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“Levar as novas gerações a lerem Sá de Miranda, uma literatura difícil e até erudita, é o desafio”

Sérgio Guimarães de Sousa tomou posse, recentemente, para um segundo quadriénio, como diretor do Centro de Estudos Mirandinos. Um trabalho que já começou a dar frutos, primeiro com a edição completa da obra do poeta e depois com um prémio nacional que premiou autores consagrados, dando uma maior visibilidade ao concelho e a Sá de Miranda. Roteiros mais turísticos na senda de Sá de Miranda podem ser mais ‘comuns’, haja dinheiro e meios humanos para isso.

O Centro de Estudos Mirandinos entra no segundo quadriénio. Que balanço é possível fazer dos primeiros quatros anos?

O balanço é muito positivo e supera as expetativas. Não vou esconder que o Centro de Estudos Mirandinos (CEM) nasceu do nada. Conseguimos, apesar das limitações financeiras, desenvolver todo um conjunto de atividades múltiplas. Fiz, recentemente, na Assembleia Municipal, para que os deputados e a população em geral tomassem conhecimento, um balanço do que se fez e ao fazer este balanço final é que me apercebi que interviemos em diversas áreas, de uma forma dinâmica, criativa, original até, fez-se muito do pouco e isso acabou por funcionar como estímulo.

Uma das áreas em que nos focamos, como não podia deixar de ser, foi a investigação científica, o grande projeto destes primeiros quatro anos, foi, sem dúvida, a edição completa da obra de Sá de Miranda, já estava esgotada e de difícil acesso e foi possível fazer uma edição renovada, corrigindo erros de fixação textual do passado, oferecendo ao público uma edição completa, que, em bom rigor, nunca é completa há sempre a possibilidade de descobrir novos textos de Sá de Miranda. É uma obra muito digna.

Mas houve mais trabalho nesta área da investigação?

Sim, foi necessário desenvolver um processo investigativo em torno da própria obra e fizemos isso através de dois colóquios internacionais, em modalidade digital por causa da pandemia e dos gastos, que se traduziram numa edição das atas.

Houve outra componente de divulgação científica e cultural, para além dos colóquios, tivemos conferências avulsas. Todos os dois meses convidamos alguém, normalmente ligado à literatura do século XVI, mas não apenas, a última, por exemplo, até foi com uma professora aposentada brasileira que nos falou da arte rupestre do Brasil. Fomos criando um público heterogéneo, com cerca de 30 participantes em cada uma delas, é uma atividade muito enriquecedora dentro do CEM.

Temos procurado valorizar a ligação às escolas, através do prémio júnior Sá de Miranda que é atribuído todos os anos ao aluno com melhor classificação a português que anda a compasso, com o Grande Prémio Francisco Sá de Miranda que é bienal. Na primeira edição entregue a Nuno Júdice, na segunda edição a Ana Luísa Amaral e na terceira edição a Tolentino de Mendonça, para o ano teremos a quarta edição. Tivemos ainda atividades pontuais, ligadas a efemérides como o nascimento de Francisco Sá de Miranda que é presumivelmente a 28 de agosto.

Resumidamente o professor Sérgio chegou a comparar Sá de Miranda a Camões, dizendo que o primeiro era mais rico literariamente, mas menos conhecido que Camões. Acha que nestes quatro anos, se fez caminho para se tornar Sá de Miranda mais conhecido?

São duas perguntas numa. Creio que devo ter dito algo do género, retomando uma célebre filóloga portuguesa, Carolina Michaelis de Vasconcelos que estudou Sá de Miranda e Camões, que dizia que sem Sá de Miranda Camões não teria sido o que foi. O que devo ter dito é que Sá de Miranda tem toda uma componente que escapa a Camões porque são dois poetas completamente diferentes. Qual é essa componente? É a dimensão cívico-filosófica. Sá de Miranda não é apenas ler um conjunto de textos marcados ostensivamente pela questão estética, mas é, também, ler um conjunto de textos marcados por uma dimensão ética. É um poeta que questiona os fundamentos sociais e sócio civilizacionais e nós estamos num período muito convulso de mudanças aceleradas, o século XVI, a expansão ultramarina que coloca questões éticas como a corrupção, o tráfico, o despovoamento das terras, etc. e Sá de Miranda era, a esse nível, absolutamente implacável, uma figura austera à boa maneira da antiguidade clássica, não por acaso o arauto do Renascimento em Portugal, foi ele que trouxe esses ventos de mudança. Essa dimensão filosófica é muito importante.

Em relação à segunda parte da pergunta, espero que estas atividades tenham alargado os estudos mirandinos e estou certo que isso aconteceu. Não só porque convidamos várias pessoas, mais ou menos ligadas ao Sá de Miranda, mas nestes quatro anos houve a edição monumental crítica de toda a poesia de Sá de Miranda pelo professor José Camões, da Universidade de Lisboa. Notou-se uma inclusão dos estudos mirandinos o que é muito positivo.

Recentemente, surgiram dados que dão conta de uma maior aposta em desporto do que cultura. Se Sá de Miranda fosse um Eusébio, as coisas poderiam ser diferentes nessa divulgação e crescimento popular do poeta?

Se Sá de Miranda fosse um grande jogador de futebol, não precisaria do Centro de Estudos Mirandinos para absolutamente nada. Nós estamos a falar de uma cultura especifica, não é apenas uma cultura livresca e de certa forma teórica, o que já de si suscita um esforço em termos de divulgação, vivemos para o bem e para o mal na era da imagem, já não vivemos na era do verbo. Vê-se a escassez de biografias de grandes autores, de grandes filósofos ou pensadores, a moda agora é das fotobiografias. Ainda por cima, Sá de Miranda tem outro problema é alteridade estoica radical, não é um poeta de agora, é de 400/500 anos atrás, a língua evoluiu bastante. Levar as novas gerações a lerem Sá de Miranda, uma literatura difícil e até erudita, que espelha outra realidade sócio civilizacional diferente da nossa, é o desafio. Agora, também é possível dizer que nesta literatura podemos extrair lições para o presente e aí se os alunos e a população em geral conseguirem penetrar no labirinto do texto mirandino e colherem ensinamentos para o presente, a batalha está quase ganha.

É possível tornar esse erudito mirandino mais popular, isto é, que chegue a mais pessoas?

Em vez de popular, e a palavra não é semanticamente bonita, mas preferiria dizer vulgarização que nada tem de vulgar. Acessível se quisermos. A grande dificuldade é torná-lo acessível a todos, sabendo à partida que nem todos conseguirão aceder a Sá de Miranda. Se facilitarmos em excesso estamos, na verdade, a falsear a realidade do texto mirandino. Devemos sim divulgá-lo, e as nossas videoconferências ajudaram nesse sentido, mas ainda temos muito trabalho a fazer. Um dos projetos que gostaria de desenvolver no CEM é elaborar uma biografia de Sá de Miranda mais dirigida aos mais jovens.

Estava a referir-me mais ao lado mundano de Sá de Miranda como fator para atrair a atenção das pessoas para a sua obra

Nós já temos iniciado, embora com muitas limitações, uma espécie de viajar com Sá de Miranda pela região e pelo património da região. Recebemos, recentemente., cerca de 60 alunos da Universidade de Coimbra onde fizemos um roteiro que passou pela Abadia, Mosteiro de Rendufe e Casa da Tapada e já o tínhamos feito com duas Universidades seniores. Os nossos meios são escassos, isso implica um investimento maior, implica recursos humanos. Vamos aos poucos caminhando nesse sentido que é absolutamente decisivo. É unir a paisagem, a região, o património material (os edifícios emblemáticos da época tardo medieval e início do Renascimento), mas também o património vitivinícola com a literatura. Espero nos próximos quatro anos reforçar esta ideia, mas não depende só de mim, depende de dinheiro e meios para o fazer.

Projetos para os próximos quatro anos?

Nós vamos continuar a apostar na investigação porque é um Centro de Estudos Mirandinos e tentar editar dois livros onde convidamos reputados investigadores e especialistas e onde lançamos temas, o próximo andará à volta de Sá de Miranda e os seus discípulos, porque era admirado por vários autores da época e convém explorar esta vertente. Mais cedo ou mais tarde, teremos que ter um colóquio internacional, presencial, que permita trazer a Amares dinamizando a economia local, estudiosos de Sá de Miranda. Vamos continuar a apostar no prémio que tem tido um alcance enorme porque é através de poetas consagrados que passamos a mensagem de Sá de Miranda. Hoje em dia é um prémio reputado, tem o seu prestígio, tivemos a sorte de premiar sempre grandes autores.

Como vê a questão cultural atualmente? Investir em cultura é difícil de justificar…

Os índices de leitura em Portugal são pouco menos do que dramáticos. Praticamente, as pessoas não leem. Há uns tempos atrás falava com dois editores e fiquei absolutamente surpreendido quando um autor, que não precisa de ser consagradíssimo, com algum nome no mercado vende cerca de 300 exemplares de um romance quando eu apontei para 5 mil exemplares atendendo ao nosso mercado. Os dois riram-se quando disse aquele número.

O importante aqui é, em primeiro lugar, termos a capacidade para nos reinventarmos, não vale a pena estarmos confinados numa torre de marfim cultural, não vale a pena acantonarmos a cultura a uma dimensão erudita, feita para poucos. Hoje, qualquer colóquio junta literatura ao cinema, a outras artes, à publicidade ou seja, a literatura tem uma grande capacidade de adaptação, há que aproveitar isso e fazer coisas interdisciplinares que tenham presente a nossa era que se define, basicamente, por isto: a era do irrestrito técnico digital. Nós vivemos num incessante devir tecnológico, se nós não percebermos isso, e se não percebermos que o texto mirandino também pode ser nómada, pode ser adaptado à criação- É um sonho que gostaria de ver concretizado: a criação de um centro interpretativo Sá de Miranda, criar a tecnologia e colocar as novas gerações a interagir com um autor de há muitos séculos.

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