Vila Verde

José Ilídio Torres, o romântico que conta uma história de vida (com vídeo)

Acabou de lançar aquele que chama “o primeiro livro de uma nova fase de escrita”. Para trás, ficam 11 livros que deambulam entre a poesia, o conto e o romance. ‘O romântico que lia Bukowski’ é autobiográfico e um produto do confinamento.

José Ilídio Torres nasceu há 53 anos em Barcelinhos, concelho de Barcelos, mas “por causa de amigos” há mais de 20 anos que está em Vila Verde: “vinha cá passar uns fins de semana, sempre gostei”.

Reconhece que “não é muito comum gente de Barcelos vir a Vila Verde parece que estamos a muita distância, até acho que há gente de Barcelos que não conhece Vila Verde, mas Barcelos também anda meio perdido no mapa”.

Pousou em Esqueiros onde descobriu “um terreno com uma casa antiga, gostei, entretanto, casei, reconstrui essa casa onde vivi até há pouco tempo”. Licenciado em Ensino, variante em Educação Física, estabilizou como professor no Ensino Básico e há cinco anos assentou na escola de Cervães, Vila Verde.

Ilídio Torres revela que “desde miúdo que tinha o gosto pela escrita, desde que me ensinaram a ler”.

E recorda: “quando me pediam para escrever um trabalho sempre tive a sensação que não estava a escrever por si só, mas a narrar qualquer coisa para um outro. É muito curioso que ao longo destes anos de professor tenho encontrado miúdos com essa capacidade de narrar para alguém, real ou imaginário”.

Barcelinhos
O escritor reconhece que teve “sorte em fazer os estudos na Secundária de Barcelinhos: tinha uma dinâmica cultural diferente e muito forte. Surgiu uma revista, ‘Amanhecer’, que ainda hoje se publica, com imensa qualidade. Era uma revista que privilegiava os escritos dos alunos e foi aí que comecei a escrever as primeiras coisas”.

Pelos 15/16 anos assumiu a escrita “como algo que não podia deixar de fazer, que estava intrinsecamente ligado para toda a vida”.

O primeiro livro surge tarde, tinha Ilídio Torres 40 anos.

“É um livro de poemas e alguma prosa poética, publicado em 2007, que surgiu por uma coisa engraçada chamada internet. Descoberta a internet nesses primeiros anos comecei a publicar umas coisas mais antigas, num site de escrita que existia chamado Lusopoemas”.

No início eram 200 no máximo a publicar e dois anos depois chegou a 20 mil, tinha uma dinâmica semelhante ao Facebook.

Foi aí que o escritor começou “a perceber que havia quem me lesse e gostasse. O primeiro livro era uma síntese dessas coisas que tinha publicado com coisas mais recentes. E daí até agora foram 12 livros, já com este último”.

Jornalismo
Até 2007 era intermitente a escrever. Escrevia, principalmente, poesia, mais difícil mesmo em termos de emotividade. “Eu sou uma pessoa muito emotiva, tenho a palavra sempre pronta a disparar e, às vezes, arrependo-me de ser tão espontâneo”.

Para o escritor há uma escola importante no depuramento da sua escrita: o jornalismo, “sobretudo o jornalismo regional fez-me ser mais sistemático. Escrevo com tanta vontade uma ata de uma reunião como um texto poético, apesar de sofrer ao escrever poesia”.

Por isso, este regresso à prosa “é uma certa tranquilidade e paz de espírito que me fazia falta”.

Contos
Entre a poesia, publicou também alguns contos. “Gosto muito de os escrever [contos] porque tem uma dinâmica muito própria. Todos os que escrevi, e foram mais de uma centena, nunca os conseguia deixar para o dia seguinte porque, sendo uma narrativa curta, dá ao escritor o prazer de chegar ao fim”.

O primeiro romance, policial, chega em 2009, muito inspirado por um gosto e leitura regular deste género literário.

Na altura, na internet, criou um perfil falso de uma mulher que escrevia páginas de um diário íntimo “e, durante algum tempo, consegui enganar muito boa gente. Essas páginas de diário faziam parte do livro que estava a escrever e ali serviam como laboratório de escrita que migravam para dentro do livro”.

Bukowksi
Afinal quem é o romântico que lia Bukowski? “Esse romântico sou eu. Este é um livro marcadamente autobiográfico. Bukowski era um escritor mal-amado no seu tempo, tinha um público assíduo e que foi conquistando outros leitores nos diversos pontos do Mundo. Os seus livros eram sobretudo autobiográficos e, por isso, não aparece aqui de uma forma solta”.

O livro foi escrito durante o confinamento. “Num daqueles dias em que não se está a fazer rigorosamente nada, olhando a biblioteca que tenho houve um título que me chamou a atenção, ‘Mulheres’ de Bukowski, que considerei sempre emblemático. Já o tinha lido há uns 10 anos mas decidi ler novamente”.

Na cabeça de Ilídio Torres já havia uma história arquitetada, “mas encontrei ali uma identificação e trouxe-o para a narrativa deste romântico que não sabe se o amor romântico ainda tem lugar hoje em dia. Ele acredita nisso e busca-o. Eu deixo ao leitor tirar conclusões sobre isso”.

“Quem conhece a minha vida, identifica-me neste livro. Quem não conhecer, acha que está perante uma ficção do princípio ao fim.”. No entanto, “é a minha experiência de vida ao longo destes anos que está no livro e que quis escrever e transmitir”.

O ser autobiográfico “não importa rigorosamente nada. Importa o leitor dizer se se identifica ou não com este homem. Eu acho que coloquei bem as fronteiras entre o amor romântico e o amor sexual, até porque quem leu diz-me que é a primeira vez que coloco as mulheres numa vertente sexual”.

Processo de escrita
Para José Ilídio Torres “o confinamento foi miraculoso. A minha maior dificuldade é ter a paz suficiente ao fim de um dia de trabalho. O trabalho de professor é muito exigente e há dias em que chego a casa completamente cansado e a única coisa que me apetece fazer é sentar-me no sofá ou dar um passeio e a escrita acaba por surgir em períodos mais noturnos”.

Mas a verdade é que até isto tem vindo a mudar. “Eu tenho o hábito de me levantar cedo e descobri que esse é o melhor período para escrever, até pela luz do dia. O confinamento trouxe-me essa paz de espírito”.

O livro surgiu primeiro mentalmente antes de ser escrito. “Tenho essa capacidade de memória. Escrevo mentalmente páginas inteiras assim e quando passo para o papel sei o que quero, para onde vou… é a narrativa que me conduz. Por isso, para mim é fácil escrever”.

Mais romances
O livro é uma reflexão, madura, sobre o próprio José Ilídio Torres. “De alguém que se avista de cima, capaz de ser crítico consigo próprio, é um livro bem-humorado apesar da linguagem crua”, revela o escritor.

“Eu acho que este é o primeiro livro, depois dos 11 que estão para trás, de uma nova fase de escrita. Penso que estou no momento certo para escrever narrativa porque tenho uma vida rica em experiência que me conferiu uma bagagem cultural”.

O ‘romântico’ Ilídio Torres vai, por isso, continuar a escrever romances. “Sinto-me bem na ficção porque se escreve capítulo a capítulo, não deixa de ser como escrever contos. Tenho uma linha condutora, mas aquilo que faço é transportar o leitor de capítulo em capítulo, não muito longos, mas que dão a vontade de querer ir lendo”.

 

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