“O ‘Got Talent’ ajudou-me a perceber o caminho a seguir no canto”

É vilaverdense e deu nas vistas no programa da RTP, ‘Got Talent’. Sílvia Pinto apareceu a interpretar canto lírico, foi longe no programa e a participação resolveu uma bifurcação que tinha na vida. Com formação na área das terapias completares depois de uma doença grave que teve, a cantora está a criar originais porque “posso ocupar um lugar só meu na música”.

Como foi a sua infância em Vila Verde?
A minha infância foi bastante feliz, com memórias de muita alegria. Fiz toda a minha infância em termos de catequese, participei no grupo coral, tenho sempre memórias de espírito solidário, uma caraterística dos vilaverdenses, acho que acaba por haver uma união e desde pequenina fui abençoada nesse aspeto porque sempre participei em grupos onde esse espírito existia. Fui para Braga estudar aos seis anos, mas fui continuando com as raízes, sobretudo a nível religioso, fazendo essa ligação.

É na infância que surge essa ‘vocação’ para música e para a arte?
Sim. As primeiras memórias que eu tenho é de uma criança muito viva, com muita energia e sempre com uma expressão corporal desenvolvida, isto é, sempre gesticulei muito com as mãos e tinha uma necessidade muito grande de movimentar o meu corpo, como se fosse uma extensão daquilo que eu digo e faço, daquilo que sou. Os meus pais perceberam isso e direcionaram-me, felizmente, para uma escola onde a música faz parte do currículo e onde pudesse ter acesso ao currículo regular, mas também, ao currículo artístico.

Isso foi importante?
Sem dúvida, porque me abriu portas para saber aquilo que eu queria e que caminho queria fazer da minha vida.

Quando é que percebeu que era a música que queria?
Foi aos 14 anos, mais ou menos, eu fui assistir a uma ópera. A minha madrinha de batismo, que também é minha prima, seguiu a vertente do canto lírico durante 10 anos e eu lembrou-me de ter ido ver uma ópera dela, acho que era o encerramento da tese dela. Era uma obra em francês, percebi quase tudo porque era uma língua que eu gostava. Só estava ela e o pianista em cima do palco e houve qualquer coisa que mexeu em mim, eu gostava de fazer aquilo também. Chamava-se a ‘Voz Humana’, uma obra para soprano solo e cativou-me muito. Fui-lhe pedindo que quando houvesse espetáculos para me dizer e começou a nascer um fascínio que eu nem sequer sabia que existia.

Nunca se cansou, durante este percurso, de cantar?
Cansar não. Como para mim, o cantar sempre foi muito natural, claro que há muito trabalho por trás, como é evidente, mas o ato de cantar, por si só, para mim é muito inato. Para mim, é mais fácil eu cantar do que falar, apesar de gostar muito de falar e escrever. Houve uma altura da minha vida que eu desvalorizei esse talento, esse dom que Deus me deu. Esta arrogância perante as nossas aptidões e capacidades acabam por nos tornar pessoas menos conscientes, porque a verdade é que isto é como um atleta de alta competição, é preciso treinar, estudar muito para estarmos na melhor forma possível quando dermos um concerto, nas performances. E houve uma fase da minha vida onde esse estudo foi desvalorizado.

A doença que teve transformou a Sílvia na forma de cantar, na forma de expressar?
Sem qualquer dúvida. Há uma Sílvia antes e uma Sílvia depois da doença em todos os níveis, quer enquanto pessoa quer enquanto artista. A voz é um instrumento muito especial, está dentro do nosso corpo, então, obrigatoriamente ela não é uma extensão exterior do nosso corpo, enquanto o violoncelo, piano são instrumentos exteriores ao nosso corpo, a voz não, é orgânica, é fisiológica e claro que quem passa por um problema de saúde como eu passei, que interiormente nos faz questionar, refletir, mudar comportamentos e até a forma como encaramos a vida, um instrumento como a voz vai-se ressentir de uma forma extremamente profunda. Eu sinto que a doença me trouxe uma consciência e uma evolução do meu valor, de quão abençoada eu sou por ter a minha voz e ser esta voz. Era uma coisa que antes eu não pensava e a doença trouxe-me isto porque eu perdia-a, queria tê-la e não a tinha, era mais importante do que eu julgava e quando a resgato há toda uma transformação pessoal e profissional que acontece, ainda que não queiramos que aconteça, é um renascer espontâneo que nos vai fazer olhar para a nossa arte de uma forma mais inteira.

Esse antes e depois mudou o reportório que cantava?
Não, não. Felizmente, em termos vocais eu mantive as minhas caraterísticas que era algo em que havia algum receio de que se pudesse alterar. Em termos de timbre, identidade vocal eu mantive. Muda é forma de olhar para o reportório. Se calhar, antes eu cantava a morte de alguém, um desgosto e eu tinha que tentar chegar aquela personagem o mais profundo possível sem nunca chegar ao mais fundo porque nunca tinha vivido na pele, agora não, consigo sentir aquela personagem e torná-la minha. A palavra já tinha uma importância para mim, mas ganhou um maior relevo.

Porque decidiu participar no Got Talent?
Decidi participar no ‘Got Talent’ porque sentia que tinha de andar para um lado ou para o outro. Na nossa vida aparece uma bifurcação, nós não sabemos para onde devemos andar e ficamos ali parados e eu estava nessa fase. Criei uma empresa de terapias complementares que está a funcionar lindamente, que é algo que gosto muito de fazer, que me satisfaz e realiza imenso, mas em relação ao canto estava nessa bifurcação. Dedico-me só às terapias e o canto vou fazendo o que surgir ou ainda há aqui qualquer coisa dentro de mim que vibra e que tem que continuar? Até que sou contatada pela produção, depois de me terem visto no ‘Você na TV’, disseram-me que tinha o perfil, a voz e as competências e convidaram-me a enviar um vídeo para o casting. Senti aquilo como uma resposta do Universo às minhas questões e foi, por isso, que decidi participar: se queria ou não continuar a cantar e partilhar a mensagem, a minha história e isso pode ajudar pessoas.

Mas reconhece que o canto lírico não é um formato ‘fácil’ para um programa de entretenimento…
Claro que sim.

Acha, por isso, que houve o fator surpresa para que a Sílvia chegasse mais longe no programa?
Eu acredito que não tem tanto a ver com o meu talento porque existem imensos artistas talentosos e incríveis. Acredito que o fato de ter vivido o que vivi emociona e sensibiliza as pessoas e, também, pelo facto de ser a pessoa que sou. Acho que as pessoas gostaram da minha forma genuína de estar, aberta e de coração.
Não criei expetativas na minha cabeça: vou viver a experiência e saborear aquilo que esta experiência me vier trazer, ao mesmo tempo fiquei muito feliz por ter a reação que tive e pelo carinho que me deram. Isto não foi o fim, mas o início de tudo, foi a rampa de lançamento.

Portanto o ‘Got Talent’ resolveu esse problema da bifurcação?
Sim, sem dúvida. Das coisas mais importantes que me trouxe o programa, para além das amizades que fiz, foi dar-me a clareza daquilo que quero em relação ao canto, e o que quero é ser artista e fazer carreira em Portugal.

Surgiram mais convites depois da participação no programa?
Para já, não. Está tudo calmo. Acredito que depois do programa poderá surgir alguma coisa. No entanto, eu já estou a trabalhar por mim, estou a dedicar-me, a criar originais, músicas minhas porque outra coisa que o programa me deu foi perceber que a minha área pode não ser o canto lírico, mas algo que eu consigo fazer de forma muito fluída, que é a mistura entre vários estilos que me inspiram, como a mística da world music, dos Madredeus, de Rodrigo Leão. Aprecio muito este tipo de conceito e acredito que posso ter aqui um lugar só meu.

E as terapias complementares como apareceram na sua vida?
Através do meu problema de saúde. Acabei por recorrer a várias terapias, na altura em que estava doente, e senti que não estavam a dar as respostas que eu queria. Passei por muitos diagnósticos diferentes até chegar ao diagnóstico final e mesmo depois deste foi um ‘forrobodó’ de medicação até perceber qual era a medicação certa para que a doença estabilizasse. Naquela altura, estava muito em baixo, a rejeitar o que me estava a acontecer, o que fazia com que o meu corpo se autodestruísse ainda mais. Senti que precisava de recorrer a outras soluções, recorri a várias terapias complementares, identifiquei-me com uma ou duas que fui mantendo ao longo do meu percurso. Foi onde encontrei a minha casa e senti que se tinha sido maravilhoso para mim poderia ser para outras pessoas. No fundo, era praticar aquilo que senti no meu corpo físico e emocional.

Esse renascimento tem contribuído para que outras pessoas possam renascer, olhando para o seu exemplo?
Lancei a minha marca no verão do ano passado e depois em novembro abri espaço físico, tem sido um processo muito bonito de viver e de ver. O que tenho recebido das pessoas tem sido incrível. O papel do terapeuta é fazer com as pessoas abram o seu coração, se voltem a amar a elas próprias e esse trabalho é muito bonito. A resposta tem sido fantástica. No trabalho de terapeuta canto, mas mantras.

Há algum papel que gostasse de desempenhar?
Eu tenho um papel que é de toda a vida, sempre adorei, que é a Mimi de ‘La Bohéme’ de Puccini. É uma pessoa que passa por uma tuberculose, toda a expressividade corporal e vocal da personagem é fabulosa. A música de toda a ópera vibra de forma especial em mim. Tenho a consciência que ainda não é o momento, porque para fazer a Mimi é preciso uma maturidade vocal entre os 35 e os 40 anos, a voz não pode ter a frescura dos 25/30, mas sim o aveludado que se ganha com a idade.

Continua a ter aulas e a praticar…
Claro. Um cantor e um músico que queiram estar em evolução têm que se manter ativos, ouvir diferentes perspetivas. Um cantor precisa de alguém que o escute de fora, que lhe dê a perceção do ouvinte porque não temos uma perceção interna e isso é uma dificuldade. Estou a ter aulas também com as professoras Dora Rodrigues e Elizabete Matos.

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