Método inovador no ensino do inglês dá nomeação para prémio de melhor professor

Neuropedia. Pouco gente terá ouvido falar, mas a verdade é que o método inovador está na base da escolha de Paulo Sérgio Negrete para o Global Teacher Prize. A morar na Lage desde 2019, o brasileiro fez carreira no seu país natal a ensinar línguas de forma inovadora. Com 15 livros publicados, Paulo Negrete explica ao ‘Terras do Homem’ o método que põe pessoas a falar inglês ao fim de nove meses… a brincar.

Explique-me como veio parar a Portugal e a Vila Verde
Eu sou neto de portugueses, naturais de Aveiro, e a atual situação no Brasil levou-me a querer sair do país. Nos fóruns de brasileiros no exterior, Braga aparece muito forte, com muito boas referências, em termos de qualidade de vida, de segurança e já com muitos brasileiros o que para a integração é melhor. No entanto, nas pesquisas que fiz reparei que as rendas em Braga eram muito altas e alarguei a procura para outros locais. Foi assim que cheguei a Vila Verde e à Lage, onde as rendas são bem mais baratas.

Como está a ser a adaptação?
Bem fácil. É um lugar tranquilo e os meus irmãos já estavam por cá e a trabalhar por isso a decisão foi fácil. Curiosamente tratei de tudo pela internet: o contato com o senhorio, o pagamento adiantado. No Brasil diziam que estava tolo em fazer as coisas assim, mas eu sempre respondia: “eu conheço os portugueses, lidei com eles a minha toda e se há coisa certa é que português não é ladrão”. Correu melhor do que estava à espera: o senhorio foi-nos buscar ao aeroporto e tudo!

Chegou quando?
Estou na Lage desde 28 de fevereiro de 2019 e 15 dias depois fiquei muito doente. E até nisso Portugal é bem diferente do Brasil. Dei entrada no Hospital de Braga com uma alegada pneumonia, fui muito bem tratado e quase sem pagar nada. No Brasil, condições como em Portugal só em hospitais de topo e dos mais caros.
A verdade é que estive internado 15 dias em cuidados intensivos, e depois mais duas em quarto e os médicos sem darem esperança de sobreviver aos meus familiares. Foram 30 dias de muita apreensão. Os médicos chegaram à conclusão que tinha contraído H1N1 e, provavelmente, trouxe do Brasil. Estou convencidíssimo que no Brasil teria morrido por não ter estes cuidados e tratamentos hospitalares.

É professor desde quando?
Desde 1991. No Brasil nunca me conformei com o tempo que se demora a aprender uma língua nem com a forma como se faz. Porquê começar pela gramática e pelos verbos to have e to be? Até 1995 foi professor de forma tradicional, mas sempre a procurar outras formas de ensinar inglês. Entre 96 e 99 comecei a experimentar um método de aprendizagem acelerada em multinacionais.

De que forma?
Criei grupos de controle, numa empresa dava o método tradicional um pouco melhorado e noutra empresa dava o meu método de aprendizagem acelerado. Comecei a perceber que no curso de um ano, sem avisar para evitar o efeito placebo, o grupo onde eu apliquei o meu método havia avançado dois livros e o método tradicional só um. Portanto, consegui uma melhora de 50%, é bom, mas não é suficiente. Em 1997, começou a internet no Brasil, ainda muito rudimentar, muita lenta, com um modem muito barulhento. Comecei a pesquisar aprendizagem acelerada, e lembro que não existia google, descobri um cientista que desenvolveu um método de aprendizagem acelerada na Bulgária. Em 1999, entrei em contacto e consegui ir ter com ele à Áustria onde ele morava para fazer um treinamento com ele.

Como se chamava esse método?
No início de 2000, fiz o treinamento, chamava-se Suggestopia; em julho de 2000 fui para o Japão com ele onde fiz o treinamento. A Suggestopia baseia-se numa ciência e, na época, era o único método documentado pela UNESCO que fez uma análise deste método na década de 80, emitiu um parecer oficial com considerações positivas e negativas. Até então, a Suggestopia é baseada na aplicação da sugestão não hipnótica na comunicação e na aprendizagem de qualquer coisa.

Comparando os dois métodos: no tradicional vai abrir um livro vai ter um capítulo com um texto pequeno, depois uma análise do texto, depois a gramática, depois um tópico para conversar, tudo em pedaços. Depois passa para o capítulo dois que não tem conexão com o capítulo um e aí tem outro texto e por aí adiante. O problema é que o nosso cérebro não entende assim.

Então onde está a diferença?
Tudo na nossa vida é conectado, então, é preciso saber quem é a pessoa que está a aprender. Por exemplo, é um homem, jornalista, casado, que gosta de chocolate, que tem trauma a línguas, mas gosta de passear, fala em público, mas tem um medo qualquer. Eu tenho que entender a pessoa como um todo e é assim que apresento o inglês pela primeira vez. Como? Do mesmo jeito que os nossos pais nos apresentaram o português. Quando éramos pequenos eles não falavam connosco só o verbo ser e estar durante seis meses e depois o futuro dos verbos e por aí adiante, eles simplesmente se comunicavam connosco, nunca nos ensinaram preposições, gramática, nada, eles comunicavam. E nós sozinhos arranjamos toda uma gramática na nossa mente.

Com base na sua experiência criou um método inovador. Como se chama?
O meu método é a Neuropedia. Quando a UNESCO fez aquelas considerações, nunca ninguém havia corrigido os pressupostos negativos que eles referenciaram. De 2000 a 2014 corrigi esses erros e coloquei mais descobertas das neurociências. Nesse período de 14 anos eu escrevi 15 livros publicados no Brasil e que estou a publicá-los em Portugal.

Vamos imaginar como seria uma aula: eu deixaria de ser o Paulo, é tudo uma fantasia, uma brincadeira, então eu sou um diretor de filmes ou um jornalista americano que procura pessoas para fazer uma entrevista. Entro dentro da sala de aula, completamente caraterizado, estou em Portugal, começo a falar inglês e ninguém entende nada, mas não tem importância até porque quando os nossos pais falavam connosco, nós também não entendíamos. Eu fico maravilhado por haver um grupo de portugueses que querem aprender inglês, tudo como se fosse uma brincadeira. Qual é o interesse disso? Ao invés de usar a sua mente consciente para aprender o idioma, eu vou alcançar o sistema límbico do cérebro que é onde se guardam as emoções, a criatividade.

E tanto dá para crianças como para adultos?
Se observarmos, a criança é uma esponja porque não tem stress, não tem medo e aprende de uma forma inconsciente, está brincando e está a aprender sem se aperceber. Os jovens aprendem um idioma com facilidade porque estão a jogar um videojogo em inglês, não estão ali para aprender inglês, mas para brincar. Acontece que o videojogo é todo em inglês e o cérebro, inconsciente, diz-lhe que precisa aprender aquela língua para ganhar o jogo e então ele move toda uma neuro plasticidade e acaba por aprender uma língua de forma inconsciente.

Na brincadeira que eu faço, as pessoas estão mais interessadas em perceber o que está a acontecer, eu falando e ninguém entende nada. Com mímicas e com entonações diferentes na voz, ativo o inconsciente das pessoas que acham o inglês maravilhoso e fantástico e eu ali brincando, de repente introduzo a minha família e vou colocando pequenas traduções para que o cérebro perceba o que eu estou a querer dizer.

Tudo na nossa vida é ligado, mas primeiro é a comunicação e depois a gramática. Vou mostrando fotos da minha família, brincando com aquilo, as pessoas vão rindo e eu estou a dizer ao cérebro deles que essa é a sugestão, que o inglês é gostoso, delicioso, cheio de brincadeiras, que não é difícil. Eu não digo que vai ser fácil, divertido, eu mostro e isso é sugestão. Logo, as pessoas ficam a pensar que o curso vai ser interessante, diferente, divertido.

O seu método serve também para aqueles que aprenderam inglês, mas que por falta de prática, ‘perderam’ as bases?
Nós temos três cérebros: o reptiliano, o sistema límbico e o córtex pré-frontal. O primeiro é o mais primitivo de todos e só tem uma função: fazer correr ou lutar, é aquela branca que dá na altura de uma prova, mas ele pode ser treinado. No inglês, queremos fazer com o cérebro reptiliano entenda que a língua não é perigosa, que não é uma ameaça.

Quando chegam é como cada aluno estivesse dentro de uma casca de ovo, protegido, todos com medo. À medida que vão rindo, inconscientemente vão percebendo que não é preciso ter medo de errar. Quando saem dessa casca vão interagindo uns com os outros criando um lugar seguro. Quando as pessoas erram eu não corrijo diretamente, corrijo falando da mesma forma que as pessoas aprenderam português.

Um bocado diferente do tradicional…
Os professores hoje não vibram com as conquistas dos alunos, exigem perfeição, que tirem a nota máxima, é tudo baseado na perfeição e isso cria um stress muito grande nos alunos e uma necessidade de ser perfeito e ninguém é perfeito.

O cérebro é igual ao corpo e hoje já se sabe que o músculo tem memória, uma pessoa que vai para o ginásio fazer musculação aos 50 anos, mas quando tinha 19 fez muita o músculo lembra e desenvolve os músculos mais rápido que uma pessoa que nunca fez e começa na mesma idade. O cérebro é o órgão que gasta mais energia, quando nós adquirimos inglês, o cérebro é plástico, ocorre uma neuro plasticidade (criação física de sinapses conectando os neurónios). Se você para de falar, você faz este curso comigo durante três meses e reativa o que aprendeu. Eu só tenho três níveis básico, intermédio e avançado, e em nove meses uma pessoa sai do zero até ao avançado. Mais do que isso eu chamo criminoso, é só para ganhar dinheiro.

Há a necessidade de o aluno continuar a praticar, é um instinto de preservação do nosso corpo, o nosso cérebro está a gastar muito energia para manter aquele inglês, se você nunca mais fala, nunca mais se expõe, o cérebro pergunta porque está a armazenar aquela informação que não está usando. O que é esquecer um idioma? O cérebro percebe que você não o usa, ele dissolve a matéria branca sobre a sinapse, vem outra para cima e anula aquela. Ora, comigo, ao fim de 60 dias volta a ter o mesmo nível que tinha há dez anos quando levou quatro anos a aprender. Um aluno que nunca aprendeu tem que construir toda a teia e por isso vai levar 9 meses.

Há mais diferenças?
Este é um método que prioriza o aluno, não quero que eles sejam perfeitos. No meu método, nós temos uma mesa, os alunos estão em volta dela com o professor, somos todos iguais, só que eu professor, sou um pouquinho mais do que eles porque tenho uma autoridade para poder controlar senão vira uma bagunça, eles me vêm como amigo mais do que professor, dando um sentido ao que eles estão aprendendo e a comunicação entre eles é extremamente estimulada.

Como dá as aulas em Portugal?
Eu tinha uma escola no Brasil, dava aulas para muitos empresários, quando vim para Portugal, decidi abrir uma escola física em Braga, mas veio a pandemia. Como tinha muitas pessoas que foram conhecendo o método, tinha alunos brasileiros e portugueses e comecei a dar aulas em casa, onde separei uma parte da sala para isso. Com a pandemia, passei a dar aulas online onde tenho uma plataforma, em que vejo os alunos e eles me vêm, há um quadro branco e todas as atividades são feitas lá.

Cada aula tem duas horas, os primeiros 10 minutos são usados para conversação mesmo que você seja zero, depois cantamos uma música em inglês porque ajuda os maxilares, o processamento das informações, mesmo que não percebam nada, a ideia é ter sempre um nível avançado para puxar o cérebro, depois passamos para o livro que não tem nada a ver com um livro de inglês tradicional, porque é um livro todo, o nível avançado pode trabalhar no básico e vice-versa da mesma forma que quando somos crianças nem fala nível básico para uma criança.

E as aulas, como são?
Cada aluno escolhe uma personagem fictícia com determinadas caraterísticas, vivendo uma fantasia e todo o curso é baseado nestas personalidades que nós vamos ligando ao longo do curso, é uma infantilização, isto é, os alunos brincam como crianças deixando de ser adultos e todos amam. A gramática é aprendida com brincadeiras, com jogos de papel onde se completam frases com palavras coloridas. Na Neuropedia o aluno é visto como um todo, se um aluno está a cometer erros que nunca cometeu, eu vou perceber o que está acontecendo com ele e para isso, tenho que ter alguma formação em psicologia. Então eu não corrijo hoje, deixo o aluno errar. Na próxima aula, o aluno volta acertar tudo. Não quer dizer que o aluno não aprendeu, foi apenas porque naquele dia a sua psicologia não estava boa. Por isso, o aluno é prioritário.

O nosso sistema não vai ser só ensinar o aluno, vai tratar dele, respeitar o aluno como todo para que quando houver um teste, ele esteja psicologicamente bem para acertar, não veja o teste como uma coisa terrível, de medo.

A Neuropedia pode ser transferida para outras disciplinas?
No sistema educacional tradicional, um aluno acaba a aula de Matemática, muda de sala e tem História, muda de sala e vai para Geografia. Quando chega a casa tem a matéria toda separada e o cérebro não aprende assim. Se nós juntarmos as matérias, o aluno tem uma aprendizagem mais continua, mais prazerosa, mais educativa, mais interessante para o aluno e ele vai memorizar com muito mais facilidade.

O professor de história entra na sala de aulas e diz que vamos falar sobre o descobrimento do Brasil e as grandes embarcações portuguesas através do storytelling, isto é, o contar histórias, de Pedro Álvares Cabral, da viagem e do aconteceu, pode-se passar um filme, um slide, que inspire os alunos e isto faz com que memorizem mais rápido.

Primeiro o professor apresenta o todo, bem rápido, e depois vão pegar em partes. Entretanto, toca para sair e os alunos vão para a aula de Física, quando eles entrarem, os professores já comunicaram entre eles, o que vão dar naquele dia, aí o professor de Física diz que vão aprender a fórmula da velocidade, imaginando que Cabral está numa caravela, conectando uma aula com a outra e ao fazer isso, o cérebro, automaticamente, puxa, inconscientemente, toda a aula anterior, e eles ficam a saber que Cabral ia a 10 quilómetros então eles têm que calcular quanto tempo demorou, acaba com exercícios em grupo, com o professor sempre a sorrir e a estimular o aluno para que não tenha trauma. Não é por culpa dos professores, mas porque hoje há ferramentas da neurociência que eles desconheciam. Portanto, é um método psico-higiénico, porque o aluno quer ir para escola, acelera a aprendizagem de 3 a 5 vezes, o que faria com que um aluno do 9ª ano estivesse a aprender coisas do 12º.

Como podem ter acesso ao curso?
Primeiro, eu posso treinar professores de qualquer disciplina. Se cada professor começar a mudar um pouquinho na sua aula já vai ser um grande avanço. Podem vir até mim através do meu site, para serem treinados no método e eles mesmo melhorarem as suas aulas. A minha ideia é oferecer este treinamento livre de qualquer custo porque quero que o povo português tenha acesso a isso, fazer uma revolução na educação.

Eu tive alunos aqui em Portugal, zero de inglês e em três meses estavam conversando.

Quantos alunos já teve desde que está em Portugal?
150/160. Desde que comecei a adotar o método cerca de 7 mil alunos. No Brasil em 2020 fui convidado a receber um prémio, Quality Award profissional do ano na área da educação.

Em Portugal, está nomeado para Global Teacher Prize Portugal
Sim, alguém me ligou de Lisboa a dizer que estava nomeado. Fizeram várias perguntas, tive que submeter vários documentos e a candidatura. Há agora três fases e se não passar nenhuma para mim já é uma honra ter sido nomeado. O prémio são 30 mil euros, podemos usar 15% e os outros 85% têm que ser no método. Mas eu deixei claro que não quero nada, que peguem no dinheiro e apliquem na educação em Portugal.

One thought on “Método inovador no ensino do inglês dá nomeação para prémio de melhor professor

  • 15/05/2021 em 18:17
    Permalink

    Método incrível esta Neuropédia. Consegue-se aprender rápido e sem medo. Paulo Sérgio Santos Negrete é um professor excelente.

    Resposta

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *