Vila Verde

Luís Gonçalves Ferreira e o gosto tardio pela História que lhe deu um prémio (com vídeo)

O vilaverdense Luís Gonçalves Ferreira, estudante de doutoramento da Universidade do Minho, venceu o Prémio Lusitania História, da Academia Portuguesa da História, por um estudo que mostra como a roupa doada pelas misericórdias reconhecia as diferenças entre os pobres nos séculos XVII e XVIII.

Luís Gonçalves Ferreira concorreu com a sua dissertação de mestrado em História pela UMinho, “Vestidos de caridade: assistência, pobreza e indumentária na Idade Moderna”, editada em livro pela Misericórdia de Braga e pela Húmus.
Nascido em Cervães, Luís fez a escola primária em Cabanelas, depois andou pela EB 2/3 no segundo e terceiro ciclos terminando os estudos na Secundária de Vila Verde.

“O meu percurso escolar foi muito conturbado. Tive uma escola primária complicada e até ao sétimo andei aos tropeções com a escola. Chumbei no 7º, curiosamente, com negativa a História e a Português”, recorda Luís.
Mas no 8º e 9º anos, as coisas mudaram: “tive professores de História excecionais que pelas suas metodologias me ensinaram a gostar da disciplina e impulsionaram um gosto, que já tinha mas que estava adormecido”.

Cresceu no meio da História
Luís Gonçalves, por tradição familiar, diz que cresceu no meio da História: “a minha mãe aluga roupas de indumentária histórica, tem esse gosto e ia fazendo as réplicas conforme iam surgindo as encomendas, e eu nasci, cresci e fiz-me pessoa no meio dessas roupas”.

Recuando um pouco: no 8º ano recorda a professora Ana Paula Covas e no nono um professor “excecional que me deu uma pasta de chocolate porque eu acertei uma pergunta de cultura geral”. São esses dois momentos que espoletaram o gosto e fizeram querer estudar. “Depois foi sempre uma soma do ponto de vista quantitativo e quando cheguei ao 12º ano tive uma excelente nota, mas decidi não seguir esse gosto logo”.

Direito primeiro que História
“Eu tinha uma excelente média e optei por ir para Direito, como todas as pessoas das Humanidades, e lá fui eu enganado mais uma vez. Fiz três anos de formação completa em Direito na UMinho, ainda estive um ano na Católica no Porto achando eu que o problema era o sítio, uma coisa muito adolescente quando se acha que é o sítio e não a pessoa. Depois parei, fui trabalhar com o meu pai que tem uma empresa de materiais de construção, na área do secretariado, o que me permitia pagar as contas já que tinha decidido sair da casa dos meus pais”, conta ainda.

Depois de uns aconselhamentos profissionais, e sem saber ainda muito bem o que queria fazer, decide voltar a inscrever-se na Universidade, “já fora de tempo, chego aos serviços académicos e havia uma vaga em História”.

Tinha 24 anos quando voltou à UMinho. “Entrei com aquela perspetiva de que vou estudar uma coisa que eu gosto, que vai acrescentar valor para o trabalho que possa ter com a minha mãe, quer nas procissões quer na roupa histórica, portanto aprender História para qualificar o trabalho”.

Certeza do caminho
A aprovação no curso só se dá em novembro e a primeira aula que assiste é de Civilizações Antigas. “Sou informado pelos meus colegas que havia um teste na semana seguinte, tinha pouco tempo de estudo, mas consegui a segunda melhor nota da turma”.

Foi o primeiro momento em que pensou “ter aptidão para estudar aquelas matérias, continuando sempre a trabalhar”.

Ia com “expetativas pouco elevadas”, mas as médias deram bolsas de mérito e de excelência por parte da Universidade e “isso começa a falar mais alto. Eu ia para a biblioteca horas a fio e o tempo não passava por mim, ficava ótimo, nada cansado”.

Mestrado
O tema de mestrado surge porque “é uma área de que gosto. A história da roupa, da indumentária é muitíssimo pouco estudada. O que existe é na História da Arte e eu perguntava muito se o atraso derivava da falta de fontes, ou seja, não havia forma de trabalhar isto ou simplesmente esse atraso era fruto da própria História”.

Afinal o problema era de abordagem. Os conhecimentos práticos que já tinha, saber que é um veludo, um cetim, como se faz uma indumentária, poderia fazer com que se tornasse “um investigador melhor e mais capaz”.

E já que ia fazer uma tese de mestrado “onde ia ficar muito tempo em prática laboratorial ou em arquivo achei que devia fazer uma coisa que fizesse sentido, até para ter uma motivação extra por estar a fazer aquilo que gosto”.

Por outro lado, continuou a trabalhar com a mãe e só deixou há pouco tempo para se dedicar ao doutoramento, “uma maneira que tinha para ajustar horários para a História e para ajudar a minha mãe que, nos momentos mais confusos, me ajudou”.

Doutoramento
Atualmente, Luís dá seguimento à sua linha de investigação na área da roupa, num doutoramento com financiamento público. “É um processo de grande agonia interior, de grande descoberta não só sobre o tema, mas também sobre a pessoa, sobretudo, sobre o seu pensamento”.

Defende o financiamento público porque “as Humanidades não são rentáveis”.

“Um doutoramento é um projeto pessoal que se confunde com vaidade e tem alguma coisa de vaidade, de autoconstrução, de projeto de vida, mas tem uma componente que tenho muito presente de serviço público, de estar ao serviço do cidadão”.

Para Luís Gonçalves, “quando vou investigar uma área como é a da roupa, que tem uma série de relações com a nossa vida, com o nosso quotidiano, com a construção do género, com temas profundos da nossa vida em sociedade, também quero produzir impacto, que seja útil e que não sirva só esse projeto de vaidade”.

Inovação
O seu estudo é duplamente inovador, ao abordar a indumentária dos pobres (em vez das habituais elites) e a prática de esmola aos pobres, provando que as Santas Casas da Misericórdia acentuaram a identificação de subescalas de pobres, percetíveis pelo tipo de roupa, sapatos, objetos domésticos, alimentos, guarida, valores, salários e emprego que lhes doavam. Por exemplo, notava-se que viúvas, órfãos e padres vestiam-se melhor do que mendigos e delinquentes, os quais apresentavam roupa esfarrapada. Aliás, até o tipo de mortalha doado no funeral ‘comunicava’ a situação do pobre.

Luís Gonçalves Ferreira centrou o seu mestrado no caso de Braga, mas encontrou muitos indícios de um cenário idêntico pelo reino, nomeadamente em cidades como Lisboa e Porto, que está a aprofundar na sua tese doutoral.

Tese sobre Vestidos de Caridade
“Esta ideia surgiu depois de um diálogo com a pessoa que orientou a tese de mestrado. Foi muito claro para mim quem seria a minha orientadora científica, neste caso a professora Marta Lobo de Araújo, que trabalha nestas áreas da assistência, da caridade. No âmbito dos trabalhos dela, o tema da roupa ia surgindo como uma lateralidade e não como um tema ‘per se’.

Eu queria investigar roupa, mas não das elites e dos ricos porque tem uma enorme complexidade e cheguei ao tema com esta interseção entre roupa e caridade. O título da tese de mestrado é ‘Estavas nu e vestiste-me. Indumentária, pobreza e poder nas Santas Casas’.

Decidi que ‘Vestidos de Caridade’ era um título mais interessante porque as pessoas vestiam essa virtude, como se elas personificassem essa virtude que era a caridade, porque a caridade é a ação, é o que justifica a ação dos ricos, mas também como se o próprio tecido fosse feito não só da sua composição mecânica, da sua matéria prima, mas tivesse esse lado metafórico, simbólico e material que está por detrás dessas dádivas.

O objetivo destes ‘Vestidos de Caridade’ era, de uma forma mais poética, destapar o conteúdo dessas esmolas. O que eu trabalhei no caso da Santa Casa da Misericórdia de Braga foram 100 anos de forma sistemática através de uma amostra referente a essas práticas, isto é, analisar como eram dadas as esmolas, quando, como; quais os meses em que eram dadas, se obedecia a alguma prática de cariz ordinário ou extraordinário, e depois tentar perceber o que eram exatamente essas roupas, quais são as tipologias, de que são feitas, se são novas se são velhas, se são mais mulheres ou homens, tendo em conta que entre 1600 e 1800, o símbolo é de capital importância na sociedade desta época.

Os símbolos que estas pessoas transportavam descodificavam a sociedade, diziam ao outro quem é que elas eram, qual é o seu estrato social, são roupas dadas de ricos para pobres ou seja, não são as pessoas que escolhem aquelas roupas, são escolhidas por outras pessoas, que lhes dão porque elas pedem, é um consumo involuntário e por isso que quem constrói a identidade não é quem usa a roupa, mas quem dá a roupa.

O nosso corpo é em si um instrumento de poder e uma síntese de relações de poder. E isto ainda hoje é verdade. A mim, interessa-me mais como historiador, as permanências, aquilo que se manteve igual, apesar de poderem ter nomes diferentes.

Este mundo do século XVI, XVII, XVIII desapareceu da nossa vista nas atuais sociedades civilizadas, desenvolvidas, mas este mundo continua a existir no mundo contemporâneo em que nós vivemos ainda que em outras geografias.

Começar a pensar e a estudar o tema foi uma grande surpresa porque eu estava com poucas luzes e achava que ia investigar a roupa dos pobres. Quando comecei a trabalhar os dados e a ler as fontes, comecei a perceber que não estava a trabalhar a roupa dos pobres, mas uma lente sobre os pobres. Isso intrigou-me e levou àquilo que estou a estudar agora no doutoramento: compreender a realidade material dos pobres, o que é que eles efetivamente tinham, nomeadamente os doentes que eram miseráveis e a roupa estava em tal estado que nem se conseguia perceber de que material era feita”.

Prémio
A Academia Portuguesa da História lançou o habitual concurso anual avaliado por um júri. Luís enviou a tese “com muito descrédito até porque tenho como máxima na minha vida: o ‘não’ está garantido”. Tinha a noção que só se ganha um prémio destes não no início da carreira, mas quando se está muito para lá. Ainda assim decidiu tentar.

Quando recebeu o e-mail a dizer que tinha vencido, “primeiro fiquei de todas as cores e depois a processar durante muito tempo. É um prémio muito importante para minha carreira, para mim enquanto pessoa, mas também é um sinal de que o trabalho é bom e pertinente do ponto de vista historiográfico. Acrescenta muita responsabilidade, há mais olhos postos e expetativas elevadas, eu vou continuar a trabalhar de forma honesta, com rigor”.

[arve url=”https://youtu.be/zjqTatXMPe0″ loop=”no” muted=”no” /]

Deixe um comentário