“O processo do Mosteiro de Rendufe foi complicadíssimo, mas conseguimos”

Foi até há cinco meses diretor regional da cultura do Norte. António Ponte foi o rosto do poder político central para que o Mosteiro de Rendufe pudesse tomar um rumo diferente. Desde o início, nunca perdeu de vista o monumento amarense e na primeira oportunidade, conseguiu colocar Rendufe na lista dos monumentos a recuperar pelo ‘Revive’.

Um processo que reconhece que “foi complicadíssimo”, sobretudo pelas dificuldades colocadas pela igreja, destacando o papel fundamental tanto da câmara como da junta de freguesia no desbloquear da situação. Em entrevista exclusiva ao ‘Terras do Homem’ reconhece ter “ficado “contente por ver o meu nome ligado ao Mosteiro de Rendufe.

Como é que surgiu a sua relação com o Mosteiro de Rendufe?
O mosteiro de Rendufe é um dos cerca de 50 monumentos que são tutelados pela Direção Regional da Cultura do Norte (DRCN) e que, dentro da linha de trabalho que nós desenvolvemos nestes últimos oito anos, procuramos revitalizar, na perspetiva de enquadrar este património cultural como fator de revitalização das comunidades onde ele se insere. O património, é na minha perspetiva, um elemento fulcral para perceber o passado das comunidades, o passado do ser humano nas suas várias valências, mas pode ou deve desempenhar um papel crucial naquilo que é a reanimação daquilo que é o tecido cultural, social, económico das localidades.
Quando nós na DRCN, em 2014/15, estávamos a equacionar o modelo de gestão do novo quadro comunitário que está agora a terminar, o Norte 20/20, olhamos para o mapa da região e tentamos perceber de que forma é que nós poderíamos traçar uma linha estratégica para o património cultural.

Linha estratégica onde estava incluído o Mosteiro de Rendufe…
Uma coisa de que me vinha apercebendo, e até foi alvo de uma discussão grande no seio da equipa, mas que vingou, é que os bens patrimoniais são importantes por si, mas tornam-se mais relevantes quando são trabalhos em articulação com várias estruturas porque eles não surgem desinseridos no território, eles surgem ancorados em políticas territoriais mais alargadas.
Nessa altura, decidimos que deveríamos proceder à intervenção em património, através de redes patrimoniais temáticas ou estilísticas, que pudessem por um lado fazer intervir em património que estava em estados diferentes, mas que estimulássemos a sua utilização de uma forma integrada. Quando pensamos na rede de mosteiros beneditinos, temos o grande epicentro de todos os mosteiros aqui na zona do Cávado, Tibães, mas depois toda à sua volta há uma pequena rede de mosteiros que gravitam e que foram muito relevantes na defesa do território, na formação e desenvolvimento das populações e se nós os promovêssemos em conjunto, poderíamos criar um produto interessante e que poderia ser relevante.

Mas havia condicionantes, sobretudo financeiras.
Sim, é verdade e por isso, o primeiro grande investimento que pensamos para Rendufe foi a igreja do mosteiro, obra que terminou recentemente e que veio criar condições para que daqui a um ou dois anos se possam fazer intervenções no interior da igreja. Por outro lado, nós tínhamos toda a estrutura monacal, na qual tínhamos feito uma intervenção curta em 2012, a cobertura da ala do Mosteiro, mas que precisava de uma intervenção mais profunda. Tínhamos uma questão, intervir para quê? Enquanto na igreja nós sabíamos que intervínhamos e ela tem fruição quotidiana, nós, no mosteiro, precisávamos de encontrar um motivo ou modelo de sustentabilidade futura. E foi aí que surgiu a possibilidade do programa ‘Revive’ e a possibilidade de enquadrar a recuperação da área monacal neste programa. Para mim, foi a grande noticia para o Mosteiro.

Foi uma decisão política ou não?
Foi uma decisão política, também. A DRCN é uma direção do Ministério da Cultura e, portanto, como acontece, noutros lados, o Ministério pediu às direções regionais que sugerissem elementos patrimoniais que fossem interessantes ou importantes para colocar no ‘Revive’ e dentre esses, nós entendemos que o Mosteiro de Rendufe seria uma das peças importantes na região. Nós equacionámos soluções com a UMinho, com a câmara, mas esta afigurou-se-nos a solução mais interessante porque é uma utilização que vai acontecer de facto. Há uma coisa muito importante para nós que é a partilha de responsabilidades na gestão do património que não deve ser acometida ao Estado, deve ser partilhada com privados e o ‘Revive’ tem esta grande vantagem. Isto faz com que os privados que investem tenham um papel importante na sua dinamização porque vão querer reaver o seu investimento. Foi uma batalha grande até conseguimos isto.

Tem alguma explicação para o facto do Mosteiro de ter estado anos sem qualquer intervenção?
O Mosteiro de Rendufe era privado. O Ministério da Cultura compra o Mosteiro por volta de 2009 e fica com uma responsabilidade de pagamento de 100 mil euros por ano. É importante que as pessoas percebam que houve um investimento de 900 mil euros na sua aquisição, e se não tivesse acontecido, nada do que está hoje a acontecer existia.
Por outro lado, houve um investimento de 300 mil euros na cobertura em 2012, parece pouco mas é relevante. Até 2019 o Estado esteve a pagar os 100 mil euros. O nosso problema não é só investir, mas saber o que fazer do Mosteiro. O grande Mosteiro é Tibães e não fazia sentido recuperar sem ter uma solução. Foi uma coisa que sempre defendi: nós temos que investir, mas com uma linha, não é só por ser dinheiro público. O dinheiro público tem que ser bem gerido e com uma linha de orientação. Resumindo: a aquisição, o integrar a rede de mosteiros, termos conseguido, num processo complicadíssimo em que a câmara e a junta tiveram um papel fundamental, de retirar todos os ónus ligados à paróquia de dentro do mosteiro porque não podia entrar no ‘Revive’ se não tivesse livre de nenhum ónus de utilização, isto é, livre de qualquer compromisso.

O tal protocolo…
Sim, que foi fundamental para que o Mosteiro pudesse ser candidato ao ‘Revive’. Foi muito complicado com a Comissão Fabriqueira, com o padre, mas chegou uma altura em que tivemos de ser inflexíveis ou é agora ou não vai. A DRCN assumiu um compromisso financeiro, a câmara outro e a junta outro para que estas vontades todas conseguissem libertar o Mosteiro de qualquer ónus. Nós tínhamos o Turismo de Portugal a dizer-nos que enquanto houver ónus de utilização não podia ser porque nenhum privado pega num monumento com este ónus.

Qual foi o papel da junta de Freguesia?
A Junta, desde o início, sempre se mostrou com muita vontade através do presidente Domingos Alves, sempre teve muita consciência da importância que Mosteiro tinha para a freguesia de Rendufe. Foi uma pessoa que sempre me ‘pressionou’ muito, e isto não é mau, para que nós conseguíssemos fazer alguma coisa. Mas quando nem todos têm o entendimento da importância dos processos, as coisas podem ser muito complicadas.
Não sei se ainda foi consigo, mas porque é que foi difícil este processo final da escolha do privado.
Eu saí da DCRN há cinco meses e isso eu já não acompanhei. Estive na abertura do processo e durante o período de concurso, já não estava no período de decisão.

Para terminar o que leva à escolha, por exemplo, do mosteiro A em detrimento do mosteiro B para fazer uma intervenção?
É sempre uma questão de escala e de prioridade do bem patrimonial. Não quer dizer que um seja mais importante que outro, mas nós temos sempre que decidir e quem decide tem que fazer opções.

Portanto, o usufruto do espaço é um fator determinante.
Se nós temos soluções para a sua utilização futura, acelera o processo. Porque é que começamos por intervir nas igrejas? Porque são de utilização permanente. Depois vamos das igrejas maiores para as mais pequenas ou então, uma igreja pequena, mas que é muito significativa do ponto de vista artístico ou porque tem uma simbólica determinada. A área da DRCN é a que tem mais património classificado a nível nacional, entre monumentos nacionais, de interesse público, interesse municipal, porque é onde nasce o país, o seu povoamento que vai sendo gradual e se vai esfumando. Esta densidade patrimonial também gera muita dificuldade na gestão e na tomada de decisão. Vou dar-lhe um exemplo: o Mosteiro de Tibães esteve quase em ruína, foi a opção de um primeiro-ministro recompra-lo a um privado para o recuperar e está a ser recuperado há trinta anos em contínuo, que é o que vai acontecer em Rendufe agora que começou porque o facto de estar recuperado vai obrigar a que se mantenha recuperado.

Fica satisfeito por ficar ligado a este desfecho do processo do Mosteiro de Rendufe?
Sou uma pessoa que não falo muito de mim e tudo aquilo que faço é no sentido de cumprir a minha missão porque eu acho que é o meu trabalho. Claro que fico contente com essa ligação ao Mosteiro porque nós conseguimos quebrar um ciclo de estagnação, conseguimos vencer um conjunto de barreiras e não foi por manifestações de força, mas pelo diálogo com as pessoas e o estabelecimento de parcerias. E neste caso tínhamos a questão da Quinta D’Amares, da questão dos escuteiros, da paróquia, da comissão fabriqueira que poderiam inviabilizar isto tudo, foi preciso muito diálogo, muita persistência e numa altura alguma força. Fico contente e espero que daqui a dois anos possamos estar a inaugurar o hotel de charme em Rendufe.

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