Curiosidades

Cativeiro não salva palanca-negra

Um novo estudo publicado na revista iScience por investigadores do Centro de Investigação em Biodiversidade e Recursos Genéticos (CIBIO-BIOPOLIS), da Universidade do Porto, revela que milhares de palancas-negras mantidas em propriedades privadas na África do Sul preservam apenas uma pequena parte da diversidade genética natural da espécie.

A palanca-negra (Hippotragus niger) é um dos grandes mamíferos mais emblemáticos de África, com elevado valor económico na indústria da fauna selvagem para fins de reprodução e de caça. Embora a espécie possua o estatuto de conservação “Pouco Preocupante” pela União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN), várias populações selvagens têm registado declínios preocupantes.

Em contraste, o número de animais em propriedades privadas sul-africanas aumentou substancialmente nas últimas décadas devido ao forte interesse comercial.

Para avaliar o potencial contributo desta crescente população em cativeiro para a conservação da espécie, a equipa internacional analisou e comparou os perfis genéticos de mais de 7.000 animais provenientes de 358 propriedades privadas com os cinco grupos genéticos selvagens conhecidos.

Os resultados destacam a necessidade de integrar dados genéticos nas avaliações de conservação:

*Apenas duas das cinco ancestralidades selvagens conhecidas (Zambiana e do Sul) estão representadas por animais mantidos em propriedades privadas.

*Cerca de 75% dos animais analisados apresentam uma mistura genética entre as duas ancestralidades representadas.

*Dos animais sem sinais de mistura, aproximadamente 22% do total analisado apresentam apenas ancestralidade zambiana.

*Apenas cerca de 3% dos animais revelaram ter ancestralidade exclusivamente sul-africana, precisamente o grupo que ocorre naturalmente na África do Sul.

*Apesar deste desequilíbrio, os animais cativos conseguem manter níveis de diversidade genética semelhantes aos das respetivas populações selvagens.

“O resultado mais surpreendente foi percebermos que uma população tão numerosa representa apenas duas das cinco ancestralidades genéticas que conhecemos na natureza”, explica Mariana Meneses-Ribeiro, primeira autora do estudo e aluna do Programa Doutoral em Biodiversidade, Genética e Evolução da Faculdade de Ciências da Universidade do Porto, a desenvolver trabalho no CIBIO-BIOPOLIS. “É particularmente preocupante que apenas cerca de 3% dos animais analisados apresentem exclusivamente ancestralidade do Sul, precisamente o grupo que ocorre naturalmente na África do Sul e no qual têm sido documentados importantes declínios populacionais”, acrescenta a autora.

“Ter milhares de animais em propriedades privadas, geridos para fins distintos da conservação, não garante, por si só, a conservação de uma espécie”, sublinha Raquel Godinho, investigadora do CIBIO-BIOPOLIS e autora sénior do estudo. “Estas populações podem representar uma oportunidade importante para ações de conservação, mas é essencial conhecer a diversidade genética que preservam e avaliar se a ancestralidade dos indivíduos é adequada à população que se pretende conservar”, acrescenta a investigadora.

Deixe um comentário