Cientistas descobrem chimpanzés selvagens infetados com lepra pela primeira vez

A lepra é uma doença particularmente perturbadora e dolorosa que, até agora, foi encontrada sobretudo em humanos. Mas uma equipa internacional de investigadores detetou recentemente a doença em chimpanzés selvagens.

Kimberley Hockings, um cientista que trabalha no Parque Nacional de Cantanhez, na Guiné-Bissau, reparou que vários chimpanzés selvagens daquele local apresentavam lesões no rosto.

“Nunca vi isto em chimpanzés”, escreveu Fabian Leendertz, veterinário de vida selvagem, a quem Hockings enviou um e-mail a pedir ajuda.

O veterinário decidiu, então, examinar amostras fecais de Woodstock, um chimpanzé selvagem do Parque Nacional Taï que apresentava os mesmos sintomas, e encontrou traços de Mycobacterium leprae, a bactéria que provoca a Lepra.

Além disso, os investigadores sequenciaram o genoma do patógeno e descobriram que era de um genótipo raro chamado 2F. Já na Guiné-Bissau, os chimpanzés estavam infetados com outro genótipo chamado 4N/O.

A lepra é uma doença sobre a qual não existe muita informação, mas que já afetou milhões de pessoas em todo o mundo. Depois de ter sido descoberta uma combinação de antibióticos que tratava a doença, o interesse científico diminuiu e, durante anos, os investigadores pensaram que afetava apenas humanos.

Mas, nas últimas duas décadas, o patógeno foi descoberto em tatus-galinha e esquilos vermelhos, onde se observou o mesmo genótipo bacteriano, denominado 3I, associado a infeções humanas na Europa medieval – o que indica que este terá passado dos humanos para os animais.

Agora, o novo estudo mostra que os chimpanzés selvagens sofrem de lepra, uma doença nunca antes documentada nestes animais. As estirpes da doença não parecem, no entanto, relacionadas e é improvável que tenham origem no contacto com humanos, argumentam os autores. O que significa que a descoberta pode indicar uma fonte desconhecida de lepra.

De acordo com a Science Magazine, as doenças humanas podem transmitir-se para os chimpanzés, com consequências devastadoras, mas Leendertz acredita que uma transmissão recente entre humanos e chimpanzés é improvável.

Além disso, os genótipos responsáveis ​​por ambos os surtos são raros em humanos, diz o estudo. “O cenário mais provável é que haja algum reservatório de lepra não identificado”, disse o veterinário.

Anne Stone, uma geneticista evolucionista na Universidade Arizona State, disse que suspeita há muito tempo que a bactéria da lepra possa prosperar noutro reservatório, em parte por causa do tamanho pequeno do seu genoma.

Além disso, Stone sugere que a bactéria poderia ter outro hospedeiro antes de passar para os humanos. “Os dados apontam cada vez mais para a possibilidade de que algo que não os humanos seja realmente o hospedeiro principal”, diz Stone, explicando que esse hospedeiro tanto poderia ser um animal caçado pelos chimpanzés como o meio ambiente.

Mas os roedores são os principais candidatos a hospedeiro, diz a cientista, que não descarta a hipótese de alguns insetos também terem sido infetados pela doença.

É um novo caminho interessante para a pesquisa da lepra, diz Charlotte Avanzi, outra autora do artigo. “Qualquer pista que possamos obter de animais ou de qualquer lugar é muito, muito útil”, acrescenta.

Até ao momento, os chimpanzés infetados parecem estar a lidar bem com a doença, embora um esteja a perder peso, diz Hockings. Mas tratá-los não é uma opção, “os humanos precisam de tomar antibióticos durante meses para tratar a lepra. Não se pode fazer isso com animais selvagens”, explica acrescenta Leendertz.

Por enquanto, a doença não parece colocar em risco os grupos como um todo, “mas é uma ameaça adicional, claro, além da caça ilegal, perda de habitat e outras doenças”, diz.

ZAP //

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