O estudo “Implicações da perceção de desigualdades socioeconómicas no bem-estar das crianças e nas suas aspirações” do Observatório Social da Fundação ”la Caixa” revela que alunos que se percecionam com estatuto socioeconómico mais baixo reportam maior discriminação, menor bem-estar e expectativas mais negativas sobre o futuro.
As crianças e adolescentes de famílias desfavorecidas enfrentam maior vulnerabilidade decorrente de situações de privação material e social. Em Portugal, 20,7% das crianças e jovens encontram-se em risco de pobreza ou exclusão social, segundo dados do Instituto Nacional de Estatística (INE) relativos a 2024. No mesmo período, a desigualdade de rendimentos medida pelo coeficiente de Gini atingiu 30,9%, colocando o país entre aqueles com níveis de desigualdade acima da média da União Europeia.
Neste contexto, cerca de 1 em cada 10 alunos em Portugal sente forte discriminação socioeconómica na escola, revela o estudo “Implicações da perceção de desigualdades socioeconómicas no bem-estar das crianças e nas suas aspirações”, impulsionado pelo Observatório Social da Fundação ”la Caixa” e elaborado por Leonor Pereira da Costa e Ana Rita Farias (Universidade Lusófona, HEI Lab); Joana Cabral (Independent Researcher); Ricardo Borges Rodrigues (ISCTE – Instituto Universitário de Lisboa, CIS); Sílvia Luís (Universidade de Lisboa, Centro de Investigação em Ciência Psicológica) e Vítor Hugo Silva (Universidade Lusófona, HEI Lab; ISCTE – Instituto Universitário de Lisboa, DINÂMIA’CET).
O estudo baseia-se num inquérito realizado a 2.580 crianças e adolescentes entre os 10 e os 15 anos, em 40 escolas de todo o país, garantindo representatividade nacional.
Os estudantes que se percecionam numa posição socioeconómica mais baixa relativamente aos colegas apresentam maior probabilidade de relatar essas experiências, níveis mais baixos de bem-estar e expectativas menos ambiciosas quanto ao seu futuro académico e profissional
“Os resultados mostram que não são apenas as condições económicas objetivas que influenciam as crianças, mas também a forma como percecionam a sua posição social. Quando os alunos se sentem em desvantagem face aos colegas ou experienciam discriminação, isso pode ter impacto na sua experiência escolar e nas expectativas que constroem em relação ao futuro”, explicam os autores do estudo.
Discriminação socioeconómica entre alunos
Embora a maioria dos alunos indique não ter experienciado discriminação por motivos socioeconómicos, aproximadamente 1 em cada 10 relata níveis elevados de discriminação, sobretudo relacionados com a forma de falar, a roupa ou a falta de bens considerados socialmente valorizados. Estas experiências contribuem para reforçar a perceção de desigualdade entre os estudantes e podem ter efeitos negativos no seu bem-estar emocional.
Impacto no bem-estar e nas aspirações de futuro
Os resultados do estudo mostram uma relação clara entre a perceção de estatuto socioeconómico, a discriminação percebida e as expectativas de futuro.
Os alunos que se percecionam numa posição socioeconómica inferior:
+reportam níveis mais baixos de bem-estar;
+têm maior probabilidade de sentir discriminação por parte dos colegas;
+revelam aspirações académicas e profissionais mais modestas.
Segundo os investigadores, estes resultados sugerem que as desigualdades socioeconómicas podem influenciar não apenas as oportunidades reais das crianças, mas também a forma como estas percecionam o seu próprio potencial e as possibilidades de mobilidade social.
Um fenómeno com implicações sociais relevantes
Compreender a forma como as crianças percebem as desigualdades sociais é essencial para promover ambientes escolares mais inclusivos. Os investigadores sublinham que reduzir estigmas associados à condição socioeconómica e reforçar práticas educativas inclusivas pode contribuir para melhorar o bem-estar das crianças e para que estas desenvolvam aspirações académicas e profissionais mais ambiciosas.
Sobre o estudo
O estudo “Implicações da perceção de desigualdades socioeconómicas no bem-estar das crianças e nas suas aspirações” foi desenvolvido no âmbito do Observatório Social da Fundação ”la Caixa”, no contexto do concurso dedicado à vulnerabilidade na infância, que apoia projetos de investigação sobre infância e desigualdades sociais. Analisa a relação entre a perceção de estatuto socioeconómico entre pares, experiências de discriminação, níveis de bem-estar e aspirações académicas e profissionais entre crianças e adolescentes.
Os dados foram recolhidos através de um inquérito online realizado entre fevereiro e dezembro de 2024 a crianças e adolescentes residentes em Portugal. A amostra foi construída para garantir representatividade nacional e incluiu alunos de escolas públicas, privadas e de Territórios Educativos de Intervenção Prioritária (TEIP), distribuídas pelas sete regiões estatísticas NUTS II.
