Afinal, Darwin poderá ter-se enganado em relação à seleção sexual

Um novo estudo sugere que Charles Darwin poderá ter-se enganado parcialmente em relação à teoria da seleção sexual.

Charles Darwin foi um cientista cuidadoso. Em meados do século XIX, enquanto procurava evidências para a sua teoria de que as espécies evoluem por seleção natural, ele percebeu que isso não explicava as caudas extravagantes dos pavões machos, os chifres desfilados por veados machos ou por que alguns dos machos de algumas espécies são muito maiores do que as suas contrapartes femininas.

Por estas peculiaridades, Darwin propôs uma teoria secundária: a seleção sexual de características que aumentam a probabilidade de um animal conseguir um parceiro e reproduzir-se. Ele distinguiu cuidadosamente entre armas como chifres, presas e tamanho absoluto, que são usados para subjugar rivais, e ornamentos que visam encantar o sexo oposto.

Darwin achava que as características selecionadas sexualmente poderiam ser explicadas por proporções sexuais desiguais — quando há mais homens do que mulheres numa população, ou vice-versa. Ele pensou que um macho com menos fêmeas disponíveis teria que trabalhar mais duro para assegurar uma delas como parceira, e que esta competição conduziria a seleção sexual.

Num novo estudo publicado na revista Evolution, os investigadores confirmaram uma associação entre a seleção sexual e as proporções sexuais, como Darwin suspeitou. Mas, surpreendentemente, as descobertas sugerem que Darwin entendeu as coisas da maneira errada.

Os autores descobriram que a seleção sexual é mais pronunciada não quando os parceiros potenciais são escassos, mas quando são abundantes — e isto significa olhar novamente para as pressões de seleção em jogo nas populações animais que apresentam proporções sexuais desiguais.

Desde a época de Darwin, aprendemos muito sobre as proporções sexuais desiguais, que são normais em populações de animais selvagens. Por exemplo, em muitas borboletas e mamíferos, incluindo humanos, o número de fêmeas adultas excede o número de machos adultos.

A diferença é mais extrema entre os marsupiais. Em contraste, muitos pássaros têm mais machos do que fêmeas nas suas populações.

Então, por que muitas espécies de pássaros têm mais machos, enquanto os mamíferos costumam ter mais fêmeas? A resposta curta é que não sabemos. Mas há provas incontestáveis.

Explicações para proporções sexuais desiguais
Algumas proporções sexuais desiguais podem ser parcialmente explicadas por diferenças na esperança de vida. Mamíferos fêmeas, incluindo humanos, geralmente vivem mais do que os machos por uma larga margem. Em humanos, as mulheres vivem em média cerca de 5% mais do que os homens, por exemplo.

As preferências do predador também podem desempenhar um papel. Os leões africanos matam aproximadamente sete vezes mais machos do que búfalos fêmeas, porque os búfalos machos tendem a andar sozinhos, enquanto as fêmeas são protegidas dentro dos rebanhos.

Em contraste, as chitas matam muito mais gazelas fêmeas do que machos, presumivelmente porque elas conseguem correr mais do que as gazelas fêmeas — especialmente as grávidas.

Por fim, homens e mulheres costumam sofrer de forma diferente com parasitas e doenças. A pandemia de covid-19 é um exemplo notável disso: o número de homens e mulheres infetados é semelhante na maioria dos países, mas os pacientes do sexo masculino têm maior probabilidade de morte em comparação com as do sexo feminino.

Analisando 462 espécies diferentes de répteis, mamíferos e pássaros, este novo estudo encontrou uma forte associação entre dimorfismo de tamanho sexual e proporções sexuais, justificando as conjeturas de Darwin.

Mas a tendência foi oposta à que Darwin previu com as suas evidências limitadas. Acontece que a seleção sexual mais intensa — indicada por machos maiores em relação às fêmeas — ocorreu em espécies onde havia muitas fêmeas para os machos escolherem, ao invés de uma escassez de fêmeas como Darwin sugeriu.

Implicações para a seleção sexual
Isto de forma alguma invalida as teorias de seleção natural e seleção sexual de Darwin. A descoberta simplesmente mostra que um mecanismo diferente do proposto por Darwin está a impulsionar a competição de acasalamento para animais que vivem em populações com proporções de sexos desiguais.

A suposição de Darwin foi baseada na ideia de que a competição mais intensa por parceiros deve ocorrer quando há uma escassez de parceiros de acasalamento. Mas teorias mais recentes sugerem que esta lógica pode não estar correta e que a seleção sexual é, na verdade, um sistema em que o vencedor leva tudo.

São necessários mais estudos para ajudar a entender como é que machos e fêmeas procuram novos parceiros, e em que circunstâncias ornamentos, armamentos e tamanho absoluto são particularmente úteis. Estes estudos podem fornecer-nos novos insights sem precedentes sobre como a natureza funciona, com base na teoria original de Darwin da seleção sexual.

ZAP // The Conversation

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