Desflorestação

Ensina-nos David Attenborough que «tudo aquilo de que nos torámos dependentes – todos os serviços que o ambiente da Terra sempre nos proporcionou de graça – poderá começar a falhar ou a faltar por completo».

A normalização dos incêndios, das cheias, do desprendimento e deslocamento de massivas calotas polares, o aparecimento de quantidades inimagináveis de lixo nas várias praias do mundo, bem como as mais virulentas declarações de vários líderes políticos actuais, é deveras preocupante.

Se não, vejamos: o fiorde “Nioghalvfjerdsfjorden” liberou-se de cerca de 110 quilómetros quadrados de gelo, que se situa no final da Corrente de Gelo da Gronelândia. Esta novo sinal da acção do aquecimento global no planeta não se separa dos monstruosos incêndios, havidos na Austrália, eventos que atingiram 143 milhões de mamíferos, 2,46 bilhões de répteis, 180 milhões de pássaros e 51 milhões de batráquios. Infelizmente, os números não mentem.

Já em Moçambique, as cheias do rio Limpopo, na sequência do ciclone Eloise afectaram cerca de 43 mil famílias e inundou milhares de hectares de terra. De acordo com o delegado provincial do Instituto Nacional de Gestão do Risco de Desastres, na província de Gaza, Manuel Machaieie, «32 mil hectares de culturas alimentares diversas ficaram afetados. Em termos de vidas humanas, perto de 43 mil agregados familiares ficaram afetados».

Entretanto, no paradisíaco Rio de Janeiro, o maior destino turístico internacional no Brasil, da América Latina e de todo o Hemisfério Sul, cidade carioca com perto de sete mil milões de habitantes, as praias da baía de Guanabara, cujo clima permite veraneantes ao longo de todo o ano, está a ser vítima do despejo de toneladas de lixo no oceano.

Os banhos são absolutamente desaconselhados, sendo que a descarga de plástico e lixo doméstico já invade o areal. Verifica-se, por conseguinte, de um crime ambiental que não encontra prevaricadores. Estes números, observados na praia do Galeão, representam, apenas, uma pequena parte do lixo que vem dando à costa do Brasil, sujidade diversa que, também, encontra origem na própria “Cidade Maravilhosa”, a partir da qual os habitantes se livram de 70% de plástico de uso único, embalagens descartáveis, copos de plástico, embalagens de comida, entre outros objectos.

No mesmo Brasil, a quase três mil quilómetros de distância, na floresta amazónica, a desflorestação continua o seu caminho, profundamente, pernicioso. Um dos grandes responsáveis por esta política de destruição do mais relevante “pulmão” do planeta é, sem qualquer tipo de dúvida, Jair Bolsonaro. Sustentado no âmbito de uma ideologia política neoliberal, do tipo fascista, e negacionista do aquecimento global, Bolsonaro, no bom estilo autoritário, afasta do seu caminho, ditado pelas normas imperialistas, todos os que ressaltam a sua falta de valores, a sua acção política irresponsável, bem como a sua posição de constante golpismo faccioso.

Ora, a taxa de desflorestação da Amazónia brasileira ascendeu ao total de 96% desde que aquele Presidente assumiu o cargo. Estas decisões de pauperização da Amazónia surgem de modo concomitante às críticas de empresas e firmas de investimento, sendo que, 1.034 Km2 de área de desflorestação aconteceu em Junho de 2020, elevando o total anual para 9.564 Km2, ou seja, mais 89% do que foi calculado no ano anterior. Este mês de Junho apresenta-se como o 15.º mês consecutivo, a partir do qual se regista o aumento de perda da área florestal. De acordo com o sistema de satélites DETER, a desflorestação cresceu 25% de Janeiro a Junho de 2020, por comparação homóloga com 2019.

Estes dados relevantes são publicados, desde 2007, pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais. Bolsonaro, quando conhecedor das acções desta INPE, não conteve aquela ira primária e devastadora, à semelhança do que vem demonstrando com a onda de saneamentos no Governo que lidera, exonerando a investigadora Lubia Vinhas do cargo de coordenadora-geral de Observação da Terra do INPE. O ministério da Ciência argumentou que a demissão surge na sequência do processo de transferência de cargos, no âmbito de uma reestruturação do INPE. Mentiras que não colhem, porquanto o departamento, para a qual seriam transferidas as responsabilidades de Lubia Vinhas, não existe.

Este tipo de procedimento político tem trilhado caminho nas mais várias latitudes, subjacente num esforço substancial em diminuir a capacidade democrática dos estados, catapultando os mais esforçados partidários do capitalismo para uma posição de maior destaque, promovendo a implementação global do Imperialismo, responsabilidades das quais não devemos afastar a União Europeia, potência imperialista aliada aos Governos reaccionários americanos que, com ameaças de sanções aos apologistas, os encobre, beneficiando-os nos seus negócios predadores.

Bruno Marques [Escriturário]

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