Sinto que Portugal é um país de contrastes. Há, no entanto, quem opte por dizer que somos um país com trastes. Senão vejamos:
Depois de uns meses confinados a lecionar por via digital, utilizando o tão famoso quanto perigoso, E@D, professores, alunos e pais, perceberam que o “dito” foi uma solução de recurso e, como tal, para usar apenas e só, em última instância. No entanto, houve quem pensasse ter descoberto o “eldorado” do ensino, acreditando estarem ali reunidas as ferramentas necessárias e suficientes para substituir um professor na sala de aula. Assim sendo, já se criaram grupos de trabalho – para os políticos, task forces – que vão elaborando inquéritos e mais inquéritos a serem respondidos por todos, tentando fazer-nos acreditar que aquilo que estivemos a fazer estes meses, em casa, foi ótimo.
No desporto, somos campeões europeus de futebol, a seleção de sub 21 garantiu o apuramento para a fase final do europeu, temos treinadores e jogadores a fazerem sucesso por esse mundo fora; somos campeões europeus de futsal de seleções e de clubes; a seleção nacional de andebol participou no mundial, apurou-se para os Jogos Olímpicos e, entretanto, já garantiu apuramento também, para o campeonato europeu da modalidade (estas duas últimas conquistas, sob imensa comoção pela prematura partida de um campeão na vida e no desporto – Alfredo Quintana). Em Judo no recente Campeonato da Europa em Lisboa conquistamos medalhas desde o ouro ao bronze; recentemente, em Sochi, na Rússia, Portugal conquistou dez medalhas no Campeonato Europeu de trampolins; na ginástica artística feminina, uma atleta de referência, Filipa Martins, já apurada para os JO, realizou um exercício inédito nas paralelas assimétricas ao qual ficou associado para sempre o seu nome. Numa estreia em modalidade olímpica teremos um skater, Gustavo Ribeiro que foi 3º classificado no último mundial realizado em 2019.
Mas com todos estes campeões, títulos e resultados de excelência, o que é realmente notícia neste País?
Empresário agride jornalista à frente do presidente de um clube que quando questionado, diz nada ter visto; treinadores de diferentes clubes de futebol envolvem-se em bate-boca uns com os outros e com árbitros; clubes boicotam imprensa; jogadores e treinadores tentam (e conseguem) através de buracos na lei fugir a castigos por comportamentos incorretos; adeptos proibidos de ir aos estádios, forçam entrada nos mesmos; adeptos de clubes rivais, agridem-se.
Talvez por isso, ninguém queira saber que o Comité Olímpico Português (COP) registou uma redução de apoios entre 10 e 15% às federações desportivas e concluiu que apesar destes resultados de excelência, o desporto português se encontra entregue à sua sorte não tendo dos decisores políticos a atenção e apoios devidos.
Se calhar, não sou só eu que tenho razão ao entender que Portugal é um país de contrastes, porque quem diz que somos, afinal, um País com trastes, se calhar usa o termo mais corretamente.
*Traste –(Informal) Pessoa em quem não se deve confiar. = CANALHA, TRATANTE, VELHACO
Carlos Mangas [Professor de Educação Física]
