Opinião

A Tribo do Futebol

Enquanto estudante no ISEF-UP, no 4ºano, na opção de futebol e teoria do treino, o professor da disciplina – Vítor Frade – fazia-nos perceber que devíamos centrar a nossa atenção nas pessoas para assim nos darmos conta da complexidade que extravasava o jogo e as linhas do retângulo. Tanto assim que as leituras sugeridas fugiam ao tradicional, aparecendo “Os Dragões do Éden – Carl Sagan” ou “A tribo do futebol – Desmond Morris”. Hoje, seguindo as sugestões do professor, decidi centrar a atenção nas pessoas que assistem aos jogos usando, como muleta, um dos livros acima mencionados.
No livro de Desmond Morris, há diferentes temas – raízes, rituais, heróis, adeptos tribais. Estes últimos têm tido “honras” de primeiras páginas na imprensa nacional. Vejamos o que diz sobre eles o autor: “Apreciar as estradas que conduzem a um grande estádio em dia de jogo, é como observar um exército medieval a reunir-se para a batalha”; “estes adeptos dividem-se em diferentes categorias – os especialistas, os brincalhões, os furiosos, os mártires, os excêntricos,…” “… nota-se a preocupação da polícia de criar uma terra de ninguém entre grupos de adeptos adversários”; “a polícia especializou-se em controlar movimentos de multidão, mas por vezes é colhida de surpresa”.
Por cá, a polícia, através das suas chefias, já o percebeu há muito, razão pela qual e para evitar a chamada intervenção musculada à posteriori, opta pelas chamadas caixas de segurança a caminho dos estádios. Não me sentindo confortável, deixei de ir a jogos fora que me obrigassem a esse percurso em grupo.
De há dois anos a esta parte, a convite da Rádio Voz do Neiva, comento jogos do Sporting Clube de Braga. Na bancada de imprensa do estádio municipal, na nossa fila, fica sempre o grupo de colaboradores da equipa técnica adversária, equipados a rigor, filmando jogos para enviar dados para o respetivo treinador. Graças a essa proximidade e estando eu no início da fila – junto às escadas – desde esta semana, tenho sempre um segurança ao meu lado. Quem estiver perto e não conhecer os rituais tribais, pensará “aquele artista de cabelo branco deve ser perigoso, pois o segurança não sai dali”. O artista de cabelo branco, ao invés, comentador e adepto da equipa da casa, suspira duplamente para que os adversários não tenham sucesso pois, as manifestações normais de regozijo dos “técnicos” adversários podem originar uma invasão de adeptos tribais furiosos e, logo a seguir ao segurança, ele sente-se o elo mais fraco.
Aos adeptos tribais nacionais sugeria que sendo, todos eles, importantes pela atmosfera que criam nos jogos e pela sua inabalável lealdade, não se deixassem levar pela fúria, e optassem por integrar aquela turbe a que Desmond Morris apelida de brincalhões, usando comentários cáusticos e divertidos como por exemplo, quando o árbitro se enganar, dizer-lhe: “cegueta não te deixaram trazer o cão!” ou, parafraseando Ricardo Araújo Pereira, gritassem em uníssono “o árbitro está a ser extremamente incorreto”.
Aos que não conhecem “a tribo” um conselho, leiam o livro, acreditem, vale a pena.

Carlos Mangas [Professor de Educação Física]

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