“Fizemos uma festa bonita”. A conclusão é de Maria, uma das utentes do Casa do Povo do Vale do Cávado, em Amares, que participou em mais uma atividade do projeto ‘Ponto de Fuga’, desenvolvido pelo Centro Social Vale do Homem. Os seis utentes, referenciados por ter doença mental, começam por fazer exercícios de movimentação, como espreguiçar ou mexer os olhos, comandados pelo professor Eduardo, da AECA.
Na biblioteca municipal Sá de Miranda, espaço cedido pela câmara de Amares, os primeiros acordes de músicas populares e tradicionais começam a soar através dos dedos dos professores. A timidez inicial esvanece-se, as gargantas desentorpecem-se e as vozes começam-se a ouvir. Seja na ‘Ó Rama O que Linda Rama’, seja ‘Ao Passar a Ribeirinha’, os utentes adquirem uma nova expressão, de recordação de cantigas que cantavam noutros tempos.
Já com a animação instalada é altura de cada um ter direito a um instrumento. O professor Eduardo distribui os ferrinhos, o reco-reco, o bombo, entre outros e pega na concertina. Marcando o ritmo com os pés, os seis participantes tocam e cantam afinadíssimos, mais um conjunto de músicas populares.

Sim, fizeram uma festa bonita e não fosse o almoço estar tão perto, ficariam mais um tempo a tocar e a cantar. Estes mesmos utentes já tinham participado numa atividade de pintura.
CSVH preocupado com as necessidades das pessoas mais vulneráveis
O projeto ‘Ponto de Fuga’, da autoria do Centro Social Vale do Homem, tem como coordenadora a enfermeira Sílvia Peixoto: “O Centro Social Vale do Homem sempre se preocupou com as necessidades das pessoas mais vulneráveis e no nosso raio de atuação, que são os concelhos de Amares, Terras de Bouro e Vila Verde, não existia nenhum projeto dedicado exclusivamente ao cuidado da pessoa com doença mental”, começa por referi ao ‘Terras do Homem.
E este projeto foi pensado para isso: “proporcionar às pessoas com doença mental que tenham várias atividades, todas com um objetivo terapêutico, seja na estimulação da memória, seja na diminuição da solidão, ter momentos de contato com outros pessoas para diminuir o isolamento e foi, basicamente, por isto, que este projeto foi criado”.
O projeto contempla atividades de música, teatro, pintura, de bem-estar e com um psicólogo. Todos os participantes têm acesso a estas atividades e a sua realização surge consoante a disponibilidade dos formadores e dos utentes, mas todos eles têm acesso a estas diferentes atividades.

É feito em parcerias com a câmara de Amares, que cede o espaço, neste caso, a biblioteca, com a câmara de Terras de Bouro, que, também, cede o espaço e com instituições na comunidade como a AECA, o Teatro da Balança e a D’Arte, que cedem os professores, remunerados e que ajudam nestas atividades.
“As pessoas com doença mental são referenciadas para nós, e todos têm que ter um critério: serem maiores de 18 anos e serem acompanhados em psiquiatria. Se reunirem esses critérios, nós contactamos as intuições e os técnicos, e só vêm às atividades quem reunir os critérios”.
O projeto é financiado e está primeira parte acaba agora no final do ano: “estamos a ver a possibilidade da sua continuidade, que tudo leva a crer, irá ser possível”.
Mais de 120 participantes
Ainda que os dados estejam a ser tratados é possível referir que nestas atividades participarem mais de 120 pessoas com doença mental, não só idosos, dos três concelhos: “o financiamento foi para esta área de abrangência e a própria atuação do Centro Social Vale do Homem centra-se nestes três concelhos.

O nome ‘Ponto de Fuga’ “tem a ver com o fato destas atividades funcionarem como um momento de fuga de alguma coisa, fuga da doença, de tudo aquilo que nos pode assombrar. É ter um momento em que todos estão no mesmo patamar e têm capacidade para fazerem as diferentes atividades”.
