Para não esquecer Auschwitz

Num angustiado artigo publicado em 1955, dez anos após a sua libertação de Auschwitz, Primo Levi diz, a propósito da obra-prima Se isto é um homem (1947), que a escreveu por temer que a “gigantesca máquina da morte” caísse no esquecimento, num tempo ainda muito próximo do horror, mas que as pessoas comuns queriam esquecer. Levi chamou a este fenómeno o “silêncio do mundo civilizado”.

Agora, 75 anos após a libertação de Auschwitz, quase que parece verificar-se o contrário: tantos são os livros publicados sobre o campo da morte e o nazismo – desde histórias romanescas (como “a bailarina de Auschwitz”, “a bibliotecária de Auschwitz” e por aí fora), a biografias e obras de divulgação de qualidade variável – que o Holocausto e o regime de terror nazi correm o risco de se banalizar como o mal que tanto atormentou Anna Harendt. Na verdade, muito se fala, mas poucos leram Eichmann em Jerusalém (1963), cujo subtítulo introduz o discutido conceito de “banalidade do mal”, e menos ainda terão conseguido passar das primeiras páginas desse extraordinário esforço de ficcionar o pensamento e as acções de um mero oficial nazi, um torcionário desumano e sem sombra de arrependimento, que é o livro As benevolentes, do norte-americano Johnathan Litell (Dom Quixote, 2006).

No meio do lixo efémero que corresponde ao ar dos tempos continuam, porém, a aparecer obras de divulgação de carácter histórico que veiculam novas interpretações e aplicam novos métodos de abordagem ao relato dos factos. É o que acontece com Auschwitz: os nazis e a solução final, de Laurence Rees (Dom Quixote, 2019), que conta com detalhe o processo que levou à transformação de Auschwitz no lugar de todos os horrores, contrariando alguns mitos do conhecimento comum e explanando as políticas de segregação nazis desde o período anterior à guerra. O processo narrativo dá voz a vítimas e carrascos, transformando o livro numa excelente introdução ao Holocausto e num contributo contra o esquecimento e a banalização. No tempo incerto que vivemos, em que vozes contra a democracia falam cada vez mais alto e a memória do horror que foram as ditaduras do séc. XX começa a desvanecer-se, vale a pena ler este livro e compreender que o mal existe, e nunca devemos baixar a guarda.

Manuela Barreto Nunes [Bibliotecária]

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *