Vão chegando aos poucos à sede do grupo columbófilo de Amares, sediada em Rendufe. Trazem caixotes com dezenas de pombos para o encestamento. Uma antena regista o número e o chip da ave onde consta o registo da hora e lhe é atribuído um código. Cada columbófilo entrega 25 pombos que participam para o columbófilo e até 130 para o pombo ‘ás’. Há três tipos de provas: velocidade (distância até 300 quilómetros), meio fundo (300/500km) e fundo (500 ou mais quilómetros).
Depois de encestados na sede em Rendufe, os animais são levados para a Associação Distrital em Braga onde são colocados num camião que, depois, vai percorrendo o resto do distrito recolhendo os pombos de outras coletividades O motorista e o delegado de solta dirigem-se depois para os locais da prova, espalhados por vários pontos do país.
Na hora combinada e num sítio específico, os pombos são largados. Dependendo do tipo de prova podem demorar entre 2,5 horas a 10 horas até ‘aterrarem’ no pombal. Em cada pombal, há sistema informático onde o pombo passa por cima de uma antena que lê o chip na pata do pombo registando as horas, minutos e segundos que o animal demorou a fazer o percurso.
A coletividade amarense, uma das melhores a nível distrital em termos de resultados, tem mais de 40 associados dos quais 31 concorrem nas provas a que se juntam mais três equipas ‘B’, a grande maioria do concelho, mas, também, de freguesias limítrofes como Soutelo, Loureira, Prado já em Vila Verde.

As provas decorrem entre fevereiro e finais de junho, com os pontos de partida a serem variáveis: Bombarral, Fazendas de Almeirim, Santa Margarida do Sado, Ourique e Odemira foram os primeiros locais a receberem as largadas dos pombos, provas que tiveram três vencedores diferentes.
Mistério
Um dos grandes mistérios é o sentido de orientação dos pombos. Paulo Brito, vice-presidente da coletividade e o explicador da arte da columbofilia ao ‘Terras do Homem’, revela que “há muitas teorias sobre a forma como se orientam os pombos. Há quem fale nos campos magnéticos, a mais consensual, o sol ou mesmo uma capacidade de orientação fora de vulgar destas aves”.
Pertencente à equipa ‘Dragon Force’, Paulo Brito explica que “os pombos fazem treino diário à volta do pombal duas vezes por dia” e que “há muitos cuidados a ter, desde condições nos pombais, até à alimentação com reforço em vitaminas, aminoácidos e ferro”. A questão das doenças, também, é importante: “podem-se lesionar durante uma prova, seja nos cabos elétricos seja por ataque de uma ave de rapina. Temos também bebedouros com um conjunto de produtos para prevenir que possam ficar doentes”.
Pombais
Visitar um pombal permite conhecer melhor o ‘mundo’ e a realidade diária da columbofilia. Normalmente, estão divididos em três partes: uma para machos, outra para fêmeas e uma terceira para os chamados ‘borrachos’, os pombos com um ano ou menos que treinam, e normalmente, na segunda fase da campanha já entram em competição, sendo que alguns columbófilos os utilizam no início do calendário de provas.
A alimentação é rigorosa, em divisões próprias, bem como os bebedouros distribuídos pelos diferentes espaços. Por norma, o macho é mais ‘entroncado’ do que a fêmea, o que permite mais facilmente a sua distinção.
O acasalamento, sempre que possível é programado, para evitar que as fêmeas ponham ovos durante a época desportiva, que arranca sempre depois da época da caça. “Há quem diga que a fêmea no choco voa mais rápido «, mas nós nunca testámos porque se corre o risco de a pomba o pôr dia da prova e mesmo durante a prova, terá tendência para o pôr num qualquer sítio”, revela Paulo Brito. O sistema pelo qual a maioria dos columbófilos opta é o sistema ‘viuvez’.
Outra particularidade que se vê no lado feminino dos pombais é o chão. Por norma, está coberto com estruturas de ferro rugosas: “na altura, do acasalamento, as fêmeas podem-se roçar umas nas outras e isso, é prejudicial. Por isso, colocam-se essas estruturas que evitam que haja contato entre elas”.
Nos dias das provas, há vários rituais: há quem não deixe ninguém nos pombais enquanto não são encestados “para, dizem, não stressar os pombos” e há quem, em sentido contrário, aproveite para lhes dar banho, colocar uma música e deixar outras pessoas entrar. “Isto é como tratar um animal doméstico, depende daquilo a que foram habituados”, acrescenta Paulo Brito.
Mário Pereira – Cuidador José Costa
Vencedor em Fazendas de Almeirim – Prova de Velocidade – Pombo 9476984/2019 com 3h15:42 e participaram 1562 pombos
José Costa anda nisto dos pombos há 20 anos. No entanto, por motivos profissionais interrompeu a atividade. Há cerca de meia dúzia de anos regressou como cuidador do pombal de Mário Pereira na freguesia de Rendufe.
“Sou eu que faço tudo, desde o tratamento até à alimentação. Venho aqui duas horas de manhã e duas horas de tarde”. Recorda que “em casa havia pombos, o meu irmão envolveu-se nas provas, eu comecei a colaborar com ele e foi-se prolongado o gosto”. Reconhecendo que o campeonato “é muito competitivo”, tem, pelo menos a esperança de fazer igual ao ano passado onde conquistou três primeiros lugares.
Daniel Soares e Paulo Brito – Equipa Dragon Force
Vencedora em Santa Margarida do Sado – Prova de Meio Fundo – Pombo 0337179/2020 com 5h04:36 participaram 1492 pombos
Daniel e Paulo uniram esforços e juntaram os seus pombos. Daniel fica encarregado de tratar das aves: “são quatro horas por dia que dedico aos pombos, mas tendo um pouco mais de tempo, podem ir às sete horas”. Acorda cedo e chega ao trabalho em cima do horário “para deixar tudo pronto”. À tarde “tenho mais tempo”, mas reconhece que “todo o tempo livre que tenho dedico aos pombos”.
Foi por influência do que viria a ser o sogro e do pai que Daniel ganhou o gosto pelos pombos: “ia aos pombais ver a chegada dos pombos depois das provas. Depois deram-me um casal de pombos e o ‘bichinho’ começou a crescer”.
“É todo por carolice”, reconhece a dupla Dragon Force que vai estando atenta às novidades seja em termos de alimentação seja sobre os próprios pombos.
Abel Lopes e Sporting Pigeon
Vencedores no Bombarral e em Ourique em velocidade e meio fundo, respetivamente – Pombo 0368879/2020 em 3h43:42 participaram 1511, em Ourique com o pombo 0241959/2020 em 4h43:30 participaram 1356 e em Odemira, também, em meio fundo ganhou o pombo 0368672/2020 em 5h38:41 participaram 1373
Abel Lopes é o atual presidente da coletividade de Amares. A chegada à sua casa, em Rendufe, é um deslumbre. Os pombais marcam logo os olhos de quem entra. Parecem minis casas de turismo rural. “Desde os 14 anos que ando à volta dos pombos”, sobretudo, “porque na altura não havia muito para fazer e tínhamos um vizinho columbófilo onde íamos ver chegar os pombos. Divertíamos imenso”.
Com cerca de 600 pombos, “dão muito trabalho e muita despesa”, Abel tem a ajuda do cuidador Manuel Puga. “Isto é um vício”, reconhece o presidente da coletividade que tem 31 associados e três equipas, 75% dos quais do concelho de Amares.
“As nossas principais dificuldades estão ligadas à logística na preparação da campanha, envolve a limpeza todas as semanas, a preparação para as provas, nada pode falhar porque se corre o risco de perder uma prova, caso falta alguma coisa”, refere ao ‘Terras do Homem’.
Para além da campanha desportiva, a coletividade organiza a entrega de prémios e coordena toda a parte administrativa, bastante morosa. Há, ainda, custos com eletricidade. Os associados, para além de uma quota anual, pagam a inscrição dos pombos para as provas, parte para o transporte e outra parte para a coletividade.
Obras na sede
A pandemia veio atrasar o grande projeto da atual direção: finalizar as obras na sede do clube. “Estamos com um projeto de finalização das obras na parte superior do edifício, mas a pandemia trouxe um problema acrescido: a falta de mão de obra”, revela Abel Lopes. A ideia é também fazer toda a impermeabilização do edifício e pintá-lo por fora.
O dinheiro para a obra está garantido: “temos dinheiro para acabar com as obras. Em 2021, fizemos um leilão de borrachos que correu muito bem e deu-nos alguma folga financeira. O problema mesmo é a disponibilidade de empreiteiros para realizar a obra” que o presidente espera ter concluídas até setembro deste ano, no final de mandato.
O leilão de borrachos juntou, por convite, os melhores columbófilos do país, que entregam aves para serem leiloadas: “tivemos 140 borrachos a leilão, o que foi muito bom”, com cerca de 140 pessoas a assistir. Abel Lopes reconhece que uma das caraterísticas deste desporto em relação a outras é a confraternização: “para além da vertente desportiva, o que faz com que este desporto seja diferente é o convívio entre todos”.
Uma palavra para a câmara de Amares que “tem vindo a apoiar a coletividade ao longo dos anos: para além de verbas, cede-nos, muitas vezes, materiais para fazermos pequenas obras”.
