Perto de uma centena de estudantes de Arqueologia da Universidade do Minho fez este verão trabalhos de campo em Alfândega da Fé, Arcos de Valdevez, Braga, Vila Velha de Ródão e, na Galiza, em Pontevedra, Vigo, Ourense e León. Da licenciatura ao doutoramento, os alunos pesquisaram vestígios de várias épocas e reforçaram a formação em contexto real, através de estágios supervisionados e apoiados pelos municípios, que esperam também potenciar o património local.
Este tipo de intervenções ocorre a cada verão, dura cerca de um mês e este ano teve o recorde de oito concelhos envolvidos. Os estágios curriculares da UMinho são da responsabilidade do Departamento de História do Instituto de Ciências Sociais, em parceria com as diferentes autarquias, a Unidade de Arqueologia e o Laboratório de Paisagens, Património e Território (Lab2PT). A nível extracurricular, participaram ainda professores e alunos visitantes das universidades Rovira i Virgili (Espanha) e Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS, Brasil).
Recuando à Pré-História, em Alfandega da Fé, distrito de Bragança, detetou-se arte rupestre em Eucísia, Gouveia e Valverde, como sois com 6000 anos gravados na rocha Olival do Soldado e motivos em “u” posteriores na Fraga da Ferradura. Sob orientação de Hugo Sampaio, Ana Bettencourt e Pedro Vaz, fez-se a limpeza, recolha material e captura 3D, com vista à divulgação.
A 1.ª Escola de Arqueologia de Vila Velha de Ródão, distrito de Castelo Branco, juntou 14 alunos e o docente Telmo Pereira, coautor da exposição local sobre a vinda e extinção dos neandertais. O programa incidiu na ribeira do Açafal (importante sitio para o Paleolítico europeu) e teve apoio do Centro de Interpretação de Arte Rupestre do Tejo e da Associação de Estudos do Alto Tejo.
Mais a Norte, em Braga, analisou-se a organização das estruturas desde Bracara Augusta até à Braga Moderna. A Colina da Cividade foi o ponto de partida, sendo estudada pela UMinho desde os anos 70 e que inclui um teatro e umas termas romanas. Fernanda Magalhães e Maria do Carmo Ribeiro aliaram uma escola de verão de cultura, património e território, com colegas do Lab2PT, CECS, CIEC e da UFMS e com crianças de Vila Verde a estrear-se na arqueologia.
Nos Arcos de Valdevez, distrito de Viana do Castelo, avalia-se desde 2018 a paisagem do Extremo, que inclui três fortes do século XVII. Desta vez juntou-se um curso intensivo (living lab) por Rebeca Blanco-Rotea e Cidália Silva sobre aspetos ambientais, agrícolas, arquitetónicos e culturais. O tema atrai cientistas europeus e tem fundos Erasmus+, Interreg, Arqus e Xunta da Galicia, entre outros.
Várias épocas históricas em estudo
Em As Torres (Tomiño, Pontevedra), junto ao rio Minho, a equipa coliderada por Rebeca Blanco-Rotea incluiu até jovens voluntários do Mediterrâneo e Américas. Encontrou-se uma mina romana reutilizada, onde se erigiu uma torre na Baixa Idade Média e dois fortes na Guerra da Restauração entre Portugal e Castela. Achou-se ainda 700 objetos, desde cerâmicos, metálicos, líticos e lúdicos.
Os alunos da UMinho foram também com Celtia Rodríguez-González, Rebeca Blanco-Rotea e Carlos Tejerizo a Casaio (Carballeda de Valdeorras, Ourense), a par de colegas da Universidade de Santiago de Compostela (USC) e da Universidade de Salamanca, para detalhar a ocupação tardo-romana e da Alta Idade Média. Fez-se intercâmbio de metodologias, registo estratigráfico, tratamento de materiais, interpretação histórica, diálogos com a comunidade e visitas guiadas.
Em Armea (Allariz, Ourense), os estudantes foram orientados por Adolfo Fernández, da Universidade de Vigo, participando nas escavações e no tratamento dos materiais. O importante conjunto arqueológico inclui o Monte do Señoriño, a Cibdá de Armea, o Forno da Santa e a basílica inacabada da Assunção. Na Cibdá revelou-se agora habitações ao longo de uma rua empedrada e uma construção circular no extremo norte, confirmando a ocupação daquele povoado castrejo na época romana.
Em parceria com a Universidade de Léon e supervisionados por Raquel Martínez Peñin e Carlos Fernández Rodríguez, os alunos da UMinho integraram igualmente a equipa que pesquisa no “Castro de los Judíos” (Puente Castro, León). O projeto é de extrema relevância para a compreensão das dinâmicas socioculturais e económicas entre as comunidades judaicas minoritárias e os núcleos urbanos de matriz maioritariamente cristã durante a Idade Média.
A diretora da licenciatura em Arqueologia da UMinho, Fernanda Magalhães, salienta que estão a ser preparadas novas colaborações com municípios em Portugal e parcerias com universidades espanholas e brasileiras, para expandir a prática de campo dos alunos e a internacionalização. A iniciativa visa alargar a oferta de oportunidades, aprofundar o conhecimento interdisciplinar, enriquecer a experiência académica e capacitar os futuros profissionais através do contacto com contextos arqueológicos à escala global.
