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Um novo roteiro para a monitorização da biodiversidade na Europa: tecnologia e cooperação ao serviço da conservação

Um novo estudo, publicado hoje na prestigiada revista Nature Reviews Biodiversity, apresenta uma estratégia para transformar a observação da vida selvagem no continente por meio de tecnologias digitais, análise de ADN e governação integrada.

Apesar da rápida transformação que a biodiversidade enfrenta à escala global, os governos ainda carecem de dados robustos e consistentes para orientar políticas de conservação eficazes. Para responder a este desafio, uma equipa internacional, composta por investigadores do Centro de Investigação em Biodiversidade e Recursos Genéticos (BIOPOLIS-CIBIO) da Universidade do Porto, propõe a criação de uma Rede de Observação da Biodiversidade (BON) para a Europa. Este sistema pretende unificar a monitorização de espécies e ecossistemas — desde o código genético até à saúde de florestas e oceanos.

O roteiro identifica 84 Variáveis Essenciais de Biodiversidade (EBVs) que constituem a base deste sistema harmonizado. Estas variáveis funcionam como uma lista de verificação padronizada que permite medir, de forma coerente, a abundância de aves, a fenologia de insetos, a extensão de pradarias marinhas e a diversidade genética em todo o território europeu.

“A nossa proposta oferece um plano para a Europa corrigir os seus sistemas de monitorização fragmentados e desconexos”, afirma Daniel Kissling, investigador da Universidade de Amesterdão (UvA) e autor principal do estudo. Pedro Beja, investigador do CIBIO-BIOPOLIS, destaca também que “a monitorização da biodiversidade é essencial
para medir tendências com rigor e comparar resultados entre regiões e países, sobretudo numa altura de perda acelerada de biodiversidade e de degradação dos ecossistemas e dos serviços que prestam às pessoas. Este trabalho é importante porque ajuda a criar uma abordagem comum, consistente e útil para apoiar decisões e políticas públicas”.

Para operacionalizar esta visão, os autores propõem a criação do Centro Europeu de Coordenação da Observação da Biodiversidade (EBOCC). Este organismo funcionaria como um polo central para harmonizar os métodos de recolha de dados entre os países, garantir a transparência na governação dos dados e alinhar a monitorização às necessidades políticas da União Europeia.

A estratégia europeia assenta na combinação de tecnologias de ponta com a perícia humana. O roteiro destaca quatro pilares tecnológicos fundamentais:

– Sensores Digitais Automatizados: Gravadores acústicos para aves e câmaras de vida selvagem.
– Inteligência Artificial (IA): Para o reconhecimento automático de espécies e o processamento de dados em massa.
– ADN Ambiental (eDNA): Deteção de comunidades biológicas a partir de amostras de água, solo ou ar.
– Deteção Remota: Utilização de satélites (como o programa Copernicus), drones e aviões para observar habitats em escala continental.

Apesar do avanço tecnológico, o estudo reforça que os cientistas cidadãos e especialistas em taxonomia continuam a ser o pilar do sistema, fornecendo observações essenciais que a tecnologia apenas vem complementar e tornar mais escaláveis.

Este roteiro é o resultado do projeto EuropaBON (Horizonte 2020) e já obteve uma resposta política significativa, com o Parlamento Europeu a aprovar uma ação preparatória para o início da implementação do EBOCC. A iniciativa está diretamente alinhada com a Estratégia de Biodiversidade da UE para 2030, o Regulamento sobre a Restauração da Natureza, o Quadro Global de Biodiversidade de Kunming-Montreal e os esforços de avaliação do IPBES e da rede global GEO BON.

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