Nacional

Organizações religiosas entre associações em que cidadãos menos confiam

As organizações religiosas ou ligadas à Igreja Católica e os sindicatos são as associações em que os cidadãos menos confiam, por oposição às associações ambientalistas, concluiu um estudo da Fundação Francisco Manuel dos Santos hoje divulgado.

Coordenado pelo investigador Marco Lisi, o estudo “Os Grupos de Interesse no Sistema Político Português”, analisa a ação dos grupos de interesse em Portugal, a sua visibilidade na comunicação social e papel no processo legislativo, e é apresentado hoje às 09:00 num evento digital no sítio da internet da Fundação Francisco Manuel dos Santos.

O resumo do estudo, a que a agência Lusa teve acesso, aponta para que, em geral, 50% dos inquiridos considera que “todo o cuidado é pouco” relativamente às associações, independentemente do tipo de organização considerada, ao passo que 36% se situa “na posição intermédia”, isto é, “apresenta uma orientação ambivalente, nem positiva nem negativa”.

Destaca-se também no estudo o dado segundo o qual “quase 40% dos inquiridos acredita que a realização de greves e manifestações são pouco ou nada importantes”.

Na investigação, parte-se da definição de grupos de interesse como “associações ou organizações de indivíduos que partilham as mesmas preocupações, e que se mobilizam para promover e defender os seus interesses na arena político-institucional e no processo de decisão pública”.

“Se é verdade que um terço dos inquiridos acredita que as organizações da sociedade civil contribuem para aumentar a corrupção do país, também é importante destacar que um terço acredita que estas contribuem para responsabilizar mais eficazmente os governantes e fomentar a transparência”, aponta o documento.

Aliás, a visão dos cidadãos sobre os grupos de interesse depende muito do “ângulo analisado”, ressalva o estudo.

“Se, por um lado, uma percentagem considerável dos indivíduos considera que as organizações da sociedade civil contribuem para a redução das desigualdades (39%) e, em menor grau, as reconhecem como veículos importantes de informação (34%), por outro, 38% dos inquiridos acredita que as organizações da sociedade civil servem sobretudo para representar interesses de grupos específicos e não para aumentar o pluralismo e a visibilidade de interesses não representados no parlamento”, revela-se.

Essa ambivalência dos cidadãos face a estas associações depende também da linguagem utilizada.

“A partir dos dados do inquérito, fica patente uma dicotomia entre expressões como ‘sociedade civil’ e ‘grupos de pressão’, sendo que ‘sociedade civil organizada’ ou ‘organizações da sociedade civil’ são avaliadas positivamente (60%), enquanto o termo ‘grupos de pressão’ detém uma imagem muito ou algo negativa para 34% dos inquiridos. É de realçar ainda a avaliação positiva que 58% dos cidadãos fazem ao termo ‘parceiros sociais'”, aponta-se igualmente.

De acordo com o estudo, o “envolvimento associativo em Portugal caracteriza-se pelo reduzido número de membros e, simultaneamente, pela alta intensidade da participação em atividades promovidas pelas organizações de interesse”.

Os clubes ou as associações desportivas e os sindicatos são as organizações com maiores níveis de associativismo, verificando-se entre 2001–2020 uma tendência para o aumento da pertença associativa na generalidade das associações, com a exceção das organizações religiosas.

“Entre 1999 e 2020 aumentaram em Portugal todas as formas de participação política, com exceção da participação em manifestações e em atividades ilegais de protesto”, realçando-se “aumentos substanciais no que respeita aos contactos com políticos ou à assinatura de petições”.

A participação em manifestações é, em média, o instrumento menos popular tanto em Portugal como na Europa, aponta também o estudo.

Segundo os inquiridos, a visibilidade das organizações de interesse nos meios de comunicação é o instrumento mais relevante para influenciar as políticas públicas, (17% considera o mais importante, e 13%, o segundo mais importante), seguida do conhecimento sobre dossiês específicos, da participação nos trabalhos do parlamento, dos recursos financeiros e das relações de proximidade com os decisores políticos.

Por outro lado, apenas 5,7% dos inquiridos considera importante o envolvimento em campanhas eleitorais.

Deixe um comentário