Meu afetuoso amigo:
Hoje, dia melancólico e triste, em que me encontro isolado e em confinamento imposto pelo maldito vírus da Covid-19, que sem dar cavaco a quem quer que seja, assolou o mundo, incluindo Portugal, onde já causou milhares de mortes e continua servindo-se da sua maldita gadanha a ceifar diariamente gente aos milhares por este mundo fora, sem que saibamos onde e quando o asqueroso será ele também exterminado, para descanso e alegria de todos os seres humanos.
Por me encontrar também eu sujeito a que o nefasto e funesto se lembre de me atacar, é meu dever procurar precaver-me, evitando, dentro do possível, ser apanhado. Daí esta melancolia que me apoquenta, sem outra alternativa a não ser a resignação de quem procura superar a sua própria superação.
O tentar ultrapassar por todos os meios possíveis esta fase, a mas difícil que se apresenta no percurso da minha vida, relembro outras ocasiões em que, no andamento da minha vida, surgiram obstáculos que à primeira vista pareciam intransponíveis. Porém, foram vencidos exclusivamente pela força do meu querer, muito embora os impedimentos que se opunham se assemelhassem a precipícios profundos de difícil escalada. Todavia, com maiores ou menores sacrifícios e sofrimento, a terrível escalada foi por mim efetuada e alcançado terreno firme.
A Minha Crónica
Serra Nevada, a Voz da Verdade
Corria o mês de Janeiro do ano 1990.
Já tinha passado o Natal. Fizemos então de conhecimento publico através das ondas desta rádio, as desumanas condições de habitabilidade e vivência em que foi encontrada uma velha senhora, na freguesia de Vilarinho do concelho de Vila Verde, de nome Isaura Gomes Pimenta.
Recordo o que então eu disse nesta mesma rádio:
“O presidente da Junta de freguesia de Vilarinho alertou o lar da terceira idade para a existência de uma senhora de idade avançada que vive na mais humilhante miséria”.
O texto que então escrevi foi lido aos microfones da rádio. Era do teor seguinte:
“Mãe … Quem é Jesus?
Perguntou uma criancinha atormentada por paralisia, numa noite tenebrosa de Inverno rigoroso.
O vento gemia através das fendas das paredes esburacadas da choupana em que viviam – mãe e filho.
E a inocente criança continuou:
Mãe… tenho frio, eu quero ver Jesus. Balbuciou trémula a criança, martirizada pelo frio, desesperada pela fome.
A mãe com o rosto banhado em lágrimas, cobriu com o seu corpo o corpo da criança para desse modo atenuar o frio que atormentava o filho, e disse:
Filho… Somos muito pobrezinhos para que Jesus nos visite.
Ainda não tinha acabado a frase, a porta abriu-se muito lentamente. O vento amainou, a chuva deixou de cair, a enxerga em que a criança se deitava estava agora enxuta seca e limpa, coberta de quentes cobertores.
Sobre o tampo da macera da humilde casa, um cesto com fruta e outros alimentos…”
Sabes, amigo? Dona Isaura Gomes Pimenta foi recolhida no lar da terceira idade de Vila Verde. O que prova que nem sempre o que se escreve ou que é noticiado será coisa que morre ao nascer, sem dar os resultados desejados…
A fábula do pobrezinho paralítico lembra a possível existência de um Deus que acode aos que nele têm fé.
A humanidade tem que ter fé…
Assim esta missiva termina.
Serra Nevada [Escritor]
