Contribuir para diminuir a poluição marítima, tirar proveito da biomassa existente nos mares e ainda criar soluções para a indústria têxtil que são não só ecológicas como tecnologicamente avançadas. É o que tem vindo a fazer um grupo de cientistas e empresas nacionais no âmbito do Projeto PBA Vertical Têxteis (VT), integrado no Pacto da Bioeconomia Azul. Desde fibras que incorporam 50% de matérias-primas vindas de redes de pesca, corantes naturais obtidos a partir de microalgas e atribuição de novas funcionalidades a fibras utilizando também as algas, são já várias as inovações que juntam duas áreas símbolos máximos da portugalidade: o mar e o têxtil.
As redes de pesca descartadas nos mares são consideradas um dos maiores problemas ambientais, estimando-se que várias centenas de toneladas deste tipo de material estejam perdidas nas águas. Daí que projetos, como o caso do PBA-VT, que procuram dar nova vida e utilidade a este tipo de resíduos possam vir a ter um impacto enorme na vida marinha, dado que poderão permitir criar negócios sustentáveis que ajudem à despoluição ou que evitem o descarte. E é precisamente nesta área que se encontra um dos grandes sucessos do projeto até ao momento: as redes de pesca foram sujeitas a processos de reciclagem e incorporadas em novas fibras têxteis. “No âmbito do trabalho realizado, há dois aspetos importantes a realçar. Por um lado, foi possível criar estes materiais utilizando a reciclagem termomecânica, uma abordagem promissora para substituir os processos de reciclagem química (mais poluentes e complexos) atualmente utilizados. Por outro lado, destaca-se a produção de uma fibra constituída por 50% de material proveniente destes resíduos marinhos, constituindo uma solução sustentável e inovadora”, avança Juliana Silva, investigadora do CeNTI no departamento de Fibras Funcionais.
Um outro recurso, desta vez natural, que pode ter uma grande utilidade em soluções inovadoras baseadas na sustentabilidade são as algas, nomeadamente as microalgas. E o PBA-VT tem vindo a explorar duas possíveis utilizações destes produtos: a pigmentação natural de estruturas têxteis, diminuindo assim a dependência de produtos químicos que muitas vezes se tornam poluidores dos ecossistemas marinhos através da contaminação de águas e solos, e a incorporação de novas funcionalidades – anti-UV, antioxidante, fluorescente – em tecidos e malhas.
“No caso das estruturas têxteis tingidas e funcionalizadas, foram utilizadas várias espécies de microalgas e extratos destas e foram testadas diferentes composições têxteis (algodão, linho, cânhamo, lyocell, etc.)”, adianta ainda Luísa Alves, investigadora do CeNTI no departamento de Materiais Funcionais. E, reforça, “obtiveram-se têxteis com uma paleta de cores variada e com propriedades funcionais como anti-UV, antioxidante, fluorescência e alguns deles com resultados de solidez muito satisfatórios.” Os próximos passos incluem a produção em maior escala de fibras com biomassa de algas incorporada de forma a “comprovar a industrialização do método, bem como permitir a produção de diferentes estruturas têxteis”.
As diferentes soluções estão já a ser testadas em modelos desenvolvidos no âmbito do projeto. Com foco na indústria têxtil, foram criados uns calções, um fato de banho, um kimono e uma camisola. Já no que diz respeito ao calçado, a escolha recaiu em alpercatas, sapatilhas e numa bolsa.
E para fechar o ciclo de valorização de produtos vindos do mar, mantendo também o foco na sustentabilidade, o Projeto PBA-VT está também a avaliar, com sucesso, a utilização de microalgas para tratar efluentes provenientes da indústria têxtil. A investigadora Luísa Alves adianta que ficou demonstrada a possibilidade de “utilizar uma combinação de métodos de oxidação avançada e cultivo de microalgas para a remoção de metais e cor do efluente têxtil bruto. Estes métodos aumentam a sustentabilidade do processo de fabrico uma vez que constituem uma solução de custo mais baixo para o tratamento, produzem uma água com menor impacto ambiental e uma biomassa com potencial de valorização na produção de biocombustíveis, como o biogás”. E, prossegue, “adicionalmente, destacam-se os resultados positivos alcançados no tratamento das lamas, especialmente após a aplicação de pré-tratamentos que aumentaram significativamente a valorização destes resíduos”.
Os bons resultados levaram já a que esteja prevista a implementação de um sistema de tratamento de efluentes, à escala piloto, envolvendo um pré-tratamento com ozono (método de oxidação avançada), torre biológica para remoção de matéria orgânica, e microalgas isoladas anteriormente nos próprios efluentes.
