Vitor Patrício Ribeiro é o vereador do Ambiente na câmara de Amares. Numa entrevista exclusiva ao ‘Terras do Homem’ desvenda alguns caminhos ‘ambientais’ que o concelho vai tomar nos próximos anos e lembra que “durante muitas décadas pouco se fez para colocar o ambiente na agenda do dia, tendo-se piorado a qualidade do ar, os territórios estavam de costas voltadas para os rios, pouco se investia na melhoria da qualidade dos serviços básicos como a água, saneamento ou recolha do lixo, a mobilidade esteve centrada no automóvel, as florestas eram vistas como um encargo. Hoje estamos a pagar essa fatura”.
Que balanço é possível fazer sobre a evolução ambiental no concelho de Amares nos últimos anos?
O ambiente é um chavão muitas vezes usado e poucas vezes aplicado. De fato diz respeito a tudo aquilo que nos rodeia e que nos influencia enquanto seres humanos. As nossas ações têm vindo a afetar negativamente o ambiente ao longo dos tempos. Tem havido um esforço conjunto de melhorar o ambiente em muitos territórios. Amares entrou no mapa nacional com a implementação de boas práticas que têm recebido reconhecimento nacional. A maioria dos amarenses já perceberam isso.
Que passos ainda são precisos dar para que o ambiente assuma um papel mais preponderante no concelho?
Durante muitas décadas pouco se fez para colocar o ambiente na agenda do dia, tendo-se piorado a qualidade do ar, os territórios estavam de costas voltadas para os rios, pouco se investia na melhoria da qualidade dos serviços básicos como a água, saneamento ou recolha do lixo, a mobilidade esteve centrada no automóvel, as florestas eram vistas como um encargo.
Hoje estamos a pagar essa fatura, mas felizmente as coisas estão a mudar. Sentimos que as novas gerações já têm outra perceção e atitude. Em Amares já demos passos muito positivos e, em alguns casos, somos um exemplo em Portugal.
Ainda há muito para fazer e temos vários projetos em carteira. A boa notícia é que o próximo quadro comunitário será centrado no ambiente e por isso só os municípios com uma linha bem definida nesta matéria poderão captar fundos comunitários. Amares não pode perder essa oportunidade.
São os projetos ambientais já existentes no concelho alavancas para trazer mais pessoas para o território? De que forma?
O espaço é curto para mencionarmos o muito que já fizemos nos últimos anos. Na mobilidade estamos a concluir a primeira rede ciclável do concelho. Nos Transportes públicos durante os últimos anos fomos dos poucos concelhos da região a apoiar mensalmente 75% o valor dos passes dos idosos, 50% à população adulta e a totalidade dos passes escolares. Quem se desloca diariamente em transportes públicos sente no fim do mês este apoio. Apesar da gestão da rede ser agora da Autoridade Intermunicipal de transportes, na CIM Cávado, conseguimos aumentar a cobertura da rede e a frequência dos autocarros. Não deixamos nenhuma freguesia fora desta rede. Neste momento temos um serviço mais moderno, mais barato e a servir mais pessoas. Melhoramos as vias de circulação como são o caso da de Vilela – Seramil e a via que liga Ferreiros a Lago por Barreiros.
A Urjalândia – Aldeia de Natal Sustentável é um evento ambiental único em Portugal. Atrai muitos milhares de visitantes e o investimento é muito reduzido. Para além de promover o ambiente também promovemos os produtores e associações locais, e temos tido o recorde do maior bolo-rei de laranja, todos os anos. A divulgação que o concelho tem tido nas últimas edições é a custo zero e isso leva a que fora de Amares sejamos reconhecidos como um território que em matéria ambiental é um exemplo. A nossa agenda ambiental serviu para divulgar a rede natura, na abadia, os nossos rios com eventos que como o ecoplogging e, ecoriver em Figueiredo, o Green sunset em Barreiros e o blue day em Fiscal. Temos tido dos melhores programas de voluntariado jovem pela natureza, elaboramos o plano de mitigação das alterações climáticas e o de combate às plantas invasoras. Temos recebido vários prémios e são várias as escolas que adotaram o tema do ambiente nos seus projetos escolares. Temos o projeto da ecovia que liga Amares a Esposende praticamente concluído. Estou convencido que poderá abrir brevemente financiamentos nesta área. Também estamos a finalizar o maior trilho ambiental do concelho que liga o Urjal à Abadia. Esperamos que possamos chegar ao resto do concelho que permita aos visitantes abraçar o território do rio à montanha.

A educação ambiental é um chavão usado para a mudança de mentalidades. Que trabalho está a ser feito nesta área?
Precisamos de continuar a disponibilizar às comunidades escolares espaços para implementar aprendizagem em contexto. Em Amares construímos, com apoio do fundo ambiental, 2 projetos ambientais reconhecidos como pioneiros em Portugal na área da economia circular. O conceito do Ecocanil, localizado em Dornelas, é único. Há vários municípios que nos têm visitado e que estão a replicar este modelo. Outro centro de educação ambiental de referência é o da Urjalândia localizado em Seramil. Recebemos anualmente milhares de visitas de estudantes que vêm de escolas de toda a região. O número de visitas deste ano está a superar a dos anos anteriores.
Quando se fala em ambiente, as pessoas associam logo a água e saneamento e à recolha de lixo. Quanto à água e saneamento o que foi feito e o que projetos futuros?
Na minha opinião Amares esteve muitas décadas a adiar os investimentos necessários nos serviços básicos. Este executivo não empurrou o problema para frente. Na água conseguimos melhorar todos os indicadores junto do regulador. Investimos em sistema de desinfeção modernos e automáticos. Estamos a concluir a interligação dos depósitos da Sra. da Paz e da Torre que permitirá corrigir o drama que tem afetado muitos amarenses ao longo das últimas décadas com falta de água no Verão. Compreendemos esse drama e resolvemos grande parte do problema. Vamos ainda melhorar a conduta de abastecimento principal desde Lago que também vai corrigir muitos dos problemas que hoje temos.
Fizemos tudo isto sem aumentar a tarifa da água. Amares é dos concelhos com a tarifa da água mais barata. Por vezes os aumentos que vêm na fatura não se devem às tarifas que são da competência da câmara. As taxas não dependem de nós, tais como a TRH ou a TGR. No saneamento o regulador tem-nos pressionado imenso para aumentar as tarifas devido aos investimentos realizados. Ao invés preferimos reduzir custos para não ter de imputar toda a responsabilidade aos consumidores. Mas isto só é possível com o apoio de todos os amarenses. Não podemos ter uns a pagar os erros dos outros. Por isso, iniciamos recentemente inspeções para detetar ligações indevidas. Já detetamos minas e caleiros ligados à rede de saneamento durante 24 horas. Sabemos que muito do que se paga em saneamento é na verdade água. Se não existissem estas ligações indevidas as tarifas até baixariam. Estamos a fazer um esforço de correção que tem várias décadas de atraso. Muitas vezes este trabalho não é visível para a população. Nós estamos focados em melhorar a qualidade de vida dos amarenses e não a pensar em eleições.

E na recolha de lixo, alvo de algumas críticas?
Este é outro problema que não queremos empurrar para a frente. Não compreendo como todos dizem que está mal e quando apresentamos uma solução, vota-se contra. Temos funcionários neste serviço que são excecionais e têm feito de tudo para manter o serviço impecável. As críticas à solução que apresentamos são enganadoras. Hoje é difícil recrutar funcionários para este serviço porque é ingrato e os vencimentos não são os adequados ao esforço. Apesar de termos aumentado o número de funcionários ainda precisamos de mais 3 para satisfazer o mínimo necessário. Também precisamos de substituir os contentores, e de contratar para os limpar e higienizar, assim como de 4 camiões novos. Quando fazemos as contas, o outsourcing é a opção mais económica. O objetivo é passar a responsabilidade para uma empresa que se falhar com o serviço terá coimas aplicadas pelo município. Com o concurso que tínhamos preparado previa-se a substituição de todos os contentores, a sua higienização 4 vezes por ano, camiões novos com baixas emissões e ainda apoio nas ações de sensibilização. Se o custo é inferior ao que o município gastaria, não compreendo a maioria das críticas. Critica-se que o sistema de recolha está muito mau e depois não se apoia a solução de melhoria. Se olharmos para os outros municípios vemos que têm optado por entregar a recolha de “lixo”.
Dizem números nacionais que, apesar de estar melhor, ainda há um caminho a percorrer na questão da reciclagem e tratamento de lixo. Qual é o cenário em Amares?
Temos aumentado todos os anos. Tivemos ações de sensibilização muito intensas, quer junto da população em geral quer da comunidade escolar em particular. É um problema nacional que requer tempo. Os amarenses podem fazer mais. É certo que temos lutado para que a Braval nos reforce a rede de contentores, sem sucesso. Creio que vamos ter algum reforço muito em breve.
Que projetos tem em mente na área ambiental para os próximos anos no concelho de Amares?
Vamos iniciar o processo de recolha seletiva de biorresiduos muito brevemente. Estamos a trabalhar para dar visibilidade aos nossos rios e poderão surgir novidades em breve. Gostaria muito que este executivo deixasse uma marca ao nível da ecovia. Temos muitos projetos em carteira, mas precisamos do mais importante: financiamento. Estaremos atentos. Queremos continuar a colocar o ambiente na agenda do dia. Por isso, iniciaremos a edição de um suplemento ambiental dedicado a cada uma das freguesias. É um projeto muito interessante de interesse para a comunidade.
