Por cá existe muito o hábito de valorizar o que vem de fora, esquecendo frequentemente o que já temos. E isto tanto acontece com profissionais de diferentes áreas, sejam eles desportistas, cientistas, trabalhadores da construção civil, motoristas ou professores, como com projetos no campo desportivo, ou no ensino. Somos constantemente bombardeados pelos media ou pelos decisores políticos a ver ali “a última bolacha do pacote”.
Nas escolas, existem atualmente diferentes programas/projetos a que tem sido dada alguma visibilidade. O programa Erasmus+ que (para além de outras valências) leva alunos dos cursos profissionais a realizar estágios no estrangeiro; o projeto MAIA que, segundo altas patentes, materializa uma política que visa melhorar as práticas pedagógicas, mas que em meu entendimento só serve para acrescentar burocracia ao ensino e diminuir drasticamente o grau de exigência para quem tem, num futuro próximo, de dar respostas em exames nacionais. Mais recentemente ainda, o ministério da educação e até a presidência da republica acordaram para a filosofia UBUNTU.
Para os mais distraídos, informo (pelo que li) que esta filosofia de vida humanista assenta em valores como a ética do cuidado, incentivando os alunos a serem melhores, aceitando os outros como eles são tentando também, entre muitas outras valências, que através de diálogos “socráticos”, se consigam esbater divergências de opinião, levando a consensos. Considero esta “cena” (para escrever de forma que os alunos entendam) do diálogo um bom princípio, numa época em que cada um de nós dialoga essencialmente com o telemóvel ou com o computador. Para melhor perceber a filosofia subjacente, requisitei livro na Biblioteca e falei com alguns colegas que tiveram formação na área. Entendi então, que o significado mais consensual de UBUNTU: “Eu sou porque tu és e eu só posso ser através de outras pessoas”, já existe e é praticado na nossa escola há mais de uma década. Perdoem a ousadia, mas há um grupo de quatro professores – acompanhados de mais meia dúzia quase em permanência – que pratica esta filosofia, dando-lhe outro nome – CAMINHO DE SANTIAGO.
Aí, permitimos que os alunos sejam lideres de si próprios, eduquem e sejam educados para a vida em situações de dificuldade, incentivamos o diálogo (socrático, ou não) ao longo de quilómetros de prazer, damos a conhecer uma forma de vida minimalista, onde todos se sintam responsabilizados e percebam que O Caminho só faz sentido na companhia dos outros, sejam eles mais ou menos capazes. Aqueles que com eles, e connosco, encetam o Caminho, sentem necessidade de os acompanhar até ao destino, mesmo que para isso, tenham de abdicar de algo ou de muito. O que temos sentido nos onze Caminhos realizados com os finalistas da ESVV, é que quem o faz, volta mais apto, mais solidário, mais capaz de enfrentar os escolhos que a vida lhe coloca à frente e, fundamentalmente, mais seguro do que é, quem é, e o que quer para a (sua) vida.
Por isso, senhores do ministério da Educação e distinta presidência da República, nada contra a filosofia UBUNTU – já a praticamos e valorizamos – mas não apresentem ao País como novidade, algo que, pelo menos em Vila Verde, já acontece há mais de uma década.
Carlos Mangas [Professor de Educação Física]
