Diz Sándor Márai no seu livro “As Velas Ardem até ao fim” que envelhecemos lentamente.
De há dois anos a esta parte quando, por motivos familiares, mudei local de residência, percebi também que o ditado “a ocasião faz o ladrão” é verídico e a mudança do meio envolvente pode alterar hábitos, há muito adquiridos – quando se repete tudo tão fastidiosamente – criando outros com que nem sonháramos. Quando ganhamos novos gostos, revivemos, porque a novidade, como o próprio nome indica, leva a novas experiências e sentimos que a “vela”, afinal, não está tão próxima do fim, assim.
O local onde moro atualmente junto a duas praias fluviais, dois clubes de canoagem, tem também, uma ponte “estrategicamente colocada” para ver canoístas treinar e assistir ao pôr do sol. Ou seja, tem todos os condimentos para nos levar ao contacto com a natureza que, renovando-se diariamente, nos leva a rejuvenescer também. Contemplando e interagindo com o que nos rodeia, percebemos que mudamos também de acordo com o que os nossos sentidos percecionam. Caminhadas, passeios de bicicleta, paddle no rio, levam-nos a manter corpo são e mente alerta em todos os sentidos. Mas para além destas atividades “normais” para quem sempre esteve ligado ao desporto, descobri outra que nunca me tinha ocorrido. O rio Cávado e suas margens têm vida – Garças, patos, lontras, peixes, canoístas, paddlistas, nadadores – e eu, curioso, habituei-me a fotografá-la. Descobri, também, mais uns quantos “maduros”, como eu, que ao tradicional e caótico trânsito automóvel de final de tarde na ponte de prado, acrescentam um caótico trânsito pedonal. Calcorreando os passeios da “dita” entre mudanças de sinal dos semáforos, uns com máquinas fotográficas, outros com telemóvel, registamos o que se passa no rio, com canoístas nos seus treinos diários, ou, lá ao fundo, junto a Cabanelas ou nas praias fluviais do Faial ou de Merelim S. Paio, diferentes tonalidades diárias com o sol a dar-nos sempre cores e registos diferenciados, em função da existência ou não de nuvens. Observar-nos depois, quais colecionadores de cromos, a trocar fotos e/ou alertar quem vem no rio, obrigando a percursos acelerados para apanhar um melhor ângulo, é outra das atividades frequentes. Os finais de tarde, acreditem, permitem-nos além de olhar, ver e registar através de diferentes lentes, imagens totalmente díspares. Desacelerando, uns de um dia a dia de trabalho, outros vivenciando na plenitude a merecida reforma, ocupamos estes finais de tarde a fazer algo que nos dá prazer.
E, voltando a Sándor Márai que nos diz que a velhice aparece quando não nos acontece nada de inesperado, nem imprevisto, porque conhecemos todas as probabilidades, temos tudo calculado, já não esperamos nada, acreditem, enquanto tivermos estes interesses comuns na ponte de prado e eu, anualmente os Caminhos de Santiago e os cicloturismos da ESVV a caminho do Gerês, o corpo e a alma continuarão repletos de desejos e de recordações, o pavio da vela ainda perdurará por muitos e bons anos.
Carlos Mangas [Professor de Educação Física]
