Vila Verde

“Se nada for feito, daqui a poucos anos temos freguesias completamente desertas”

A Associação de Desenvolvimento das Terras Altas do Homem, Cávado e Ave (ATAHCA), faz este ano 32 anos de existência. “Um balanço positivo”, considera o presidente da Associação, em entrevista do ‘Terras do Homem’. Mas mais do que um balanço, Mota Alves está preocupado com o futuro de algumas freguesias da sua área de influência, que em breve, poderão ser ‘fantasmas’. A ‘culpa’ pode estar no centralismo exagerado de quem “não ouve quem está no terreno”.

ATAHCA faz mais de 30 anos de trabalho junto de um território abrangente e que envolve seis municípios. É possível fazer um balanço resumido destas décadas de intervenção?
A ATAHCA faz em Setembro 32 anos da sua existência. Fazendo um balanço muito geral e transversal às suas áreas de atuação, umas ligadas ao desenvolvimento rural, incluindo a agricultura e o património até à formação profissional e apoio às empresas, e estou convencido que a ideia é corroborada por autarcas, instituições e população, é de que a ATAHCA foi uma mais-valia para o território e que o seu trabalho é positivo.

Mas é positivo porquê?
Em termos de investimento e de apoios, o investimento ultrapassa os seis milhões de euros e em termos de apoios deve andar muito próximo dos 80 milhões de euros. Apoiamos desde os pequenos projetos de explorações agrícolas, de transformação de produtos agrícolas, ao turismo rural com a criação cerca de 500 camas nos diversos concelhos, passando pela formação profissional onde passaram pela ATAHCA mais de 10 mil formandos até aos projetos de dinamização territorial dos quais saliento a atual Festa Das Colheitas de Vila Verde, onde estivemos na primeira linha da sua criação na Escola Secundária de Vila Verde ou as Papas de Serrabulho em Amares, também, surgiram com o apoio da ATAHCA.
A Festa de Santo António de Mixões da Serra, se não tivéssemos sido nós, não só no apoio às acessibilidades, mas também na recuperação de algumas tradições, principalmente a bênção dos animais e da própria processão, que tinham desaparecido há cerca de 40 anos, se calhar não tinha a projeção que hoje tem. Desde a primeira hora, apoiamos a festa de São Martinho, em Terras de Bouro.

Há também um papel importante na recuperação de aldeias…
Estou convencido que se não fosse a nossa intervenção ao nível da recuperação de aldeias, denominadas de Aldeias da Saudade, muitas delas, hoje, estariam com muitíssimo menos população e algumas delas já não tinham população alguma porque o património edificado estava em ruínas, o que não seria motivante para as pessoas lá residirem.

Temos também a questão dos pequenos frutos, hoje, bastante relevantes no território
Em 2012, a ATHACA conjuntamente com a Associação de Produtores de Pequenos Frutos do Norte, que era um grupo de agricultores de Vila Verde e o seu grande dinamizador, Tadeu Alves, fizemos o primeiro seminário de pequenos frutos que depois deu origem aos investimentos nesta área e de infraestruturas que respondem ao escoamento e comercialização dos produtos. Hoje já contribuiu para a entrada de dinheiro no território de mais de 6 milhões de euros, fator importante para os agricultores, alguns deles tendo a agricultura com atividade principal, outros complementar. Por outro lado, temos a paisagem mais cultivada, mais humanizada que ajuda na atração do turismo porque ninguém vem visitar um amontoado de silvas ou de giestas.
Ajudamos a valorizar a gastronomia e o artesanato locais com a presença em alguns eventos de âmbito nacional e até internacional, como a FIA em Lisboa, o Festival de Gastronomia em Santarém ou da Ilha Terceira.

Falemos da formação profissional…
Fomos das poucas entidades com mais cursos para operar tratores em segurança, com mais de 400 agricultores abrangidos e que, desde janeiro deste ano, se não tiverem este curso não têm oportunidade de operar tratores em segurança e estão sujeitos a coimas. Criamos dois CDLS um em Terras de Bouro e outro em Barcelos. Reconheço que o território ainda tem muitas necessidades e que urge responder aos problemas existentes através de políticas públicas.

Como presidente da ATAHCA passou por várias alterações nas políticas públicas. Houve aspetos menos positivos nestes anos que, de alguma forma, não ajudaram a associação a dar resposta aos desafios?
Temos uma realidade no país que é transversal aos diferentes governos que é a diferença entre quem está em Lisboa, quem tem o poder de decisão e quem está no terreno. Quem tem o poder de decisão nos diferentes Ministérios não compreende as nossas necessidades e não atende aquilo que cada território necessita . E dou exemplo: o mapa rural. Não compreendo quem está em Lisboa possa dizer que Braga não tem nenhuma freguesia rural, que Esposende não tem nenhuma freguesia rural e em sentido contrário que Vizela ou Paços de Ferreira são rurais. Por mais que se explique esta situação, eles não compreendem como nós não compreendemos a decisão deles.
As freguesias que estão na margem direita do Cávado são consideradas rurais, as freguesias que estão na margem esquerda não são freguesias rurais e para mim, isto é, incompreensível. Já fizemos algumas propostas ao longo dos anos a reivindicar a revisão e o reajustamento do mapa rural, mas Lisboa nunca entendeu assim porque dizem que os valores que têm indicam que estas freguesias são periurbanas ou urbanas.

Tem a ver com critérios?
Sim, com critérios que ninguém sabe muito bem quais são. Investimos imensas horas a lutar para alterar políticas e, infelizmente, não conseguimos porque quem está em Lisboa não conhece o terreno, e não conhecendo olha para mapas, dados estatísticos muitas vezes sem cuidado porque quando de censos para censos se perde população de forma considerável, alguma coisa tem se ser revista.

Que consequências é que isso tem?
Vou dar-lhe um exemplo. No PDR 20/20, nenhuma destas freguesias se puderam candidatar à renovação de aldeias porque um dos requisitos era pertenceram ao mapa rural. Outro exemplo incompreensível para a população, é porque é que o concelho de Amares tem um conjunto vastíssimo de freguesias que não são consideradas de baixa densidade. Bouro Santa Maria não é considerada de baixa densidade, mas Bouro Santa Marta, Parada de Bouro e Valdozende, freguesias que fazem fronteira, já são de baixa densidade. Qual é a diferença entre elas? Nenhuma. Daí dizer que quem está em Lisboa não compreende o território e isto prejudica as populações. Depois vêm com o discurso que estão preocupados com o despovoamento e a não fixação de jovens, mas com esta discriminação negativa como é que vamos resolver o problema? Não vamos! E daqui a alguns anos não teremos população nestas freguesias. Ou temos uma discriminação positiva através de políticas públicas ou vamos ter freguesias completamente desertas.

Se juntarmos a questão das comunicações móveis…
Se nós chegamos a freguesias periféricas dos centros dos concelhos, temos uma boa cobertura de telemóvel, temos banda larga, vamos para o interior ou não temos ou é muito fraca. Como é que podemos falar em agricultura de precisão, baixando custos e ter rendimento, se não temos uma boa rede de internet para instalar equipamentos de monotorização de informação, para regular as regas, as sementeiras? Olhamos para os centros urbanos porque é onde se elegem deputados, e eu sei que não é muito simpático dizer isto, nos centros rurais têm poucas pessoas a lá residir.
Outra das questões é a perda de serviços de proximidade nas aldeias. Porque não se pensarem em serviços de itinerância, já era uma resposta não sendo a ideal. As próprias sedes de junta deviam ter serviços de apoio à população para esta não ter que deslocar 20 quilómetros para o centro do concelho; haver locais com a venda de produtos, não perecíveis, que respondem a emergências da população. Nós fazemos esta reflexão no território porque falamos com as pessoas, estamos em contacto, mas quem está longe desconhece completamente esta realidade e quando falamos desta realidade dizem que estamos a delirar. As pessoas ouvem muito pouco o que se passa.

O futuro é promissor?
Ou se tenta criar um desequilíbrio a favor do interior e isso só se faz com investimento. É importante continuar a investir na agricultura com a introdução de modos de produção inovadores, mais rentáveis; criar alguns produtos de fileira em termos agrícolas, como a vinha, o kiwi, o mirtilo, o leite, a maça porta da loja ou o limão. Era importante criar uma marca no território, ter uma marca Cávado, ligada aos produtos e aos produtores, que pudesse ser transversal a toda a atividade económica.
Falta algum planeamento, tanto a nível agrícola como florestal, por exemplo, na questão da água. Quem tem essa responsabilidade deveria olhar para os recursos de água e perceber de que maneira se pode reter água para termos garantia que temos água para a rega e para o consumo humano. E com investimentos pequenos podem-se criar açudes, os regadios tradicionais deveriam ser valorizados.

E em relação aos produtos?
Mais do que pensar em emparcelar os terrenos, deveríamos pensar como emparcelar o produto para se conseguir dar uma resposta importante, mantendo a qualidade do produto, mas conseguindo escoar com mais facilidade aquilo que é produzido.

O PRR vai sero próximo grande desafio?
O PRR é muito mais para políticas públicas e lamentavelmente não temos muito acesso a ele. Vamos ter o PEPAC e eu espero ter através dos programas operacionais alguma intervenção e poder de decisão. Nós no +CO3SO conseguimos multiplar de 1 para 9. Vai ficar sob a nossa alçada a medida Leader do PEPAC e, para além dessa, espero ficar também com o que tem a ver com as verbas do FEDER e do Fundo Social Europeu relacionadas com o Quadro Comunitário de Apoio. Temos provas dadas na gestão de anteriores fundos que tiveram um impacto enorme e se isso for avaliado não há motivos para que assim não seja.

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