Quando se inicia o 2º período lectivo, mais tarde que habitualmente por razões perfeitamente justificadas, questionamo-nos se quem teve a ideia de minimizar os casos COVID nos estabelecimentos de ensino são as mesmas pessoas que decidiram, à última hora, a possibilidade de vacinação dos professores na semana transata. Isto porque a plataforma para inscrições que “supostamente” abria às 00h00m, estava quase sempre “em baixo” devido à forte procura. Era assim tão difícil, quando da decisão de adiar o reinício do 2º período ter-se tomado também a decisão de priorizar o acesso dos professores à 3ª dose da vacina, durante todo o período de interrupção letiva? Assim, iniciava-se este novo ano sem ter professores com preocupações acrescidas por ainda não terem recebido a 3ª dose, independentemente das noitadas feitas para a conseguir agendar.
Ainda referente à comunidade educativa, outras situações merecem atenção.
Foi recentemente notícia de 1ª página que Portugal desperdiça seis milhões de € em apoios para fruta nas escolas. Somos mesmo o país que regista a pior taxa de execução da União Europeia. Gastamos 38% da verba atribuída enquanto os outros “piores países” (Bélgica e Espanha) gastaram 73% e 86% da dotação. Os restantes – gulosos – gastaram-na toda. Num país onde houve preocupação em tirar doces das escolas, a redução drástica da possibilidade de consumo de fruta, gratuitamente, leva-me a pensar que luta contra a obesidade está a ser feita duplamente, no corte dos açúcares, sejam eles nefastos ou não.
Importa também, pela qualidade da entrevistada, falar sobre uma extensa entrevista que li, dada pela presidente do Conselho Nacional da Educação (CNE). Segundo a nossa (verdadeira) chefe, a escola continua a reproduzir as desigualdades da sociedade, devendo ser dado, também, mais espaço às artes e atividade física nos currículos. Também é a mesma senhora que afirma, e eu subscrevo, que “existe uma aprendizagem ao serviço da avaliação” quando deveria acontecer o oposto. Ao nível desta incoerência, relevo também o querermos assumir a importância de determinadas aprendizagens diferenciadas e diferenciadoras e valorizarmos (quase) exclusivamente rankings e notas de exames nacionais.
Questionada sobre se o envelhecimento dos professores dificulta a introdução de modelos mais dinâmicos – o entrevistador a tentar imitar alguns ministros colocando o ónus no corpo docente – teve como resposta que os atuais professores têm ótima formação, muita experiência e não cometem erros de quem está a começar. O que preocupa a presidente do CNE é o facto de muitos, estarem perto da reforma e, consequentemente, a sair do sistema, perdendo-se quadros de excelência – insubstituíveis – digo eu, novamente. O que leva inúmeros professores a quererem sair – até antecipadamente, com perdas significativas no vencimento – é a excessiva burocracia que tomou conta do ensino e que para além do não aproveitamento “da fruta” leva a que os professores, quais agricultores interessados em semear conhecimento, se sintam revoltados por só colherem desconsiderações do poder político (consta que até final deste mês, não) e de alguns “iluminados” da comunicação social.
Sendo-lhe pedida ainda uma avaliação do atual ministro da educação, a presidente do CNE, muito diplomaticamente, escusou-se a responder. Aqui, sendo eu o entrevistado, faria o mesmo, pois…não gosto de dar negativas.
Votos de bom ano a todos os leitores do Terras do Homem.
Carlos Mangas [Professor de Educação Física]
