Bom Jesus das Mós, em Carvalheira, em processo de classificação a património arquitetónico

O processo de classificação do Santuário de Bom Jesus do Monte das Mós, em Carvalheira, Terras de Bouro, a Património Arquitetónico vai ser adjudicado em breve. Segundo apurou o ‘Terras do Homem, a empresa vencedora vai elaborar os dossiers de caracterização individual, para o Monumento do Bom Jesus das Mós, para os Cruzeiros de Terras de Bouro e para a Vezeira, com o objetivo da abertura dos processos de classificação e inscrição no Inventário Nacional de Património Cultural (material e imaterial).

Com um custo de cerca de 25 mil euros, a empresa vencedora, localizada em Soutelo, terá um ano para efetuar o trabalho.

Dada a relevância para Terras de Bouro do Santuário de Bom Jesus do Monte das Mós como elemento identitário do território, pelo valor histórico, socioeconómico e ambiental, para além de uma panorâmica ímpar e “levantado” pela vontade indomável do Padre Manuel José Martins Capela, o Município de Terras de Bouro apresentou uma candidatura para a criação de uma rota de forte cariz religioso e ambiental em torno dos elementos religiosos presentes neste santuário.

Tratando-se da valorização de um singular monumento ao Sagrado Coração de Jesus, os objetivos desta ação passam por valorizar e dignificar a nível infraestrutural e a nível imaterial o Santuário, atribuindo-lhe simultaneamente, uma maior dinamização cultural ao criar uma rota religiosa que unirá num perímetro circular as freguesias do Campo do Gerês, de Carvalheira e de Covide.

Assim, estão previstas várias intervenções, nomeadamente em Carvalheira, limpeza do edifício do Santuário e pintura dos gradeamentos metálicos existentes, requalificação da calçada na envolvente do Santuário, construção de escada de acesso e miradouro sobre o penedo existente contíguo ao Santuário, construção de escadório em granito, para ligação do Santuário ao recinto da Capela, tratamento do talude, com sementeira e plantação de vegetação para estabilização das terras, fornecimento e colocação de 10 mesas e bancos de granito o recinto da Capela.

Já em Covide está prevista a limpeza e colocação de guarda de proteção da ponte de Porta Santo, colocação de cobertura e porta no moinho existente junto da ponte e fornecimento e colocação de mesas e bancos de granito; e, por fim, em Campo do Gerês, a limpeza e colocação de guarda de proteção na ponte dos Eixões.

Padre Martins Capela
O monumento ao Bom Jesus das Mós, levantado pela vontade indomável do Padre Manuel José Martins Capela (1842-1925) que conseguiu congregar fiéis, conterrâneos e demais entusiastas das crenças tradicionais do povo português – é um singular monumento ao Sagrado Coração de Jesus semelhante a uma torre de menagem de um castelo roqueiro medieval.
A construção do monumento começou em 1902 e foi solenemente inaugurado a 13 de julho de 1913. O transporte da estátua do Sagrado Coração de jesus, entre Braga e Carvalheira foi feito através da via romana (Geira) e durou 4 dias, sendo um dos momentos mais simbólicos, emotivos e heroicos da história da construção do monumento.

O monumento ao Bom Jesus foi a primeira, mas não foi a única edificação religiosa no Monte das Mós. Ao longo do tempo, como se o Monte das Mós ficasse sacralizado, foram-se realizando diversas obras de cariz religioso: a capelinha de N.ª Senhora da Soledade, a capela do Imaculado Coração de Maria e a Via Sacra.

Miradouro
Junto ao Santuário existe um miradouro, entre as serras Amarela e do Gerês, que se distende numa pequena colina que declina para os rios Homem e Rodas.

Enquanto na sua frente, na linha do horizonte, se apresenta o mar de Viana do Castelo, na sua retaguarda, como uma entidade protetora, ergue-se o Monte das Mós, que serve de Miradouro numa panorâmica ímpar, avistando-se as aldeias circunvizinhas de toda a ribeira do Homem.

História
Amaro Carvalho da Silva no livro ‘O Bom Jesus do Monte das Mós – Martins Capela e a devoção ao Sagrado Coração de Jesus’ dá conta dos pormenores que levaram o padre, que teve ou tem nome associado à escola, a ruas e largos do concelho, a enveredar pela sua construção. O primeiro motivo foi a devoção ao Coração de Jesus e a ideia de erguer um monumento na sua aldeia natal, Carvalheira.

O monumento ao Coração de Jesus no Monte das Mós foi erigido como “um símbolo ou um facho que se levanta bem alto para dar testemunho de uma crença e de um combate de um coração dedicado e apaixonado. Encontro do amor de Cristo pelos homens e do amor dos homens pelo seu Deus”, explica o autor.

“O coração como lugar da afetividade e como doação, o homem como cavaleiro da fé, cruzado, testemunho e apóstolo. A religião como vivência íntima e não um mero preceito social. A importância do sentimento, da emoção e da afetividade no domínio da crença. A racionalidade fundamenta a crença e dá-lhe uma expressão lógica e de coerência, proporcionando-lhe uma leitura, mas não lhe dá os ingredientes mais vivenciais e dinâmicos da fé. Coração é calor, razão é frieza e objetividade”.

Apoio popular
Segundo a publicação, Martins Capela conseguiu congregar fiéis, conterrâneos e demais entusiastas das crenças tradicionais do povo português na edificação de um singular monumento ao Sagrado Coração de Jesus semelhante a uma torre de menagem de um castelo roqueiro medieval.

“Esta torre de vigia simboliza e testemunha as convicções de uma comunidade de crentes. Testemunhos de fé que salpicam e rendilham o panorama cultural e espiritual português, em lugares cheios de mística”, realça ainda Amaro Silva.

“Todos os empreendimentos significativos do Pe Martins Capela, como seja a construção do monumento ao Coração de Jesus, têm sempre um fundo nacionalista”, acrescentado que “tal como um Miguel Torga, Martins Capela é um apaixonado pela montanha e pelos laços mais ancestrais da nossa história. Como uma cruz, carrega esforçadamente o sonho místico de um mundo redimido e a saudade incontornável da ‘casa paterna’”.

Construção
O período em que decorreu a construção deste monumento foi de grandes perturbações da sociedade portuguesa. “Refira-se que uma parte substancial da Igreja Católica e dos católicos portugueses se envolveram no apoio ao Nacionalismo Católico, expressão de uma filosofia neotomista com a finalidade de se unir e reorganizar, repensar a sua história mais recente e reunir forças para reporem muitos dos seus ‘direitos’ alienados durante a revolução liberal”.

Os positivistas, republicanos, socialistas, livres-pensadores, mações e anarquistas “tudo fizeram para retirar o peso que a igreja exercia sobre a sociedade civil e o Estado. Dão-se os mais diversos confrontos, destacando-se o último período do rotativismo, a governação de João Franco”.

Viver a velhice
Outro aspeto a ter em conta para a criação de condições e definição da ideia do monumento ao Coração de Jesus no Monte das Mós, foi a decisão de Martins Capela passar a sua velhice em Carvalheira.

Em 1901, entrando determinado na empresa do Nacionalismo Católico, através da criação do Partido Nacionalista (1903), o padre Martins Capela, “antevendo um combate violento e sem contornos previsíveis, decidiu expor o problema da passagem da sua velhice na ‘casa paterna’, em Carvalheira, ao seu diretor espiritual, P. António Borges”.

Aceite a decisão de passar a velhice em Carvalheira, tratou logo de fazer o seu testamento e iniciar as obras indispensáveis na ‘casa paterna’, Casa de Silvestre, em colaboração com o seu irmão Alexandre Silvestre, herdeiro da casa.

As obras decorreram entre 1902 e 1905 e consistiram na reformulação significativa da antiga casa e construção de uma capela para serviço religioso doméstico. A capela de S. Silvestre, consagrando o nome da casa de família, é obra integral de Martins Capela e reveladora do seu espírito harmonioso, lúcido e ilustrado.

“Martins Capela subsidiou totalmente e superintendeu todos os trabalhos de edificação desta capela. Nada se fez sem o seu conhecimento e sem a sua intervenção: arquitetura, plano de obras, aquisição de materiais de construção, contratação de operários, mobiliário, alfaias religiosas, decoração e invocação”, refere o autor do livro.

A obra de pedreiro esteve a cargo dos mestres António e Manuel Moreira, irmãos, oriundos de Espanha e residentes na freguesia de Covide. Concluídas as obra s principais, a capela foi benzida em 21/9/1905 pelo próprio P. Martins Capela, acolitado pelo seu irmão P. João Hipólito, abade de Goães, Amares, e pelo pároco de Carvalheira, P. José Maria Martins.

Monumento
A construção da capela da Casa de Silvestre deu a Martins Capela “o saber, a experiência e o realismo para se envolver em projeto maior como foi o do Monte das Mós em honra do Coração de Jesus”, revela o autor.

“Podemos afirmar que um amadureceu o outro, que um serviu de balão de ensaio ao outro e que entre um e outro não houve qualquer interregno significativo”. A ideia de construção do monumento foi lançada logo a seguir ao final das obras na casa e na capela. A acrescentar a isto, “como causa imediata no assumir o ‘projeto das Mós’, há a referir o desencanto crescente com o Nacionalismo Católico, sobretudo devido aos constantes jogos de poder e manobras de bastidores dos maiorais”.

Como principal idealizador, promotor e contribuinte, Martins Capela soube tirar partido da mística do Monte das Mós. Não ferindo a paisagem nem a crista do monte, a sua ideia de construção de um monumento ao Coração de Jesus consistiu em colocar uma torre de vigia, em ‘forma de um castelo roqueiro e ameiado, de cantaria rusticada’, em cima de uns grandes penedos.

“A singeleza do monumento enquadra-se perfeitamente na paisagem granítica acentuando os picos das serras da Amarela e do Gerês. Lugar aprazível e de encantamento onde o coração mais facilmente poderá falar”, ainda segundo Amaro Carvalho da Silva.

Se Martins Capela escolheu o Monte das Mós para edificar um monumento religioso, não o fez por razões estritamente religiosas, acredita o autor. “Dado o amor à sua terra e a sua sensibilidade de artista, de crente e de homem de ciência, Martins Capela pretendia um projeto de grande alcance, assim o ajudassem as circunstâncias, os homens e a sua predisposição para os grandes empreendimentos”.

Local de rara beleza em área tão desprotegida e abandonada à sua sorte de economia de subsistência, Martins Capela queria fazer das Mós, para além de lugar de culto, “um lugar do espírito estético e uma oportunidade de desenvolvimento social da região. Com Martins Capela estiveram muitas pessoas de Braga, Terras de Bouro e Carvalheira.

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