Opinião

SARS-Cov 2 e a Ecologia

Duas questões sérias. Profundamente incomparáveis, no grau e teor de gravidade, ainda que igualmente sérias. Para começar: o Sr. Presidente da República, no seu afã de ubiquidade, fala de mais. Referindo-se à final da Liga dos Campeões, agendada para Portugal, Marcelo não sentiu qualquer pejo em referir que em Agosto – mês do fim da competição – os portugueses iriam receber aquilo que, finalmente, mereciam.

Ora, na sequência do que tem sido o reflexo e resultados das sucessivas governações de PS, PSD e CDS, pelo contrário, os portugueses mereciam, sobretudo, nesta altura, propostas de desenvolvimento da actividade produtiva e de produção nacional e de apoios que assegurem a viabilização da actividade do conjunto de micro e pequenas empresas; propostas de alargamento dos apoios sociais, designadamente no desemprego, e de garantia de meios de subsistência; propostas de reforço das responsabilidades do Estado no financiamento de serviços públicos essenciais às populações; ou propostas para dotar o Serviço Nacional de Saúde de capacidade para responder às necessidades imediatas do combate ao surto epidémico e para reforçar o nível de resposta aos cuidados de saúde em geral.

Por outro lado, o SARS-Cov 2 coloca-nos, cada vez mais, no âmbito do plano do questionamento sobre a razão pela qual se sucedem as pandemias a um ritmo maior. A verdadeira ecologia poderá ser uma das respostas àquela inquietação. Assim, sucintamente, convém sublinhar que a destruição de habitats ameaça uma enorme quantidade de espécies, por via dos contactos próximos e repetidos com o ser-humano, construindo, desta forma, a ponte ideal para a transumância de micróbios para o corpo humano, e a subsequente transformação de agentes benignos em assassinos patogénicos.

Nas mais diversas latitudes da Terra conseguimos perceber, de um modo mais ou menos fácil, esta aproximação letal, alastrada pela garra ambiciosa do Capital imperialista, que desgasta, a cada dia, os recursos naturais do nosso planeta, aproveitando-se da bestialidade de se servir dos animais para todo e qualquer serviço, fazendo destes actores passivos da revolução microbiológica, da mutação patogénica, acelerada ao expoente da loucura. Esta pandemia não é a primeira nem será a última.

Se as acções humanas não se alterarem radicalmente, acredito que não seremos poupados pelas epidemias, a não ser que coloquemos tanta determinação em mudar de políticas como a que colocamos na acção de perturbar a Natureza e a vida animal, assim como a que colocamos no palco da organização de eventos supérfluos.

Bruno Marques

(41 anos; Estudou Sociologia na UM; Foi membro da Juventude Comunista Portuguesa e do Partido Comunista Português)

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