como candidato, também, foi com essa condição: ser Manuel Moreira como sou, com virtudes e defeitos, mas há algumas coisas de que me orgulho: ser uma pessoa de princípios, de valores, de rigor e de muito respeito aos outros.

E é esse Manuel Moreira que concorre a um terceiro mandato?
Vou-me apresentar ao povo de Amares com a mesma consciência. As pessoas conhecem-me, não vou mudar e da forma que me apresentei em 2013 vou-me apresentar em 2021, com a mesma vontade de trabalhar, com o mesmo empenho, com a mesma determinação, e sobretudo, com o grande amor que tenho a Amares. Gostaria que no final dos 12 anos, os amarenses refletissem e dissessem assim: ‘apesar dos defeitos e das dificuldades, este homem marcou quanto mais não seja no apoio aos mais necessitados’.

O apoio aos mais necessitados é uma prioridade?
São duas as linhas que sempre me regi desde que sou autarca: os mais necessitados e os empresários. Os mais necessitados são aqueles que precisam de apoio e aí eu orgulho-me porque sempre estive ao lado deles e ninguém pode dizer o contrário. Os meus adversários podem dizer o que quiserem, mas o apoio às franjas mais desfavorecidas do meu concelho é um vetor fundamental. Depois, os empresários que são os que criam riqueza, criam emprego. Precisam de ser ajudados de outra forma e em outro patamar. No meio, ficam aqueles que são a classe média que, apesar das dificuldades, vai sobrevivendo.

Em termos de trabalho, de que se orgulha nestes últimos quatro anos?
Há duas ou três…apesar de serem muito controversas. A Praça do Comércio, toda a gente punha no seu programa, mas ninguém teve coragem de fazer. Claro que podemos discordar de muitos aspetos, mas quem tem de decidir, tem de decidir. É o meu projeto do qual me orgulho imenso. O maior orgulho são os emigrantes que vieram passar férias e foram à câmara dar-me os parabéns, alguns nem os conhecia. Quem está no dia a dia não valoriza o que vemos, quem vem de fora, e no ano passado não vieram, e foram várias dezenas, deram-me os parabéns. Segundo foi o saneamento. Quando eu entrei na câmara, a cobertura reportava a 36%, hoje nós estamos perto dos 80%. Ter saneamento é dar qualidade de vida aos amarenses.

Mesmo sendo uma obra que não se vê…
Eu não estou nada preocupado com isso. Eu sei que se diz que obra que não se vê não dá votos, mas para mim, muito mais importante é a qualidade de vida das pessoas e o saneamento é um desses fatores. Depois há a obra da EB 2/3, a minha escola, onde estou desde a sua abertura, e onde passei quase 20 anos na direção. Para mim, é um orgulho porque criamos uma escola com condições. Se queremos um ensino em condições temos que ter condições físicas e hoje é uma escola moderna, ampla, arejada, bonita e podem dizer o que quiserem. A família educativa gosta imenso.

A água continua a ser um problema
A água em Amares, no verão, tem sido um problema de há muitos anos. É uma cruz que eu carrego e as pessoas têm toda a razão. Se me faltasse a água, eu também reclamava e chamava incompetentes a quem está na câmara. Quando tomo uma decisão, ponho-me no papel do outro, como eu reagiria se fosse comigo, é uma prática que tenho. Agora há muita gente a dizer disparates por todos os lados nas redes sociais porque, frontalmente, não têm coragem nem capacidade e usam as redes sociais, atrás de uma máquina e muitos nem dão a cara, mas com isso eu posso bem.
O compromisso que eu assumi, no início do ano, é que iria resolver 80% do problema da água e está resolvido. Ferreiros, hoje, tem água sem problemas. Mantêm-se 20% problemas e eu peço desculpa por isso, é uma franja de Rendufe e outra na Torre e Fiscal, são casos que eu conheço, pessoas que foram sempre corretas e cordiais comigo. O problema fica resolvido quando, e a obra já está entregue no âmbito da mobilidade, levar a conduta do Minipreço às Cerdeirinhas. Também quero que as pessoas percebam que na ligação do depósito na Senhora da Paz às Cerdeirinhas investimos mais de 1,5 milhões de euros do nosso orçamento. Tenho consciência que há muito a fazer, mas tenho vontade de continuar a trabalhar e a produzir.

Para os próximos quatro anos, quais serão as prioridades?
Vamos continuar a apostar nas pessoas. O ano que passou, e eu queria que a população de Amares percebesse isso, foi um ano muito difícil. A pandemia destruiu famílias, empresas, empregos, mas a câmara sempre esteve ao lado das pessoas. Todas as pessoas que eu tive conhecimento, seja pelos presidentes da junta seja pela Segurança Social seja pelos padres, nós demos resposta. A vida continua e nós autarcas, muitas vezes tão mal vistos, temos que fazer o melhor para criar mais qualidade de vida e mais estabilidade para o nosso concelho. Orgulho-me quando vejo um casal jovem a escolher vir viver para Amares porque está perto de Braga, é bonito, com qualidade de vida e com rios. Por isso, nós autarcas temos de criar condições: água, saneamento, ruas bonitas, bem-estar.

Mas que obras é que gostava de concretizar?
No último mandato, a única coisa que prometi e não fiz foi a praia da Ombra e não a fiz por uma questão política porque nunca aprovaram a candidatura. No próximo mandato, seja ou não aprovado o projeto, irei fazer a praia da Ombra porque Amares e Ferreiros precisam desta obra. É o Monte de São Pedro Fins que tem um projeto já feito e aprovado quer pela parte dos responsáveis da Igreja de Caires e de Caldelas quer pelos respetivos presidentes de junta. Vou dar a dignidade que o Monte de S. Pedro merece, que seja uma romaria.
Outro ponto é a requalificação do largo D. Gualdim Pais até à rotunda do autarca, em Amares. Temos um projeto metido na CIM-Cávado para intervir no âmbito do PARU, tal como fizemos na Praça do Comércio em Ferreiros, uma obra de 2,5 milhões de euros porque a freguesia de Amares precisa de uma intervenção de qualidade e vai tê-la.

Porque essa é uma novidade, e para se perceber, desde o largo D. Gualdim Pais até à rotunda do autarca vai ser intervencionado…
E toda a envolvência, desde a casa de saúde passando pelo campo de futebol vamos intervir, um bocadinho na linha do que foi feito na Praça do Comércio. Outra questão: nós vamos construir no parque desportivo de Amares, um pavilhão multiusos. Já tem projeto, elaborado em conjunto com a junta de freguesia e a associação, porque pensamos meter em overbooking no quadro 20/20, mas o desporto foi, claramente, rejeitado. Para além do multiusos haverá um campo de futebol de 9. O Mosteiro de Bouro, também tem candidatura aprovado, e por isso, vai avançar, é uma obra estruturante. São cinco obras que quero fazer e fazendo isto parto em paz e sossegadinho para a minha vida normal.

Como vê atualmente a oposição? Poderia ser mais interventiva, mais pró-ativa?
São três candidatos que eu conheço, pessoas que respeito e admiro. É muito difícil falar da oposição porque me parece que, neste contexto de pandemia, e não é só em Amares é a nível nacional, o ato eleitoral está muito parado, não vejo grande dinâmica. Não somos nós que vamos decidir, são os amarenses que vão decidir quem continua a gerir os destinos da câmara. Quanto a mim, estou completamente tranquilo, de consciência leve, de trabalho feito. Deixo na mão dos amarenses e qualquer decisão que tomarem será, com certeza, a melhor para o concelho.

Teve que fazer alguns reajustes na equipa que o acompanha, porquê?
Eu fiz dois ajustes. Um que me custou imenso, que foi a saída do professor Isidro. Foi o meu vice-presidente, somos colegas professores de carreira há muitos anos, temos uma amizade muito forte e fez um trabalho excelente tanto como vice-presidente como vereador da cultura. Esteve sempre presente, foi leal, disponível a trabalhar. Custou-me imenso quando ele me disse que não queria continuar por razões pessoais. É um homem valioso, competente, na parte da cultura fez um trabalho excelente que os amarenses devem valorizar e por isso, tinha na minha mente três ou quatro pessoas que poderiam ocupar o lugar. Optei pelo Delfim Rodrigues que é um político com muita experiência, que fez um trabalho muito bom na freguesia de Lago, encaixa bem comigo porque é afável, sabe ouvir e sabe respeitar. O quinto lugar tive que mudar fruto da paridade. Não me sentia bem comigo próprio, embora ela não se importasse, que o Delfim viesse para segundo e a Cidália Abreu para terceiro. Não era justo, é uma pessoa que está comigo desde 2013, leal, fiel e competente não seria justo ir para terceiro, mas ao ficar em segundo obrigou-me a mexer no quinto que era o Vereador João Esteves. Tenho um orgulho na minha equipa, somos muito fortes, todos diferentes, mas muito unidos. Custou-me imenso abordar o Ginho, mas ele aceitou, com uma humildade que registo e só as grandes pessoas têm, passar para sexto. A maioria parte das pessoas não aceitaria e ele aceitou. Fui buscar uma pessoa formada em medicina, que nunca pensei que aceitasse, aceitou e vais-nos ajudar imenso na área da saúde e a Drª Judite vai estar connosco. É uma equipa que eu acredito imenso, de gente de trabalho e dedicação.

Uma questão que se coloca muito na praça pública prende-se com a alegada máquina pesada da autarquia que dificulta a tomada rápida de decisões técnicas. É possível fazer alguma coisa?
Isso é uma bandeira do Chega que vai dizendo umas coisas, algumas nada acertadas, mas se estivesse na oposição alguma coisa tinha que dizer. A máquina da Câmara é, efetivamente, pesada e eu já fiz muitas mudanças, mas ainda não está como eu quero. Sou gestor de recursos humanos desde 1990 e a mente humana é a parte mais complicada, é ter capacidade para mudar mentalidades porque não é fácil, então em pessoas com 20 ou 30 anos de serviço é muito complicado. Os nossos funcionários, na sua maioria, é gente boa, mas há uma seção que para mim é mais complicada que são as obras. As pessoas não fazem ideia dos processos que Amares tem para apreciar. Eu tinha mais de 300 projetos, quase todos de casa unifamiliares, só num arquiteto e eu não tinha consciência disso, ele não conseguia dar resposta e dividi aquilo por dois. Já mudamos alguma coisa até porque introduzimos um novo sistema de informática, o antigo era um verdadeiro caos porque estava em duas empresas que não eram compatíveis uma com a outra, e hoje temos uma só empresa, funcional que trabalha bem. Agora temos que afinar a máquina e há um objetivo que eu tenho: se há uma pessoa que vai à câmara pedir um documento e o puder levar logo leva, não pode esperar oito dias. Eu estou todos os dias na câmara, entro às 8h15 e despacho todos os dias, a minha mesa fica diariamente limpa. Portanto, o que eu queria é que quem fosse lá pedir uma certidão a levasse logo, não precisava de lá ir daqui a oito dias. Parece que anda a mendigar e não tem que o fazer porque nós estamos ali para dar respostas.

E acha que vai conseguir?
Acho. Para mudar mentalidades temos, primeiro, que ter consciência do que temos que fazer, depois traçar um caminho com objetivos para lá chegar e passar a mensagem. Eu já tomei medidas que levou a choro dos funcionários e hoje agradecem-me porque, com o tempo, viram que eu tinha razão. É este o caminho que queria continuar a seguir. Nenhum processo muda se os funcionários não quiserem mudar, vá para lá quem for. Pode ter boas ideias, se não tiver capacidade de mobilização e fizer com que os funcionários percebem e aceitem a modificação, ninguém muda nada. De teorias estão os mares cheios e teóricos a pregar às moscas há muitos.

A questão financeira é outra que nesta altura se fala muito. De empréstimos para pagar no futuro. Como está a situação?
O papel da oposição sempre foi criticar e achar pontos negros. E em Amares vive de lixo e água como uma bola de ping-pong, uns dias lixo outros água. Amares está bem financeiramente. Quando entrei em 2013, a câmara tinha uma dívida de cerca 13 milhões de euros, nesta altura a dívida é de 3 milhões e tal. Vem aí mais um empréstimo de 1,1 milhões para comprar as Termas de Caldelas. É uma mais-valia porque compramos um produto que é nosso e temos que o pagar. As próprias termas terão que pagar o empréstimo e esse é o objetivo. Não temos dívidas atrasadas, todas as obras estão cabimentadas até porque a lei obriga a ter um compromisso. Portanto, a oposição pode estar sossegada que as finanças da câmara de Amares estão muito bem.

O que consideraria um bom resultado eleitoral, ganhar, com certeza, mas manter o atual número de vereadores?
Sim vou lutar para manter os cinco vereadores. É o meu grande objetivo manter. Tenho consciência que há quatro anos foi um resultado histórico, mas quero manter. Há a teoria que no terceiro mandato há sempre desgaste, eu não me desgastei nada até porque continuo a jogar futebol e a correr. São teorias que não sei de onde vêm. É sempre o povo que decide e vota em pessoas. E há pessoas que não votam em nós porque, um dia, passamos por elas e não lhes demos bom dia, podemos não as ter visto ou estamos a pensar noutras coisas, mas as pessoas ficam chateadas. Outros porque pediram emprego para um filho e não consegui e não vota. E há um outro candidato que promete… mas não emprega nada. Quem andar, nesta altura, a prometer empregos está a vender a banha da cobra.
Há uma parte que me dói a consciência que são os jovens que me abordam e nem me chamam presidente, mas professor Moreira que eu gosto mais. Custa-me não os poder ajudar…

Essa resposta é difícil porquê?
75% dos jovens, e bem, são licenciados e empregar um jovem numa fábrica é fácil, mas um licenciado tem que ir para a área dele e isso não é nada fácil. Estamos a atravessar uma crise que será muito complicada. Os empresários da construção civil estão a ver-se às aranhas para encontrar gente para trabalhar, os jovens tiram cursos e não querem ser trolhas, carpinteiros e bem. Por isso, o meu maior drama é não poder ajudar os jovens.

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