É notícia, com algum destaque – depois do fim-de-semana futebolístico e suas habituais querelas arbitrais libertarem espaço para as outras modalidades – que um nadador português conquistou três medalhas de ouro e é recordista mundial de juniores. Coincidentemente, na passada semana, voltou a ser transmitido pelo RTP 3 um programa em que se fala das vicissitudes pelas quais passam os atletas no Desporto de Alto Rendimento (DAR) no nosso país. No referido programa alguns falam sobre as lutas que trava(ra)m para chegar ao topo da pirâmide desportiva na sua modalidade. Patrícia Mamona, um dos expoentes máximos do triplo salto mundial, diz-nos que iniciou o seu périplo no desporto escolar. Além do seu passado/presente, alerta sobre o que é necessário para chegar ao topo, fazendo-o de uma forma tão simples mas tão intensa que deveria ser ouvida e apreendida por todas as crianças e jovens que aspiram a uma carreira no DAR. Diz ela: “O talento (eu diria, potencial) consegue-te guiar para o desporto que vais fazer. Depois, nessa área, todos têm talento e quem se distingue é quem trabalha mais, quem trabalha melhor, quem tem paciência. Já faço atletismo há 20 anos e só agora cheguei à medalha olímpica.”
Quantos atletas conseguem uma carreira de 20 ou mais anos, pergunto eu. Apenas os mais resilientes.
Também entrevistam atletas de natação, de ginástica artística e acrobática e todos falam das dificuldades que é necessário superar para, num país futebolístico, arcar (familiarmente) com as responsabilidades financeiras quase plenas, recebendo apenas apoios quando já apresentam resultados no DAR. Com estas condições (ou falta delas, melhor dizendo) que potência não seríamos, se houvesse uma aposta séria e coerente numa prática desportiva massiva a partir da base da pirâmide – no 1º ciclo, onde as crianças têm UMA HORA DE ATIVIDADE FÍSICA SEMANAL. Ouvimos, também a esse respeito, o Presidente do Comité Olímpico dizer que em termos de OE o setor da cultura (e muito bem) reclama 1% enquanto o desporto tem apenas 0,05%.
É por tudo isto que em fase de abertura de um novo ano escolar os professores de educação física se preparam para receber crianças e jovens com competências motoras que não condizem com o mínimo solicitado nos programas da disciplina e vamos dar os habituais passos atrás para ninguém se atrasar mais. Enquanto isso, os atletas do DAR vão iniciar (ou continuar) mais um ano de sacrifícios pessoais, financeiros e familiares porque sonham com Paris 2024 e os mínimos para integrar a Elite Mundial terão de ser conquistados a partir de agora com trabalho diário e abnegado. Depois, conseguindo-o, sabem que têm a “obrigação”, criada pelos órgãos de comunicação que só nessas alturas os (re)conhecem, de conquistar medalhas para receberem os parabéns das altas instâncias políticas de um País que assim, faz de conta que aposta no desporto.
Carlos Mangas [Professor de Educação Física]
