Opinião

O E@D (é remendo) não é solução

Há quem sustente que é insanidade continuar a fazer sempre a mesma coisa e…esperar resultados diferentes. Pelo que, é surreal o governo querer convencer-nos que em 15 dias vai resolver o problema do excesso de infetados, consequente falta de camas e essencialmente de meios humanos porque, desde há uns anos a esta parte, a nossa mão de obra mais qualificada no que a cuidados de saúde respeita, por motivos mais que legítimos, tem abandonado o país.

No entanto, o que me leva a escrever estas linhas é, essencialmente, aquela área que me diz respeito, o ensino. Esta abrupta paragem de duas semanas serve apenas para o governo – qual cigarra da fábula que passa o verão a cantar – tentar remediar aquilo que teve seis meses para preparar: o inoperante, inócuo e detestável, ensino à distância, E@D, como pomposamente é descrito em circulares. Nestas duas semanas alguns (dos muitos) alunos carenciados irão receber computadores e, acredito até, terão visita de técnicos de alguma operadora para resolver problemas de internet.

Caros governantes, da minha parte contarão, como sempre, com disponibilidade total para aqueles que são a razão da nossa existência, os alunos. No entanto também digo que quanto menos tempo estivermos nesta espécie de faz de conta que ensinamos, com os alunos a fazerem de conta que aprendem, melhor será para a nossa sanidade mental, para a deles e dos respetivos encarregados de educação.

Em casa não conseguimos – eu não consigo – perceber aquilo que eles ficam a saber e/ou a poder fazer mais. Há ainda a dificuldade acrescida em motivar os alunos e, no caso da educação física, assegurar atividade e densidade motora adequada a cada um.

A experiência do ano transato mostrou que esta “espécie” de ensino tende a aumentar ainda mais as assimetrias existentes em alunos de tão díspares e diferenciados meios socioeconómicos.

Se muitas vezes nos queixamos que em sala de aula/espaço desportivo antes de nos preocuparmos, prioritariamente, com a instrução da matéria de ensino, e precisamos de nos dedicar a resolver problemas de (falta de) educação que muitos alunos apresentam, imaginem como será agora com eles, sozinhos, do outro lado do ecrã! Há uma premente necessidade de serem auto responsáveis, quer na postura em sala (virtual) de aula quer depois, na utilização adequada do “imenso” tempo disponível para estudar/exercitar em casa, e isso, acreditem, não surge de geração espontânea.

Por fim, os alunos possuidores de handicaps de diferentes níveis que, pomposamente, o governo diz estarem na escola para se integrarem, nesta situação não podem, como antes, ser entregues à escola. Ficam, literalmente, abandonados em casa, à sua sorte, quantas vezes com condições mínimas de habitabilidade, sem esquecer que as mesmas nunca foram pensadas para serem um espaço de ensino-aprendizagem.

Se o E@D fosse solução, há muito teria sido adotado, pois diferentes governos, principalmente desde os tempos da famigerada MLR mostraram não ter o mínimo respeito pelo corpo docente. Por isso, e até que a voz me doa, afirmo, alto e bom som: E@D não é solução.

 

Carlos Mangas [Professor de Educação Física]

Deixe um comentário