O Tour e “as” carpideiras portuguesas

Terminou recentemente a prova de ciclismo mais (re)conhecida mundialmente e que às vezes é falada por motivos menos nobres. Este ano, no entanto, embora as questões de doping possam sempre vir a ser (re)conhecidas posteriormente, houve uma situação que soou estranha. Refiro-me concretamente à vivenciada entre os dois 1ºs classificados do TOUR, numa duríssima etapa de montanha em que a luta titânica que se adivinhava – e que dá “audiências” – quase ficou perdida quando um dos atletas cai numa descida. As câmaras, obviamente passaram a acompanhá-lo na tentativa de recolar ao, então camisola amarela e, surpresa das surpresas, algumas centenas de metros à frente vê-se o atleta que enverga(va) a camisola amarela, em ritmo lento numa descida, a aguardar a chegada do adversário mais temível. Desta situação muitas lições podem ser apreendidas, destacando-se desde logo o fair-play e respeito que (obrigatoriamente) tem de haver entre desportistas e a importância da competição para existir superação, na certeza que esta só acontecerá se o opositor der luta…na verdadeira aceção do termo.

Em sentido oposto à situação acima transcrita, o nosso país, desportivamente falando, refém de três clubes, continua a dar mostras da sua pequenez ao querer cavar fossos cada vez mais (pro)fundos entre os clubes da principal divisão, esquecendo que as competições só têm sentido e cativam adeptos se forem de resultado incertos.

A situação que vou relatar de seguida, recorda-me que há sensivelmente dois mil anos, surgiu uma nobre arte em que as profissionais do ofício, designadas por carpideiras, tinham como função chorar um defunto alheio, após acordo monetário entre elas e familiares do dito. Esta profissão, apenas feminina, considerava os homens impróprios para a função, uma vez que estes deveriam ser fortes e não mostrarem qualquer tipo de emoção, como a tristeza. Com o passar dos tempos – os homens – hoje já têm direito a ter emoções e assumem-se como carpideiras em questões próprias e/ou alheias. No nosso futebol então, dirigentes e adeptos choram baba e ranho quando algo não corre de feição às suas cores. Neste verão, o choro por um “defunto” alheio tem sido comovente. Milhares de carateres foram (e continuam a ser) gastos porque está a ser coartada a liberdade de escolha a um capitão (que querem contratar para assumir posto de soldado raso noutro exército) gverreiro, dando até voz a um psiquiatra para salvar o rapaz da loucura. Fossem todas essas lágrimas recolhidas e largadas em diversos locais deste país e teríamos a questão da seca e incêndios, completamente resolvida.

Por estes exemplos se percebe facilmente que há competições que se vendem bem porque são apelativas, competitivamente falando enquanto outras…

 

Carlos Mangas [Professor de Educação Física]

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