As comemorações do 25 de abril em Amares começaram com a entrega de cravos às pessoas que se iam juntando na Praça do Município para celebrar os 50 anos da revolução. As cerimónias contaram com as atuações da Banda Filarmónica de Bouro Santa Maria e a Associação ‘Fluir Artes Musicais’, com a presença dos Bombeiros Voluntários de Amares e do Núcleo da Cruz Vermelha de Amares, de um aluno do Agrupamento de Escolas de Amare e da Secção Columbófila de Amares.
No entanto, foram os discursos que marcaram a sessão, sobretudo, por mensagens subliminares que tanto o presidente da câmara de Amares, Manuel Moreira, como o presidente da Assembleia Municipal, João Januário, deixaram ficar.
Õ autarca lembrou que “havia, antes do 25 de abril, os que rejeitavam todas as liberdades que pusessem em causa a unidade e a autoridade ilimitada do poder. Por isso, se tentava limitar as liberdades pessoais através de mecanismos de repressão e de perseguição. Mas hoje, com a instauração da democracia representativa, o poder é do povo. Dessa verdade, dessa conquista, nunca devemos abdicar!” e acrescentou: “há ainda, no entanto, quem assuma, nas organizações e na vida social, a função de vigiar pensamentos e palavras divergentes ao poder – como faziam os informadores da PIDE no antigo regime. Há também aqueles que são como os vampiros descritos por Zeca Afonso e que continuam a servir-se da política para engrandecer o ego e ‘sugar a manada'”.


Para Manuel Moreira, “isto não é a democracia, são apenas escolhas individuais e posturas pessoais que acontecem na esfera da vida democrática. Esta distinção entre as partes e o todo é urgente e necessária, senão mesmo imprescindível, para continuarmos a afirmar e a valorizar o sistema político que hoje organiza a nossa sociedade”.
Depois, focou o discurso no concelho, “vamos continuar a assumir a promoção da igualdade de oportunidades e a coesão social como objetivos centrais. A Saúde, Educação e Ação Social serão sempre medidas que sustentam o crescimento sólido e a qualidade de vida que defendemos. Assim, continuaremos a honrar as funções que nos foram confiadas pelos amarenses, atuando com transparência e rigor na gestão das contas públicas e lutando, sempre com total determinação, pela melhoria das infraestruturas básicas como o saneamento, água e rede viária – áreas para onde temos canalizado avultados investimentos; mas também valorização do património material e imaterial, criação de novas dinâmicas para promover a atratividade económica, o emprego e a inovação, nomeadamente nas áreas do ambiente e ação climática, mobilidade, turismo e desenvolvimento sustentável”.
João Januário
Já o presidente da Assembleia Municipal, no meio de alguns ‘recados’, começou por dizer que “o aprofundamento do compromisso (resultante da revolução) urge ir além de uma visão minimalista da democracia, reconhecendo que a mesma não se esgota no acto de votar, mas sim exige uma maior participação ativa na vida da comunidade”, lembrando que “a defesa de diferentes posições e o exercício do escrutínio público, são elementos cruciais para a qualidade da decisão democrática final”.
E não se esqueceu das gerações mais novas, “para as quais o conceito de liberdade foi herdado como algo natural, são as mesmas gerações para as quais o atual sistema democrático está a ser incapaz de criar novos horizontes, confrontando-se com mensagens contraditórias e confusas em relação ao regime democrático”, “confrontadas com um futuro com poucas perspetivas, assente na precaridade e na crescente individualização das relações sociais, que comprometem, seriamente, as relações de trabalho, comunidade e sentido identitário”.

E apontou alguns fatores “de democracia tendencialmente elitista” que afastaram os eleitores. “Quando a classe política assume a responsabilidade de governar e não consegue cumprir com o que prometeu. Quando não consegue apresentar soluções para as pessoas. Quando somos confrontados com sucessivos escândalos na gestão da causa pública. Quando temos vários inquéritos judiciais em curso que envolvem diversas figuras de destaque que desempenharam funções de importância na gestão do nosso país. Quando a tomada de decisões políticas é realizada através de uma burocracia elitista, cheia de dificuldades e autoritarismos. Não podemos ficar surpreendidos com a corrosão da nossa democracia e consequentemente insatisfação e descrença na participação política. Contribuindo para uma desconexão com a população que procurará encontrar a sua identidade noutras esperanças assentes numa narrativa populista e demagógica.
A finalizar uma palavra de esperança: “olhando o futuro, podemos imaginar um Portugal ainda mais democrático, justo e próspero. Um Portugal onde todos os cidadãos tenham as mesmas oportunidades de progredir e onde a qualidade de vida seja cada vez melhor”.




