Áreas Protegidas Africanas em perigo devido à subida do nível do mar

Num estudo publicado na prestigiada revista Bioscience, os investigadores do CIBIO-InBIO (Centro de Investigação em Biodiversidade e Recursos Genéticos, InBIO Laboratório Associado da Universidade do Porto) José Carlos Brito e Marisa Naia alertam para a necessidade de adoção de medidas imediatas para combater os efeitos da subida do nível do mar nas Áreas Protegidas Africanas.

Uma das consequências negativas das alterações climáticas é a subida do nível do mar, resultante do degelo das calotes polares e da expansão térmica oceânica. A subida do nível do mar provocará inundações e desaparecimento de porções de terra adjacentes ao mar.

Diversos estudos têm abordado os potencias impactos da subida do nível do mar sobre zonas urbanas, mas até ao momento não existia uma quantificação dos possíveis efeitos sobre as Áreas Protegidas costeiras, menos ainda sobre as africanas.

Este estudo demonstra que as 278 Áreas Protegidas costeiras analisadas serão potencialmente afetadas pela subida dos níveis de água nos próximos 80 anos, afetando 27 dos 33 países costeiros africanos. Destas, 15 áreas protegidas e 8 países são prioritários para o desenvolvimento de medidas de gestão proactivas.

“Embora o maior número de Áreas Protegidas (AP) afetadas se localize no Sul e Norte da África (Egipto, Marrocos, África do Sul e Tunísia), 50% das 15 APs mais importantes localizam-se na África Ocidental (Gâmbia, Gana, Guiné-Bissau, Mauritânia e Senegal). Em 14 destas APs, mais de 50% da área da AP será potencialmente inundada, e mais de 90% em quatro delas. Ou seja, estas APs estão fortemente ameaçadas pela subida do nível do mar e devem ser alvo de medidas de gestão imediatas” referem os autores do estudo.

As Áreas Protegidas Africanas concentram porções significativas da biodiversidade de África assim como biomas específicos (florestas de mangal) que sustentam fauna e flora únicas. A conservação destes recursos é também crucial para subsistência das populações, particularmente daquelas que dependem do setor das pescas.

Os resultados evidenciam também que algumas das Áreas Protegidas prioritárias em termos de atuação se localizam em países em desenvolvimento, com escassos recursos alocados à conservação da natureza e com deficiências em recursos humanos especializados para fazer face aos impactos da subida do nível do mar (por exemplo Guiné-Bissau ou Mauritânia).

“Estes países devem ser alvo de atenção global, nomeadamente financeira e técnica, para se poderem implementar medidas de gestão eficazes. A ausência de tomada de medidas de gestão conduzirá potencialmente à perda irreparável de ecossistemas, fauna e flora únicos”, salientam os autores.

Os investigadores destacam ainda que os resultados apresentados devem ser entendidos como o “melhor cenário possível”. As estimativas mais recentes referem que o nível do mar pode subir 243 cm até 2100, mas em algumas regiões este aumento poderá ser superior a este valor. Por outro lado, a velocidade deste aumento está dependente da velocidade de degelo das calotes polares, a qual se tem acentuado nos últimos anos.

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