Há festas que se fazem de luzes, música e multidões. E há outras que se constroem de algo mais profundo: de memória, de pertença, de fé e de gratidão. O Samiguel de Cabaços, em Ponte de Lima, pertence a estas últimas.
“Mais do que celebrar o seu Padroeiro, São Miguel Arcanjo, Cabaços procura, todos os anos, reencontrar nas suas raízes aquilo que durante séculos deu forma à vida das suas gentes: a terra, o trabalho, a fé, a entreajuda, a família e a comunidade”, começa por referir o pároco Paulo Emanuel.
E talvez não seja por acaso que esta festa acontece em setembro.
No dia 1 de setembro, a Igreja assinala o Dia Mundial de Oração pelo Cuidado da Criação, dando início ao chamado Tempo da Criação, que se prolonga até 4 de outubro, dia de São Francisco de Assis. “É um tempo que convida os cristãos a olhar de novo para a terra, para os animais, para as plantas, para a água, para aquilo que nasce, cresce e dá fruto, reconhecendo em toda a Criação um dom recebido e confiado às mãos do ser humano”.
É precisamente neste tempo que Cabaços celebra o seu Samiguel. E celebra-o regressando à terra.
Regressa-se aos campos para cortar o milho. Voltam os cestos, as espigas, as concertinas e os cantares. Volta a grande desfolhada, com os mais novos e os mais velhos sentados lado a lado, repetindo gestos que atravessaram gerações. Procura-se o milho-rei, ri-se, canta-se, ata-se a palha e faz-se a moreia. No final, como tantas vezes acontecia antigamente, chega a ceia para quem trabalhou.

Dias depois, voltam a pegar-se nos cestos para a vindima. Recorda-se que, antes de chegar o fruto, houve quem podasse, sulfatasse, amparasse a vinha, limpasse as ervas e cuidasse dos cachos. E, quando finalmente chegam as uvas, elas são pisadas no lagar, numa lagarada à moda antiga, onde o vinho nasce, uma vez mais, do encontro entre o fruto da terra e o trabalho das mãos humanas.
“É esta talvez uma das imagens mais belas da festa”, acrescenta o padre. “Porque aquilo que chega à mesa não nasce na prateleira de uma loja. Antes do pão houve a semente. Antes do vinho houve a videira. Antes da espiga houve a terra preparada, o milho semeado, a chuva esperada, o sol desejado e muitas horas de trabalho silencioso”.
O Samiguel recorda-nos isso.
“Recorda-nos aqueles homens e mulheres que conheciam o tempo não pelas horas do relógio, mas pelas estações do ano. Que sabiam quando semear, quando mondar, quando colher e quando agradecer. Gente para quem a natureza não era cenário, mas sustento; não era decoração, mas companheira de todos os dias”.
Por isso, no domingo, os camponeses voltam simbolicamente ao adro com o Cortejo das Primícias. Levam consigo os primeiros e melhores frutos do seu trabalho e oferecem-nos à comunidade. “Não se trata apenas de mostrar aquilo que a terra produziu. Trata-se de reconhecer que ninguém é verdadeiramente dono de tudo aquilo que recebe”.
“A terra dá, o homem trabalha, Deus abençoa — e a comunidade agradece”, finaliza o padre Paulo Emanuel.
