Dois centímetros separam o vilaverdense Domingos Magalhães dos Jogos Paralímpicos

Resiliência. A palavra adaptada ao desporto assume contornos bem definidos: lidar com problemas, adaptar-se a mudanças, superar obstáculos. Domingos Magalhães encarna tudo isto na perfeição. Várias vezes campeão nacional de peso na categoria ANDDI (Associação Nacional Desporto Deficiência Intelectual), junta ao currículo títulos também em 60 metros.

Domingos iniciou a modalidade andava na EB 2/3 Prof. Amaro Arantes, em Moure, de onde é natural. Andava no 5º ano quando começou a ficar ‘fascinado’ com os treinos de lançamentos que os outros colegas faziam, no âmbito do Desporto Escolar. Ganhou coragem e pediu à professora Paula Pimentel para experimentar. Nunca mais largou nem os treinos nem a professora que se tornaria a sua treinadora.

Na altura foi experimentando os três lançamentos: peso, disco e dardo em treinos de 90 minutos. “Quando algum professor faltava lá ia eu treinar”. A resiliência começa, também, a ganhar ritmo ‘competitivo’: “sempre quis ser como os outros e sempre quis que ele fosse como os outros”, revela Paula Pimentel.

Corria a época de 2014/2015 quando se ‘aventurou’ na competição quer a nível de desporto escolar quer no atletismo federado participando nas provas regionais. Para isso, foi preciso criar um clube, que tinha o nome da escola, e no qual Domingos era o único atleta.

Recordes nacionais

Domingos bateu todos os recordes pessoais e nacionais que havia para bater nas diferentes categorias por onde passou. Na escola, “em vez de andar a fazer asneiras passei a estar mais focado e o desporto ajudou. Sempre que não tinha aulas, ia treinar”. A evolução seria e é evidente até porque, como diz a treinadora, “dedicou-se com empenho ao treino, pois percebeu que aqui era melhor que os outros”.

Começou a ter a atenção de toda a comunidade escolar. Cada medalha era motivo de orgulho para a escola que o apoiava entusiasticamente, assim como a família. “No atletismo fiz novos amigos e incentivei outros para virem porque gosto muito disto”, refere o vilaverdense.

A verdade é que as exigências foram aumentando e Paula Pimentel sentiu necessidade de criar um clube federado. Ela que esteve anos ligada à formação da modalidade no SC Braga optou por outros caminhos e em 2015 cria o Clube de Atletismo Bracara (CAB) onde Domingos era o único atleta.

 

Jogos Paralímpicos

Voltamos ao início deste texto. Resiliência, também é resistir à pressão de situações adversas. E há dois centímetros atravessados na garganta de Domingos. É o que falta para ser incluído no projeto nacional para os Jogos Paralímpicos. A marca de 12 metros no lançamento de peso está ao virar da esquina, mas há qualquer coisa de inexplicável para que tal ainda não tenha acontecido.

“Nos treinos ultrapassa com facilidade essa marca; no aquecimento do último campeonato de Portugal ultrapassou a marca, mas depois na prova, propriamente dita, ficou a dois centímetros”, diz a treinadora. Ainda assim isso não foi motivo para não entrar na lista para os jogos. Faltam dois centímetros: “vou conseguir porque esse é um dos meus sonhos”.

E o adiamento dos jogos até vem a calhar porque “temos mais tempo para conseguir atingir a marca” revela Paula Pimentel.

Treinos

Domingos tem 20 anos e está a acabar o curso de jardinagem na Escola Agrária de Ponte de Lima. Por isso, quando não tem escola, férias e fins de semana, vai trabalhar a tratar de jardins.

A ida para a vila limiana alterou as rotinas de treinos. Passou a treinar no estádio 1º de Maio, em Braga, onde o clube está sediado, de segunda a sexta das 19h00 às 20h30.

Uma logística complicada em termos de transportes. “Tivemos que articular com professores que vinham para Braga, ir buscá-lo ao autocarro e mesmo assim era difícil estar aqui a horas”, reconhece a treinadora.

E até nisso o vírus foi positivo. Com o estádio 1º de Maio aberto para atletas federados e em projetos olímpicos, Domingos consegue treinar mais e mais cedo. Os resultados irão aparecer lá mais para o Outono, esperando que as coisas estejam mais normalizadas.

“Ele quer ser igual aos outros e por isso, gosta e quer treinar mais”. E quando vem de provas onde lançou com os grandes nomes nacionais, a motivação vem a dobrar.

Uma coisa é certa: “desde que está a fazer um trabalho mais intenso e contínuo começaram a surgir os resultados a nível nacional e de seleção”. Porque é essa a fibra dos resilientes.

Mais informações na edição impressa do jornal ‘Terras do Homem’

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