Opinião

Os deuses devem estar loucos

Este foi o título de um filme que me ficou na memória quando, logo no seu início, uma garrafa de coca cola cai na cabeça de um africano, no meio da selva. A que propósito esta lembrança?

No futebol em particular, e na sociedade em geral, parece que a muita gente lhes caiu, também, algo na cabeça. Pessoas que atendendo aos cargos que ocupam deveriam ter comportamentos exemplares, valorizando preservando e enaltecendo, competências de consciência, regulação e controlo emocional, capacidade empática e de cooperação. Tudo, situações que a prática desportiva e a justiça têm o dom e o dever de exponenciar.

Mas, vejamos o que foi destacado pelos jornais e televisões, desde sexta feira, mais concretamente.

Jorge Costa, treinador do Farense, na Madeira, diz para não contarem com ele para mais palhaçadas, referindo-se, alegadamente, a antijogo da equipa do Marítimo; Jorge Jesus acusa um adversário de intencionalmente magoar um seu jogador dizendo que sendo ele o seu treinador, o multaria pela expulsão, acusando-o de ser mau profissional; o presidente do Paços de Ferreira retorquiu que se Jorge Jesus fosse treinador do seu clube o multaria por dizer asneiras. Ainda nesse jogo, o árbitro Hugo Miguel solicita a um GNR que identifique jogadores na bancada por, alegadamente, o estarem a insultar. Miguel Cardoso, técnico do Rio Ave, no final de jogo com Boavista fez – e repetiu – gesto impróprio a exigir bolinha vermelha no canto superior direito de qualquer televisão; já o presidente do Boavista, Vítor Murta, diz estar cansado de jogadores expulsos e penaltis marcados contra, falando em conluio contra o seu clube; Abel Ferreira, recentemente condecorado, volta ao Brasil e, na disputa de mais um troféu, é expulso por, alegadamente, ter dito “duas grandes equipas em campo, na minha opinião, mereciam um árbitro do mesmo nível”. CR7 depois da história da braçadeira na seleção, desta vez tirou e atirou para o chão a camisola da Juventus num jogo em que a equipa venceu – mas ele não marcou – tendo ainda, ao que consta, esmurrado a parede no balneário. Ruben Amorim, depois de mais um empate, volta a ser expulso, parecendo querer disputar mais um “título” com Sérgio Conceição. Pedro Proença, alegadamente, prometeu o patrocínio da Liga a uma casa de apostas e no final… parece ter apostado noutra.

Sinceramente, não percebo se este sentimento de impunidade e/ou (in)justiça no futebol teve o seu “pontapé de saída” na sexta feira quando das decisões de levar ou não a julgamento algumas personalidades ligadas à chamada Operação Marquês.

Agora que o futebol italiano sugere – e bem – que sejam divulgadas as conversas entre árbitros e VAR para os espectadores aquilatarem a justiça das decisões, quem sabe, este princípio a ser seguido em todas as situações mencionadas, não nos fizesse perceber melhor de que lado estaria, afinal, a razão.

Dizia-se, quando do início do confinamento que, no fim, tudo iria ficar bem. É mentira. No futebol em particular e na sociedade em geral, acreditem, está tudo cada vez pior.

 

Carlos Mangas [Professor de Educação Física]

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