Num período de tensões geopolíticas acrescidas, os cidadãos estão cada vez mais preocupados com o seu futuro e querem que a UE atue com unidade e ambição.
Os dados do mais recente Eurobarómetro do Parlamento Europeu, publicado quarta-feira, mostram que a evolução da situação mundial está a causar um sentimento de preocupação entre os cidadãos da União Europeia (UE). A instabilidade geopolítica está a ter um grande impacto nas perceções, com 48% dos portugueses e 52% dos europeus a afirmar que se sentem pessimistas em relação ao futuro do mundo. O sentimento é o mesmo quando se trata do futuro da UE, para 30% dos portugueses e 39% dos europeus. Quarenta por cento dos portugueses respondeu estar pessimista quanto ao futuro do seu país (41% dos europeus). As perspetivas parecem mais animadoras a nível individual, com mais de três quartos dos portugueses (72%) e europeus (76%) a sentirem-se otimistas em relação ao seu próprio futuro e ao da sua família.
As conclusões do estudo confirmam a evolução dos desafios globais. As preocupações relativas à segurança e à proteção são elevadas em todos os temas abordados, com as seguintes preocupações no topo da lista dos portugueses: catástrofes naturais agravadas pelas alterações climáticas (91% em contraste com 66% média da UE), os fluxos migratórios descontrolados (88% perante 65%), terrorismo (74 % em comparação com 67%), conflitos perto da UE (71% em Portugal e 72% na UE), ciberataques de países terceiros (65% versus 66%), e dependência da UE de países terceiros (65% em oposição a 59% da média europeia). Enquanto isso, os riscos relacionados com a comunicação, como as ameaças à liberdade de expressão (70% em Portugal e 67% na média da UE), o discurso de ódio online e offline (68% em ambos), a desinformação (67% e 69%) e a proteção insuficiente dos dados (66% e 68%), são também apontados como motivos de grande preocupação.
Apelo para uma Europa unida
Num contexto de inúmeros desafios, os inquiridos querem que a União Europeia reforce o seu papel. A maioria dos portugueses (77%) e cerca de dois terços dos europeus (66%) querem que a UE contribua para os manter seguros, sublinhando o papel protetor da União no atual contexto político. Os cidadãos também consideram que a unidade é fundamental: 96% dos portugueses e 89% dos europeus afirmam que os Estados-Membros da UE devem estar mais unidos; e 90% dos portugueses e 73% dos europeus concordam que a União Europeia necessita de mais meios para enfrentar os atuais desafios mundiais. Segundo os portugueses, para reforçar a sua posição no mundo, a UE deve centrar-se, em primeiro lugar, na competitividade, economia e indústria (46%, uma vontade que sobe oito pontos percentuais face aos dados publicados em maio de 2025, e contrasta com uma média da UE de 32%), na defesa e segurança (33% contra 40% na média da UE), na independência energética (31% perante 29%), e na educação e investigação (31% em Portugal e 25% na UE).
«As tensões geopolíticas moldam o sentimento diário de segurança dos europeus. Os cidadãos esperam que a União Europeia proteja, esteja preparada e atue em conjunto. É exatamente isso que uma Europa mais forte e mais assertiva deve proporcionar. A Europa é o nosso escudo mais forte», afirma a presidente do Parlamento Europeu, Roberta Metsola.
O custo de vida é uma prioridade fundamental
Os preços elevados continuam a afetar o nível de vida dos cidadãos: 72% dos portugueses e 53% dos europeus referem que têm dificuldades em pagar as contas “a maioria das vezes” e 22% (versus 34%) têm esta dificuldade “de vez em quando”. Um terço dos portugueses (31% perante 28% dos europeus) entendem que o seu nível de vida vai diminuir, um sentimento que aumentou 13 pontos percentuais face a maio de 2025. O receio de que o seu nível de vida diminua é mais acentuado entre os cidadãos franceses (45%), belgas e eslovacos (ambos com 40%).
Nesta linha, a inflação, o aumento dos preços e o custo de vida (58% dos portugueses, 41 % dos europeus), seguidos da economia e criação de emprego (45% dos portugueses contra 35% da média da UE), continuam a ser as áreas que os cidadãos gostariam de ver tratadas como prioridade pelo Parlamento Europeu. Estas prioridades ficam apenas atrás da saúde pública, que 68% dos portugueses (32% na média da UE) disseram querer ver tratada no Parlamento Europeu. A preocupação com a saúde pública aumentou 18 pontos percentuais em relação a maio de 2025.
A nível europeu, os cidadãos esperam que a UE se concentre no reforço da sua posição no mundo, nomeadamente através da defesa e da segurança (40%, um aumento de 3 pontos percentuais em relação ao estudo anterior).
Por outro lado, os cidadãos reafirmam a importância dos valores fundamentais e fundadores. A paz surge como o valor que mais querem que o Parlamento Europeu defenda (57% dos portugueses, 52% dos europeus), refletindo o atual clima geopolítico. A democracia (para 30% dos respondentes em Portugal e 35% na média da UE), os direitos humanos (30%, em contraste com 22% da UE), a solidariedade entre Estados-Membros e as suas regiões (27% em comparação com 17%), e o respeito pelas identidades, culturas e tradições nacionais nos Estados-Membros (21% versus 15%) também estão no centro das preocupações.
Apoio crescente à pertença à UE
As atitudes em relação à UE e às suas instituições continuam a ser positivas, apesar de um ligeiro declínio. A maioria dos portugueses (69% em comparação com 49% dos europeus) tem uma imagem favorável da UE. Cinquenta e sete por cento dos portugueses têm uma imagem positiva do Parlamento Europeu, tornando-se o Estado-Membro com uma imagem mais positiva da instituição (38% na média da UE). Uma maioria forte e crescente dos portugueses (84%, perante 62% dos europeus) considera que a pertença do seu país à UE é positiva, o que representa um aumento de seis pontos percentuais desde que a pergunta foi colocada pela última vez em fevereiro/março de 2024.
Do ponto de vista sociodemográfico, os jovens continuam a ser dos mais fervorosos apoiantes da UE e têm grandes expectativas em relação ao papel da União. Os jovens portugueses dos 15 aos 24 anos são mais propensos a encarar a UE e o Parlamento de uma forma positiva: 89% têm uma imagem positiva da UE e 78% querem um papel reforçado para o Parlamento Europeu.
Numa altura em que se celebram os 40 anos de adesão de Portugal à União Europeia, 84% dos portugueses consideram que a pertença à UE é positiva. Esta perceção chega aos 96% no segmento entre os 15 e os 24 anos.
