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Os segredos da única ‘eco freguesia’ do Vale do Homem

“Não perguntes o que a tua pátria pode fazer por ti. Pergunta o que tu podes fazer por ela”. A palavra ‘pátria’, na frase atribuída ao ex-presidente americano John Kennedy, pode, neste caso, ser substituída por ‘freguesia’. Pode não ter sido esta frase que passou pela cabeça do presidente da junta da União de Freguesias de Vilela, Seramil e Paredes Secas, mas ouvir Rui Tomada é perceber o caminho que um território de baixa intensidade e com recursos muito baixos pode seguir.

Sustentabilidade, Ambiente e Turismo, não necessariamente por esta ordem, são as premissas inseridas no pensamento do autarca para criar desenvolvimento local. O recém atribuído galardão de Eco Freguesia, “todas as freguesias o podem obter porque os critérios são fáceis de cumprir”, é o culminar de um trabalho que tem na Urjalândia o seu começo e um dos seus pontos mais altos.

Há, ainda, um trilho ambiental de 20 quilómetros com cinco miradouros, a requalificação de uma escola num centro ambiental tendo como pano de fundo a economia circular e muito em breve um baloiço panorâmico que promete ser único na região. Acrescente-se 60 camas de turismo rural e percebe-se a atribuição do galardão.

Centro Ambiental
O Centro Ambiental é um dos projetos emblemáticos da União de Freguesias e dirigido a um público mais jovem. Localizado em Seramil, está instalado na antiga escola primária da freguesia recuperada e requalificada para o efeito, através de uma candidatura sobre economia circular, promovida pelo Fundo Ambiental. Ficou em quarto lugar e tem recebido, antes da pandemia, escolas e alunos de todo o país.

A reconversão do edifício permitiu instalar um local de tratamento de plástico, “a alegria dos mais pequenos”. As tampas de plástico são trituradas, transformadas numa espécie de pasta que depois é moldada ao gosto de cada um, criando novos produtos, como copos, letras, barras, etc.

Na parte exterior foram criados charcos biológicos para aproveitamento das águas das levadas, tratadas com plantas e que desaguam numa espécie de piscina. “A ideia é que a população possa usufruir deste espaço natural porque esta água está tratada”. A verdade é que uma casualidade trouxe um facto peculiar: Rui Tomada pediu aos funcionários para limparem esta piscina, mas o atraso de dois dias no acatar do pedido fez com que o ‘lago’ ficasse povoado de peixes.

“Agora não sabemos bem o que fazer. Nem a população pode usufruir deste espaço nem nós podemos limpar o charco porque não queremos matar os peixes”. Um dilema para resolver nos próximos tempos. Na área circundante há, ainda, painéis solares que abastecem o edifício.

No futuro, segundo revelou o vereador do ambiente, Vítor Patrício, “teremos neste edifício o espaço co-working que o Governo nos destinou. Estamos à espera que operacionalizem a ideia para depois lançarmos o desafio a algumas empresas”. Uma rede de wireless vai ser instalada no local.

Rui Tomada resume dizendo que este “é, no fundo, um projeto na área da reciclagem, que tem como principal objetivo sensibilizar as crianças para a preservação do meio ambiente, através de várias atividades que são propostas durante a visita e que incluiu o manuseamento de máquinas que fazem a moagem do plástico, que depois é derretido e noutras máquinas transformando-o em objetos novos”.

Urjalândia
A Urjalândia – Aldeia de Natal Sustentável é um projeto inovador que já cativou milhares de turistas. A iniciativa promovida pela União de Freguesias e pela população local, conta com as parcerias da Câmara de Amares e da ATAHCA. A ideia passa por atrair turistas e visitantes à aldeia do Urjal, em Seramil, através de inúmeras atividades lúdicas e culturais.

“No fundo, tudo mais não é do que uma aldeia, que na altura do Natal, é toda decorada com objetos reciclados, envolvendo todos os moradores. São eles próprios que abrem as portas das suas casas para receber os visitantes e alguns deles até montem pequenos locais improvisados com os produtos típicos, tais como o linho, a broa e até alguns enchidos tradicionais que acabam por ser comercializadas nos dias do evento”, refere Rui Tomada.

O evento mostra as tradições da freguesia e uma série de atrativos como passeios a cavalo, aves de rapina, caminhadas, slide, concertinas, parada de Natal, arruadas e adegas de outros tempos que convidam a degustar o vinho da região acompanhado do maior bolo rei de laranja que, na última edição, atingiu os 25 metros.

“A última edição realizada em 2019 foi um enorme sucesso e isso ficou espelhado nos muitos visitantes da região e do país, mas também muitos espanhóis que quiserem ‘viver’ na primeira pessoa uma aldeia de natal sustentável.

O vereador do Ambiente recorda que “a autarquia já adquiriu uma casa na aldeia do Urjal para a instalação de um Museu da Agricultura” que deverá ver o seu andamento uma realidade no decorrer no próximo ano. Não está descartada a possibilidade de se instalar no local de uma unidade de degustação de produtos locais.

Trilhos e baloiço
Um trilho ambiental com um total de 20 quilómetros que se pode percorrer por inteiro ou por etapas está a ser criado e onde, em locais estratégicos, serão colocados cinco miradouros com painéis informativos. Este trilho irá depois ligar à Geira Romana e ao trilho que passa no eco canil em Dornelas e segue para o centro do concelho.

Interligado e como ponto de vigia, a União de Freguesias vai instalar um baloiço panorâmico que terá algumas particularidades. Para além das vistas, em 360º graus, consegue-se ter uma perspetiva de todo o Vale do Homem, é possível conviver com garranos que andam por estas cercanias, perceber a presença de lobos e conhecer algumas lendas associadas a estes montes.

Uma das lacunas identificadas por Rui Tomada prende-se com espaços onde seja possível tomar uma refeição. Uma das ideias que está a ser amadurecida passa pela transformação da sede da Associação Vilelense. “A nossa intenção é criar uma mercearia sustentável com venda a granel e onde estaria associado um espaço para pequenas refeições”.

Um hostel está a ser criado, em parceria com a autarquia, com a requalificação da antiga escola primária de Paredes Secas e que vai aumentar a capacidade de alojamento local para responder aos visitantes que são cada vez mais e procuram um turismo diferenciados e de contacto com a natureza.

Caraterização
A União de Freguesias de Vilela, Seramil e Paredes Secas tem uma área de 8,61 km2 e conta, ao todo, com 500 habitantes. Foi constituída enquanto ‘união de freguesias’ em 2013, quando da reforma administrativa nacional. Mas a história destes povoados é antiga, contando-se a sua integração no outrora concelho de Santa Marta de Bouro, que foi extinto em 1853 e, a partir dessa data, as três localidades passaram a fazer parte do concelho de Amares.

Destaque-se que até à época do liberalismo, Paredes Secas constituía um couto, e em Vilela, é a laranja de Amares que assume maior relevância, sendo o produto mais concelho do concelho.
São as suas paisagens que mais têm cativado curiosos e turistas ‘levados’ pela organização de eventos, de que a Urjalândia é o seu exemplo maior. “Faço um balanço positivo do nosso trabalho”, diz o presidente da União de Freguesias.

“Temos apostado, sobretudo, ao nível da melhoria das acessibilidades locais, que era uma lacuna que nós entendemos que devíamos corrigir, em prol da qualidade de vida da população local, mas também dos muitos visitantes que procuram as nossas casas de turismo local”. Para Rui Tomada “é muito importante garantir boas condições de infraestruturas para manter uma oferta apetecível aos olhos dos turistas”.

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