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Vezeira já é Património Cultural Imaterial

A Direção-Geral do Património Cultural (DGPC) aprovou a inscrição da “Vezeira de Vilar da Veiga” no Inventário Nacional do Património Cultural Imaterial (INPCI), conforme despacho de 22 de novembro de 2023, assinado pela Subdiretora do Património Cultural, Rita Jerónimo.

No dia em que se cumpriu a XVIII Subida da Vezeira nas Terras do Gerês, mostra de uma tradição recentemente reconhecida como Património Cultural Imaterial, o autarca terrabourense afirmou que “esta classificação é o reconhecimento do valor” da prática comunitária de levar o gado a pastar em transumância na Serra do Gerês, em regime de rotatividade, entre os meses de Maio e Setembro.

Em finais do ano passado, a Direcção-Geral do Património Cultural (DGPC) aprovou a inscrição da ‘Vezeira de Vilar da Veiga’ no Inventário Nacional do Património Cultural Imaterial, por proposta da Câmara Municipal.

O presidente da Câmara Municipal relevou a ‘Subida da Vezeira’ como um cartaz turístico que, mais uma vez, atraiu centenas de pessoas à vila do Gerês, mas alertou que o apoio aos produtores de gado deve acontecer durante “todos os outros dias do ano”. Nesse sentido, solicitou a revisão em alta dos apoios governamentais à produção de gado, depois da diminuição dos mesmos por parte do anterior Governo.

Pedido de Património Imaterial
A vezeira em si mesma resulta numa prática (apascentar à vez), o património imaterial que se quer preservar é uma forma tradicional de o fazer, um modus operandi regido por normas e práticas de uma organização social, numa forma comunitária centenária. Ou seja, o que se quer salvaguardar é uma forma de apascentar o gado (em Vezeira, regida por estatutos de uma organização social que se constituiu com base numa prática informal), e não a criação e/ou utilização que se faz desse gado.

Comummente apresentada como Vezeira de Vilar da Veiga, a vezeira é organizada e regida desde 1802, por um regulamento próprio, o Capa-foles, onde é referida como Real Vezeira da Vacas da freguesia de Sto. António de Villar da Veiga. Desde 1962 foram redigidos os Estatutos da Sociedade de Socorro Pecuário da Freguesia de Vilar da Veiga, alicerçado no documento antigo e cuja prática é posta em prática pelos seus associados, os Vezeiros. Em vários documentos também é designada por Sociedade Pecuária Civil Particular de Vilar da Veiga.

Vezeira
A Vezeira é uma prática comunitária solidária que permite aos criadores de gado bovino a apascentação comum do gado em regime de rotatividade na alta montanha, onde o gado é deixado durante os meses quentes, sem que cada criador/proprietário tenha de estar em permanência a vigiar o seu.

Esta prática comunitária solidária poderá também ser enquadrada nas práticas de transumância. Liberta-se assim cada um dos associados para outras tarefas e profissões, libertando-se também os seus terrenos particulares, junto aos estábulos dos seus animais, para que neles possam ser cultivados alimentos nos meses quentes, o que não seria possível se o gado os ocupasse e utilizasse.

A prática comunitária da Vezeira de Vilar da Veiga tem lugar, todos os anos ininterruptamente entre maio e setembro, na freguesia de Vilar da Veiga. A atividade encontra-se devidamente regulada pelo Regulamento da Sociedade de Socorro Pecuário da Freguesia de Vilar da Veiga.

A prática é impulsionada e mantida por criadores de gado bovino da Freguesia de Vilar da Veiga / Vezeiros e pelos familiares do criador. Precisamente pela raiz comunitária da prática e por ser uma tradição muito importante na memória coletiva desta comunidade, atualmente a atividade tem caracter mais amplo e atravessa as várias gerações do criador de gado. É muito frequente que o criador seja o Avô ou o Pai mas nos dias importantes, como o dia de Covais, o dia da subida da Vezeira e nos dias da roda de serviço, o vezeiro seja acompanhado pelos filho/as, neto/as e cônjuges.

A Vezeira de Vilar da Veiga é uma prática e tradição que recorre a terrenos de utilização comunitária (chamados de baldios) na serra do Gerês – terrenos hoje sob alçada do Parque Nacional da Peneda-Gerês – e a currais propriedade da Sociedade de Socorro Pecuário da Freguesia de Vilar da Veiga (habitualmente denominada apenas por Vezeira), para levar a cabo uma apascentação em transumância de gado bovino nos pastos altos de montanha de um modo comunitário, num regime de rotatividade (à vez) entre os proprietários de vacas associados à Vezeira, na razão de um dia de vigília por cada junta de gado (duas cabeças) que cada vezeiro possua. Tem lugar em pleno Parque Nacional da Peneda-Gerês, cujo território se caracteriza por uma predominância da atividade silvoagropastoril, a qual ocupa cerca de 68% da área do Parque, e onde a produção animal em regime extensivo é a atividade com maior rendimento.

Regras
Numa abordagem mais funcionalista, cumpre referir que a associação Vezeira não tem sede própria. Reúne-se, sempre que tenha necessidade de o fazer num espaço físico, no salão do Centro Social e Paroquial de Vilar da Veiga.

Os únicos bens materiais que esta associação possui são os currais e abrigos na serra (que nenhum outro gado que não pertença à associação tem o direito de utilizar), bem como alguns utensílios para uso por quem fica lá em cima de vigia (pote, alvião, enxada, serra, cordas, colchões, etc.).

É detentora, também, do boi da Vezeira, sendo este propriedade de todos os associados, de quem todos estes se podem servir para fins reprodutivos, tendo todos de contribuir para a sua alimentação e guarda.

Neste ponto cumpre referir que as quotas para a alimentação e guarda do boi da Vezeira durante os meses frios em que este se encontra num curral da freguesia, são feitas por relação às cabeças de gado que cada vezeiro tem entregues para guarda da Vezeira (diz-se dadas à Vezeira; isto porque cada um pode ter mais gado mas só entregar/dar algumas cabeças para guarda à Vezeira).

Isto é, as quotas são por cabeça de gado na Vezeira, e não por vezeiro. O que significa que quanto mais gado cada um tiver entregue à Vezeira, mais são as quotas que tem de pagar. A contrapartida é que o boi, que todos têm direito de usar para funções reprodutoras, acaba por ser mais utilizado por quem tem mais vacas dadas à Vezeira.

Órgãos Sociais
Quanto aos órgãos sociais da Vezeira, estes consistem num Juiz, num Procurador, num Secretário, num Tesoureiro e em três Louvados. Comecemos pelos Louvados, que desempenham uma função de avaliadores. Ou seja, numa situação de morte de uma cabeça de gado de um associado, animal esse que estivesse à guarda da Vezeira, são os Louvados que avaliam quais as circunstâncias da sua morte e o seu valor real, para que depois todos os associados se quotizem para a compra de uma nova cabeça para o vezeiro que a perdeu. Avaliam igualmente se essa morte foi consequência de negligência grosseira de quem estava encarregue da sua guarda ou se não poderia ter sido evitada, levando em conta todos os fatores relevantes que devam ser equacionados.

Neste ponto é de referir a importância de se dar a conhecer à Vezeira o dia exato em que um novo vitelo nasceu, pois em caso de morte deste animal o mesmo só será pago ao seu proprietário caso tivesse mais de 15 dias de vida. Ocupam-se também com benfeitorias, que são trabalhos de reparação/manutenção que tenham de ser efetuados e pagos pela associação.

Estes avaliadores, os Louvados, são substituídos anualmente numa relação de equilíbrio constante entre os lugares de Vilar da Veiga e da Ermida. Isto é, se num dado ano existirem dois Louvados de Vilar da Veiga e um apenas da Ermida, no ano seguinte cada um deles terá de nomear um Louvado do lugar que não o seu, o que significa que no ano seguinte a razão seria de um Louvado de Vilar da Veiga e dois da Ermida, e assim sucessivamente (de referir que Vilar da Veiga e Ermida são os dois locais de proveniência dos associados da Sociedade de Socorro Pecuário da Freguesia de Vilar da Veiga, uma vez que ambos pertencem à mesma, Freguesia de Vilar da Veiga).

Quanto ao Tesoureiro, a sua função não carece de grandes exposições, estando este responsável pelos dinheiros da Vezeira provindos dos quinhões, da quotização para alimentação e guarda do boi da Vezeira (quotização esta sempre relacionada com o número de cabeças de gado que cada um leva à Vezeira, como já referido), do pagamento de condenas e de quaisquer outras quotizações que tenham de ter lugar a título extraordinário. Por uma questão de estabilidade e continuidade nas contas, o Tesoureiro não é substituído anualmente, a menos que o requeira.

O outro membro dos órgãos sociais que não é substituído anualmente, a menos que o deseje, é o Secretário, uma vez mais pelas mesmas motivações de manutenção de coerência no serviço e estabilidade na ação. As suas funções são fundamentalmente a de registar reuniões, escrever atas e demais tarefas administrativas, sendo também depositário dos documentos da associação.

Quanto ao Procurador, este é nomeado a cada ano pelo Juiz cessante, e tem como funções dar todo o apoio de que o Juiz possa ter necessidade na prossecução das suas tarefas, bem como comportar-se, se necessário, como agente e representante daquele.

Por fim, o Juiz. Este será sempre quem no ano anterior exerceu a função de Procurador, e tem por função tudo fazer para que a Vezeira funcione sem percalços e tudo supervisionar, sendo que qualquer pagamento que tenha de ser realizado, qualquer alteração relativa a datas pré-estabelecidas, ou qualquer substituição de vezeiros nas tarefas que lhes competem têm que ser por si aprovadas. Tem também a função de resolução de contendas, entre associados ou entre estes e alguém exterior à associação.

Dia do Chamado
Todos os anos no último Domingo de Abril, cerca das 9 horas da manhã, os associados da Sociedade de Socorro Pecuário da Freguesia de Vilar da Veiga começam a chegar ao salão do Centro Social e Paroquial de Vilar da Veiga para o Chamado. Esta reunião anual, o Dia do Chamado, não carece de uma convocatória formal, acontecendo todos os anos neste mesmo dia e no final da missa dominical nesta Freguesia. Por ser obrigatório, a não comparência a este Chamado implica o pagamento de uma condena (coima).

De referir desde já que são dois os Chamados anuais que não requerem uma convocatória, sendo que outros podem ter lugar para resolver questões que possam surgir, estando nesse caso sujeitos a convocatória. Como nota, é de referir também que o estatuto de vezeiro depende do pagamento de um quinhão, que é uma cota (em 2022 com o valor de 125 €) transmitida de pais para filhos, sendo que se for de pai para filha esta pode fazer-se representar nas suas obrigações para com a Vezeira pelo marido ou outro que esta determine.

Existem atualmente mulheres na Vezeira, o que é sinónimo não apenas da sua abertura como da sua necessidade de integrar todos aqueles que queiram contribuir para que esta prática centenária não desapareça.

O passo seguinte do Chamado é a marcação do Dia de Covais e do Dia da Subida à serra com o gado. O Dia de Covais é o dia em que se faz a subida à serra para a limpeza de caminhos por onde o gado irá passar, bem como limpeza e reparação dos abrigos e currais onde homens e animais ficarão na montanha em regime de semi-estabulação com pequenas deslocações diurnas entre os currais e os pastos. Por tradição, o Dia de Covais é marcado para o primeiro Sábado de Abril, e o Dia da Subida para o segundo Domingo de Abril.

Estes dias, por motivos de condições climatéricas adversas ou outros de força maior, poderão ser alterados apenas por determinação do Juiz, devendo todos os associados ser informados das eventuais alterações. Em tais casos, e por determinação do Juiz, o Dia de Covais pode, por exemplo, ser adiado para o segundo Sábado de Abril, tendo assim lugar no dia imediatamente anterior ao Dia da Subida à serra com o gado.

Tudo isto fica determinado neste Dia do Chamado, e quaisquer alterações, a terem lugar, carecem de ser autorizadas e confirmadas pelo Juiz e transmitidas aos associados. Deste modo, todos quantos queiram assistir/participar nesta manifestação cultural centenária o podem mais facilmente fazer, sendo este “ajuntamento” de gentes que se deslocam nestes dias a Vilar da Veiga também causa para que este património continue a existir.

É, por fim, aberto um período para todas as questões que os associados queiram colocar à nova Direcção, e estabelece-se a Roda de Serviço. Tradicionalmente, a Roda de Serviço assenta num critério de vizinhança. Isto é, cada vezeiro que tenha prestado o seu serviço de vigilância na serra é substituído pelo vezeiro seu vizinho que lhe esteja mais próximo, segundo uma ordem pré-estabelecida, não havendo assim necessidade para mais determinações.

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