Cartas a um amigo que lê jornais#9

Amigo, nesta carta vou até ti para que saibas que muito cedo comecei a saber o quanto injustos são os homens, quando comandados por vícios que não conseguem controlar.

Para alcançar dinheiro com que satisfaçam as suas deficiências ou defeitos descontrolados, até são capazes de aplicar a crianças brutais injustiças que marcam para sempre o carácter da criança injustiçada. Eu fui uma das vítimas de um desses homens viciados, cuja profissão era formar e nunca desfazer o que outros tinham amestrado na minha personalidade em formação.

Estávamos no ano de 1948. Então, tinha eu onze anos quando, numa tarde desse ano, recebi ordem do mestre escola para logo que acabasse a aula seguir direito à casa do professor. A casa do professor era no Lugar do Bom-Retiro, em Vila Verde. Ficava um pouco mais a cima de minha casa, a casa do João da Cadeia ou casa dos da Cadeia como também era conhecida (essa casa acabou de ser demolida, num dia do mês de fevereiro de 2021).

Quem foi e quem é a Tiza? Era um denominativo adaptado a uma cachopa de tez morena e longas tranças negras, cujo nome era propriamente o de Beatriz. Por aquele tempo, a beleza das mulheres e raparigas ou meninas de minha idade, já não me passava ao largo. Em verdade, e com verdade te digo caro amigo: quando vi naquele dia a Tiza fiquei fascinado pela sua exótica formosura.

Esperei ao portão da casa do senhor professor, de pasta de couro presa por uma das mãos. Momentos passados chegou ela. Eu só tina 11 anos, mas já era malandrote. O que justifica tal epíteto era a minha compleição física muito abonada, a fazer de mim um rapagão com 14 anos, isto é só na aparência, pois, na verdade, por aquele tempo tinha somente 11 anos.

O professor chegou alguns minutos depois e subimos os três pelas escadas de pedra em serviço na traseira da casa da senhora professora, da Casa Carvalho, esposa do meu mestre escola (como outrora chamavam aos professores primários). Aquela escada terminava num largo pátio de onde se entrava para uma grande e airosa marquise (dizia-se então varanda). Aqui era a sala de aulas que eu, a partir daquele dia, passei a ministrar à Tiza.

Frequentava eu a 4ª classe do ano letivo de 1948/49 e tinha sido improvisado pelo mestre escola de mestre da Tiza. Certo dia, quando se aproximavam os exames, vi o meu professor a falar animosamente com o meu pai. Porém, meu pai saiu da conversação de semblante carrancudo.

Soube mais tarde pela minha irmã Maria do Sameiro que o professor queria que meu pai lhe pagasse, dizia ele, as lições que me dava em sua casa para eu ir a exame, uma vez que já era repetente na 3ª classe. Com verdade digo que, afinal, quem devia de ganhar esse dinheiro teria de ser eu… o professor ficava-se pelo café do Sá (hoje Café Recreio) na jogatina e só aparecia em casa pelo escurecer para nos mandar embora.

Sabes, amigo, o que eu ganhei em passar o ano escolar a fazer de professor da formosa menina? Recebi a brutal injustiça de não ser proposto a exame naquele ano.

Convenhamos caro amigo: saber que os homens são capazes de tudo para sustentarem os malditos vícios… no caso presente, a formação da minha personalidade poderia ter sido prejudicada. E não foi porque, apesar de muito moço ainda, já tinha sido tão injustiçado que estava imunizado à tremenda injustiça de que foi vítima ao perder aquele ano letivo…

 

Serra Nevada [Escritor]

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