Cartas a um amigo que lê jornais#3

Meu caro amigo… Hoje vou falar-te de algumas facetas de minha infância. Todavia, advirto-te de que algumas delas já as encontro quase desvanecidas no meu subconsciente.

Como já te disse, nasci na freguesia de Esqueiros. Porém, devo de acrescentar para que sejam desvanecidas algumas dúvidas que possam subsistir que, efetivamente, nasci na citada freguesia. No entanto, durante os primeiros anos de vida, o meu crescimento verificou-se no lugar Bom Retiro, em S. Paio de Vila Verde.

Quando haviam grandes contrariedades entre minha mãe e meu pai, toda a família era transferida com armas e bagagens para a “Casa da Quinta da Cadeia”, em Esqueiros, o que aconteceu algumas vezes nesse tempo de minha meninice, o que ainda recordo com saudade.

Estes acontecimentos repetidos, transtornavam-me a cabeça e baralhavam-me os pensamentos, o que me causava um sofrimento psicológico atroz. Mais do que uma vez, dei por mim refugiado num canto do galinheiro, tentando desse modo não ouvir as discussões entre os meus progenitores.

Por isso, e por outras coisas, a minha infância foi pouco ou nada ditosa e em virtude de tudo isso, como podes calcular, o princípio de vida foi infeliz.

O facto de eu procurar proteção junto das aves de capoeira estava relacionado com a minha primeira experiência de vida a refletir momentos de felicidade, que ainda hoje são vagamente recordados.

Foi assim: Uma minha tia materna era anã. O seu gene foi transmitido, muitos anos depois, ao meu sobrinho Joca, filho de meu irmão Arsénio da Cadeia.

Nitidamente, recordo ainda essa minha tia, cujo nome nunca esqueci: chamava-se Armanda e faleceu num dia de Páscoa, por volta dos anos de 1940 ou 1942.

Durante a noite daquele dia, forte vendaval assolou a terra nos terrenos da casa que habitávamos. Arrancou, pelas raízes, uma enorme e grossa oliveira. Recordo que eu e minha tia Armanda brincámos dentro do buraco que a árvore abriu ao ser arrancada pelo vento ciclónico, ficando as suas raízes todas a descoberto.

Depois seguimos campo fora. Minha tia levava, numa das mãos, uma chibata retirada da oliveira que o vento derrubara. Com a outra mão segurava uma das minhas, pequeninas ainda. Desta forma, encetamos caminhada pachorrenta campo adentro.

A princípio descortinava somente um tapete de ervagem verde, enorme, sem fim. Todavia, à medida que caminhávamos, parecia-me ver aquele tapete de erva a transformar-se em uma cor tórrida acastanhada, povoado de um bando de monstros muito grandes, com vida, movimentando-se lentamente, um ou outro corria atrás não sei de quê.

Do meio daqueles bichos enormes destacava-se um fantasma ainda maior: era todo branco desde a da cabeça aos pés. Este fantasma branco, que eu pela primeira vez via na vida, despertou minha curiosidade em saber do que se tratava. Para tanto, julgo ter interrogado minha tia…não sei se o fiz. Porém, sei que dei por mim atentamente escutando algo que captava toda a minha atenção.

Francamente, o que ela disse já não recordo, desapareceu da minha memória. De toda aquela conversação, fixei apenas a palavra corredor, que muito mais tarde relacionei com a denominação que cá por estes lados se dava aos lobisomens e que o poeta vilaverdense Fausto Feio escreveu num maravilhoso poema.

Com efeito, estávamos agora no meio de um bando de descomunais galinhas, metamorfose em que se transformaram os fantasmas vistos antes de longe. O grande fantasma branco, que antes se figurou a meus olhos, era afinal o primeiro galo que via na vida.

A partir deste dia cresci lentamente, como crescem toas as crianças, sempre com o espírito de observação alerta, examinando ao pormenor tudo quanto me rodeia, espicaçado pela curiosidade de querer tudo saber. Desta forma, aprendi a observar e a compreender que, para saber, teria que ser paciente, manter-me firme sem bacilar, dedicar-me e estar sempre muito atento a tudo o que se movimenta e produz ao meu redor. Lições aprendidas, que ainda nos dias de hoje são por mim praticadas – e que resultam!

Amigo: o espaço de que disponho para te escrever está a finar-se.

Não te esqueças de ler o próximo Terras do Homem onde continuo com peripécias da minha infância.

 

Serra Nevada [Escritor]

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