A criação litúrgica tem o poder de unir o visível ao invisível, o humano ao divino. Foi neste espírito que nasceu o cálice e a patena concebidos para a Missa Nova Campal do Padre Flávio Nunes, a realizar-se em Vila Real, no próximo dia 20 de Julho de 2025.
O convite à artista amarense, Sylvie Castro, foi aceite “com alegria e reverência”, em janeiro de 2025, “representa não apenas mais uma obra de design, mas uma profunda experiência espiritual e artística, resultado de um diálogo íntimo entre fé, forma e função”.
Recorde-se que no ano passado, Sylvie Castro tinha criado um cálice e duas patenas com um conceito distinto. “A riqueza dessa primeira experiência, tanto no plano humano como no plano espiritual, despertou em mim uma disponibilidade imediata para este novo desafio. Contudo, o que agora apresentamos revela-se como algo profundamente singular, com raízes nas Escrituras, na tradição litúrgica e na identidade geográfica e espiritual de Trás-os-Montes”.
O processo criativo iniciou-se com a escolha da madeira de oliveira, como evocação directa do Horto das Oliveiras — lugar de oração, entrega e agonia. No entanto, após vários ensaios técnicos, a artista concluiu que “a madeira de oliveira não oferecia a estabilidade necessária. Optámos então pela madeira de carvalho, mais robusta e resistente, mantendo, ainda assim, o carácter simbólico da árvore — enraizada, perene, forte — como expressão da fé firme e inabalável”.

O tema escolhido “Nas Tuas Mãos” tornou-se o fio condutor de toda a criação. “Após reuniões inspiradoras com o P. Flávio, o conceito começou a tomar forma de modo quase intuitivo. As mãos, unidas em forma de ‘V’ com uma ligeira curvatura, remetem não apenas para o gesto de entrega na cruz, mas também para o relevo das montanhas transmontanas, enquadrando assim a obra numa geografia espiritual e identitária”.
A estrutura do cálice, com cerca de 23 cm de altura, é composta por madeira de carvalho, com copo, base e frente em prata com banho de ouro. Está bem visível uma cruz, incrustada na madeira, reforça o gesto de Cristo na Cruz, ecoando o ponto alto da sua missão redentora. A patena, com 20 cm de diâmetro, acompanha esta estética e simbolismo, conjugando madeira e metais nobres, num equilíbrio entre simplicidade e nobreza.
Este gesto de coerência estética estende-se aos paramentos litúrgicos: casula, estola e escapulário, onde o desenho das mãos foi transposto para bordado de linha, feito à mão. “Estes elementos não só criam uma unidade visual e teológica entre os objetos do culto, como também prolongam o gesto do ofertório — as mãos que oferecem e recebem, que acolhem e entregam”.
“Mais do que uma peça de design”, este cálice e patena “são expressão de uma espiritualidade encarnada, enraizada na Palavra e na liturgia, na terra e na comunidade. Foram criados para servir o mistério da Eucaristia, centro da vida cristã, e para serem instrumento de beleza e transcendência. Que, ao serem usados pela primeira vez na Missa Nova do Padre Flávio Nunes, possam ser sinal visível da entrega total de Cristo e reflexo da fé viva do povo transmontano”, refere Sylvie Castro.
