Belíssimo e comovedor. Transformou-me a leitura do elogio fúnebre que António Araújo dedicou, no Expresso, ao japonês Sunao Tsuboi. Aos noventa e seis anos, desaparece mais um “hibakusha”, sobrevivente do «clarão imenso» provocado pela detonação do “Little Boy”, infame gestação do Enola Gay que, em 1945 se manifestou meio quilómetro acima do solo de Hiroshima. Através das palavras de António Araújo, sou acometido de condolências várias, à medida que progrido no texto. Num espaço de segundos, inocentes transfigurados em esqueletos totalmente brancos, sem um único vestígio de carne. Seres humanos «vaporizados», «volatilizados», e aquelas manchas negras projectadas no chão e nas paredes, eternamente baptizadas como “sombras da morte”. Sessenta e quatro quilos de destruição plena. Morte. Longínqua. Olvidada.
Em 2021, olhamos nos televisores, confortáveis e anestesiados, impantes turbas de seres humanos, fugindo da ameaça de morte ao encontro, para muitos, da certeza de morte. Atirados ao mar, despejados em campos de concentração ou empurrados contra muros de concreto e arame farpado, estas hordas desterradas tornam-se na mais clara desresponsabilização de líderes políticos que fomentam a guerra e o aquecimento global. Nos lugares onde nada existe, encontram-se as “sombras da morte” de povos que fugiram, das terras de origem, em busca da sobrevivência. No nosso sofá, assistimos, impávidos, banalizando o sofrimento alheio, à situação que jamais experimentaremos. Devastação causada pela guerra e pelo agravamento das alterações climáticas. Morte. Longínqua. Desdenhada.
Há dias, no National Geographic, assisti a um glamoroso programa dedicado a Portugal. Através de imagens aéreas, actuais, fui viajando pela calçada portuguesa de Lisboa, pelas extensões latifundiárias do Alentejo, pelos socalcos conquistados à dureza orográfica do Douro, à sazonalidade humana dos areais do Algarve e à engenhosa destreza da nova ponte em Arouca, a espreitar os longos passadiços do Paiva. Vogando ao sabor das quatro estações do ano, descobri a transformação natural das condições geográficas do nosso país, a paleta de cores da natureza que nos toca, a adaptação do ser humano à corrida do tempo. Noventa e dois mil quilómetros quadrados plantados no extremo Sudoeste da Europa, com o continente como fronteira a Este, e as “investidas violentas” do Oceano Atlântico a Oeste. Paz. Vida. Proliferação. Até quando?
O reconhecimento do aquecimento global é um passo simbólico e intelectual que urge ser excedido. Torna-se necessário um novo teor incisivo de acções concretas que diminuam a violência das consequências das alterações climáticas. Quando olho, de cima, para o nosso Portugal, consigo ver, de igual modo, um interior em despovoamento gradual, movimento causal da funesta desertificação. A Oeste, o abraço de urso do Atlântico à costa marítima tem resultado em inundações, desaparecimento de praias e na transformação urbana de muitas localidades litorais. O comportamento humano despreza estes sinais, evidentes, do aquecimento global. Os líderes mundiais recusam moderar a ambição desmedida de lucro, em prol do futuro do planeta. É enternecedor ouvir os gritos de protesto dos jovens activistas, como o de Raeesah Noor-Mohamed que declarou, em Glasgow: «a sensação é a de que estamos aqui como se nos tivessem dado um bilhete para assistirmos à destruição do nosso futuro».
Remetendo para o último e, já, distante artigo que escrevi para o Terras do Homem, sintetizo numa palavra: solastalgia. Neologismo cunhado por Glenn Albrecht, sentimento que experimentarei no momento em que regressar à praia da minha infância, e apenas me deparar com água, absolutamente, menos salgada.
Bruno Marques [Escriturário]
