Amares

“Vivemos numa era de um quase terrorismo ambiental, onde a razão grassa do lado de quem grita mais alto, não dos factos”

Os pais de Luís Macedo são naturais de Amares, mas, desde cedo, rumaram a Lisboa, onde acabou por nascer. No entanto, as relações com o concelho continuam fortes, “quase toda a minha família é residente em Amares”. Licenciado em Gestão Ambiental, olha para o território de forma crítica: “falta de consensos, muitas certezas absolutas alheias aos factos, pouco lugar ao debate”.

Ocupa os tempos livres como treinador de atletismo, mas está bastante atento ao concelho de Amares: “vejo um concelho que se encontra atrasado em relação a algumas matérias, como sejam a satisfação de necessidades primárias, onde incluo o saneamento básico, a higiene urbana, a gestão de resíduos e o abastecimento público de água”.

Qual é a relação que tem com o concelho de Amares?
A minha relação com o concelho de Amares provém dos meus pais, ambos nascidos no concelho, sendo que acabariam por rumar a Lisboa, o meu pai ainda novo e a minha mãe após o casamento.
Consequentemente, acabo por ser natural de Lisboa.
Hoje em dia, quase toda a minha família é residente em Amares.
Apesar da distância, e ainda que há 40 anos atrás atravessar o país não fosse feito de forma tão célere como hoje, sempre foi hábito dos meus pais rumar ao norte nos períodos de férias, com destaque para o mês de agosto em que ficávamos o mês inteiro.
Curiosamente, é uma prática que hoje tenho com os meus filhos, sempre que possível, rumamos para cima, para onde nos sentimos sempre bem.
E é precisamente assim que penso, as pessoas são de onde se sentem melhor.

Fale-me um bocadinho do seu percurso académico
Após o ensino secundário, licenciei-me em Gestão do Ambiente, na altura, uma licenciatura que tinha somente 2 anos de existência, mas cujo programa muito me atraiu, pois era bastante diferenciada das licenciaturas existentes em engenharia do ambiente ou engenharia florestal, por exemplo.
Volvidos 10 anos, e movido pela vontade constante de aprender e evoluir, acabei por reingressar na mesma universidade, dessa feita para obter o Mestrado em Ambiente, Território e Desenvolvimento Sustentável.
Pelo caminho, e porque efetivamente gosto de absorver conhecimento, realizei inúmeras formações profissionais, obtive o certificado de formador profissional, e ultimamente, dedico-me também ao treino do atletismo, modalidade que pratico desde os 12 anos de idade e da qual sou possuidor do título profissional de treinador de Grau II, sendo treinador num clube.

Em que altura, é que as questões ambientais entram nesse percurso?
Conforme referi, grande parte do meu ano era (e é) passado na cidade.
Sempre que vinha ao norte, a Amares, a mudança da paisagem, era algo que me impactava muito.
A dicotomia entre a paisagem citadina e as paisagens montanhosas do norte, sempre me apelou muito, sendo que nestas paragens, a natureza assume uma dimensão extraordinária, especialmente em Amares, que está ali mesmo sobranceiro ao Parque Nacional da Peneda Gerês.
Mas se tivesse que eleger um momento mais decisivo, diria que foi no dia em que a mata onde treinava em Lisboa começou a ser desbravada para ser atravessada por uma estrada, o que na altura me causou enorme perplexidade.
Foi nesse momento que decidi que gostaria que a minha vida estivesse ligada aos valores ambientais.

Licenciou-se em Gestão Ambiental. Como vê, atualmente, tratadas estas questões relacionados com o ambiente?
Infelizmente, e à semelhança de tantas outras temáticas que considero estruturantes para a sociedade, vejo-as tratadas de forma polarizada ou diria mesmo, radicalizada.
Falta de consensos, muitas certezas absolutas alheias aos factos, pouco lugar ao debate.
Se num passado relativamente recente as questões ambientais eram perfeitamente secundarizadas, hoje em dia estamos no extremo oposto.
Assistimos à criação de planos, regulamentos, medidas e outros documentos vinculativos, feitos quase exclusivamente com as questões ambientais em conta, diabolizando o crescimento económico, como se um e o outro sejam realidades antagónicas, o que não são de todo.
O conceito de desenvolvimento sustentável, descrito pela primeira vez em 1987 sempre identificou três componentes, a ambiental, a económica e a social.
Diria mesmo que vivemos numa era de um quase terrorismo ambiental, onde a razão grassa do lado de quem grita mais alto, não dos factos.

As alterações climáticas serão um grande problema no futuro?
Mais do que no futuro, as alterações climáticas são já uma realidade visível hoje em dia. Mas não lhes chamaria um problema.
Antes, um facto com o qual temos que lidar, isto porque para os problemas, existem soluções e as alterações climáticas, em minha opinião, não se resolvem, pois são um fenómeno natural cíclico.
Infelizmente, também a discussão sobre as alterações climáticas se encontra altamente polarizada; se por um lado existe quem as negue, por outro, há quem as exacerbe e à volta delas procure criar um verdadeiro clima de terror ambiental.
E neste momento, esta visão mais catastrófica tem vindo a crescer.
Catástrofe ambiental, emergência climática, dentro de 20 anos acontecerá isto e aquilo, são tudo expressões frequentes no vocabulário ambiental corrente.
Igualmente, existe uma forte tendência para exacerbar o papel do Homem nestas questões, quando a atividade humana é um dos fatores que contribuem para este fenómeno, mas não o único.
A própria ciência não é ainda totalmente consensual sobre o real impacte da atividade humana nas alterações climáticas, sendo reconhecido que sim, existe um potencial as acelerar. A questão é quanto.
Relembrando que são um fenómeno natural cíclico e com o qual teremos que saber viver, importa que as sociedades se tornem mais resilientes às mesmas.
Os planos municipais de adaptação às alterações climáticas são uma abordagem positiva que se começa a verificar pelo país, mas, em minha opinião, carecem de um maior reforço de medidas não estruturais, ou seja, legislação e regulamentação à altura.
E vinco aqui a importância destas medidas, mas mais ainda, da sua aplicação, pois em bom rigor, muitos dos impactes que se fazem sentir frequentemente, e neste caso, falo dos fenómenos climáticos extremos como as cheias, têm maior relevância porque, por exemplo, temos construções em leito de cheia ou em linha de costa, ou seja, por uma ocupação incorreta do território.
Adaptar é chave.

Trabalhando com questões relacionados com o ‘ambiente urbano’, uma das maiores problemáticas que os concelhos atravessam é o lixo urbano. Que sugestões tem para ajudar na resolução deste problema?
A resolução da problemática dos resíduos assenta em vários aspetos, mas a premissa maior temos que ter, é que os resíduos são uma consequência direta da vida.
Com isso em mente, existem três componentes que, em minha opinião, não podem falhar numa correta gestão de resíduos:
Conhecimento da realidade, Investimento e educação ambiental.
Por conhecimento da realidade, entendo um estudo compreensivo da dinâmica dos resíduos nos concelhos, pois esta não é igual em todos; a própria composição dos resíduos varia de município para município.
Este tipo de estudo deve ser realizado, maioritariamente, no terreno; analisar circuitos de recolha, a capacidade instalada de equipamentos de deposição, a sazonalidade da produção de resíduos, a composição e produção destes ao nível do concelho, da freguesia, do lugar, da rua, são a única forma de adequar o sistema de recolha às reais necessidades da população.
É também necessário identificar e implementar oportunidades de redução e resíduos na fonte.
O investimento é, quiçá, o fator chave que tenho identificado ao longo dos anos como o grande influenciador a curto prazo do grau de sucesso da gestão de resíduos.
E note-se, a gestão de resíduos é uma atividade bastante dispendiosa: viaturas, equipamentos de deposição, recursos humanos, tarifas de deposição de resíduos, entre outros, somam valores bastante consideráveis, que as tarifas de saneamento cobradas na fatura da água, indexadas ao consumo, muito dificilmente suportam.
Por isso, é de enorme importância possuir um profundo conhecimento da realidade dos resíduos para se investir de forma adequada, e também para que esta gestão se torne menos onerosa.
É ainda necessário identificar possíveis fontes de receitas, como sejam as empresas que se constituem como grandes produtores de resíduos, e que, legalmente, devem pagar a recolha como tal.
Por fim, a educação ambiental deve ser encarada como o fator de mudança a médio e longo prazo das práticas atuais.
Qualquer sistema de gestão de gestão de resíduos é amplamente condicionado pelo comportamento dos cidadãos.
Desta forma, e desde tenra idade devem-se ensinar as melhores práticas ambientais para que, no futuro, se obtenha uma população mais ambientalmente conscienciosa, e com comportamentos que permitam a redução de resíduos, desonerando um pouco os municípios dos avultados investimentos neste setor.
Estas três componentes podem e devem ser elementos de um plano estratégico municipal de gestão de resíduos.

E na água, o que se pode fazer?
No caso do abastecimento público, penso que será importante reforçar a capacidade de armazenamento.
A região norte, mais concretamente, o complexo montanhoso do norte é onde se verificam os maiores níveis de pluviosidade do continente, numa razão, em muitos casos, de mais do dobro de outras, como por exemplo, o Alentejo.
A questão está, pois, na capacidade de retenção e armazenamento, e creio que a aposta deverá recair nestas duas últimas, por forma a garantir um bem essencial a toda a população, de forma equitativa.
No caso do lazer e turismo, a utilização sustentável dos recursos hídricos será mesmo onde os municípios podem obter o seu fator diferenciador.
Tradicionalmente, Portugal é um país com forte ligação ao meio hídrico e igualmente, destino recorrente de visitantes de outras latitudes que não dispõem deste recurso com a mesma qualidade.
Os rios Homem e Cávado são extraordinários recursos para diversas atividades, para além da captação e abastecimento de água.
É neste sentido fundamental trabalhar de forma permanente na identificação e erradicação dos focos poluentes, para que se possam constituir praias fluviais de qualidade e galardoadas com bandeira azul, para que se constituam corredores verdes que se apresentem como eixos naturais de comunicação e permitam uma mobilidade alternativa, seja ela de lazer ou de outro carácter.
Reforço ainda a importância dos rios no ambiente em geral, pois são dos ecossistemas mais diversos que existem, que em termos de flora, como de fauna, constituindo habitats para variadíssimas espécies.

Uma vez que continua a vir a Amares, como vê o concelho? Para onde pode caminhar em termos ambientais?
Atualmente, vejo um concelho que se encontra atrasado em relação a algumas matérias, como sejam a satisfação de necessidades primárias, onde incluo o saneamento básico, a higiene urbana, a gestão de resíduos e o abastecimento público de água.
É um concelho que se tem revelado pouco atrativo para as empresas e consequentemente, para o investimento e para a para a fixação da população, conforme o confirmam os dados preliminares dos censos 2021, que indicam que perdeu população na última década.
Igualmente preocupante e olhando novamente para os censos, verifico que a segunda faixa etária mais representativa da população de Amares é a faixa dos mais de 65 anos, o que indica um claro envelhecimento da população.
Paradoxalmente, revejo em Amares um enorme potencial de desenvolvimento não só em matéria de ambiente.
Falo concretamente do enorme património natural, cultural e arquitetónico, da gastronomia, da vinicultura e tantas outras atividades que existem no concelho.
No que se refere ao ambiente, revejo mesmo o atraso que referi como uma enorme oportunidade, pois estão em posição de fazer melhores escolhas para servir o território e a sua população, com a vantagem de não ter que replicar erros do passado, pois o estado da arte nesta matéria evoluiu muito com esses erros.
O considerável património natural que abarca os rios Homem e Cávado, a considerável área florestal, a biodiversidade e o próprio clima, são fatores que muito podem alavancar o concelho para um patamar de excelência ambiental.
Creio que com uma correta estratégia municipal para o desenvolvimento sustentável, focada nas questões ambientais, mas alavancando a economia e direcionada para a população, o concelho terá seguramente muito a ganhar.

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