Vila Verde

Homens, estudantes, jovens e solteiros: o perfil do peregrino do Caminho de Santiago que passa em Vila Verde

O percurso do Caminho de Santiago em Vila Verde, ainda, é pouco conhecido externamente, mas entre os peregrinos tem vindo a ganhar relevância, sobretudo, pelo passa-a-palavra.

A vilaverdense Clara Magalhães desenvolveu uma tese de mestrado onde deixa pistas e ideias para uma maior valorização do Caminho bem como apresenta uma caraterização dos peregrinos.

Natural de Oleiros, estudou Ciências e Tecnologia na Secundária de Vila Verde ainda que com um gosto ‘secreto’ por História. Depois de uma pausa para discernir o que queria seguir, optou por História tendo optado depois pelo mestrado em Património e Turismo Cultural porque “era uma vertente mais fácil de colocação no mercado de trabalho”.

No entanto, com um mestrado mais virado para o património do que para o turismo, teve dificuldade em escolher um tema que se enquadrasse no contexto geográfico e que ainda não tivesse sido explorado.

Colocada essa questão à orientadora, Doutora Maria do Carmo Franco Ribeiro, esta sugeriu a exploração da temática dos Caminhos de Santiago. Um estágio na Câmara de Vila Verde e a ‘paixão’ da técnica superior Adélia Santos, foram fundamentais para a escolha do ‘caminho’ a seguir.

O percurso de cerca de 16 quilómetros começa na Ponte Romana de Prado e termina em Goães, freguesia que faz fronteira com Ponte de Lima. “Atravessando a Ponte de Prado, entramos no Concelho de Vila Verde e o percurso faz-se em direção a Lage, Moure, Carreiras S. Miguel, Portela das Cabras, Goães e finalmente Rio Mau. Destes locais os peregrinos podem levar memórias, pois são zonas que contemplam um vasto património, algum do qual passaremos a analisar com maior detalhe”, refere a investigadora.

Marcação do caminho
O interesse em valorizar o Caminho de Santigo que atravessa o concelho de Vila Verde começa a ganhar expressão nos inícios do século XXI, quando, em 2004, Albino Marques e Amaro Franco, que se encontravam integrados numa associação designada Amigos dos Caminhos de Santiago, manifestam vontade de marcar o tramo do Caminho de Santiago que atravessa o município.

Na realidade, a eles se ficou a dever a primeira marcação do Caminho através da utilização de setas amarelas, sinalética utilizada de um modo global nos percursos jacobeus.

As entidades locais, nomeadamente a Câmara de Vila Verde só mais tardiamente intervém no processo de valorização do tramo dos Caminhos de Santiago, unindo esforços para que, em colaboração com a Delegação de Vila Verde, da Associação Espaço Jacobeus, se construíssem infraestruturas neste itinerário que o tornassem atraente, destacando-se como principal resultado a criação do Albergue de Peregrinos de Goães.

A longa história ocupacional do atual concelho de Vila Verde, desde a pré-história até à atualidade, aliada às características físicas e ambientais que o concelho possui fazem dele um importante e amplo espaço de tradições e memórias, detentor de um vasto e diversificado património histórico e ambiental.

Divulgação
O percurso de Vila Verde tem “uma caraterística engraçada. Depois da capela de Santiago de Francelos em Prado o caminho está sinalizado em dois sentidos diferentes, o que pode confundir as pessoas”.

Clara Magalhães também considera que deveria estar definido um plano para a visitação das capelas que se encontram pelo caminho.

Outra das dificuldades apontadas prende-se com a pouca informação sobre o ‘traçado original’ do Caminho. “O caminho sempre existiu, contudo não é possível aferir com certeza se o percurso original corresponde na integra ao percurso atual. No entanto, os poucos registos que existem são de peregrinos que registavam os locais por onde passavam”.

Daí “cada pessoa poder traçar o seu próprio caminho saindo de sua casa em direção a Santiago de Compostela, podendo enveredar em determinado momento num dos percursos já traçados do Caminho de Santiago”.

Clara Magalhães clarifica, ainda, que a Via Romana e o percurso do Caminho de Santiago são diferentes: “na fase inicial de estudo do caso de Vila Verde, houve a dúvida de que anteriormente estes caminhos fossem um só, contudo facilmente se percebeu que tal não era verdade, embora haja pontos de encontro entre ambos os percursos”.

A aposta no marketing digital, a celebração de protocolos com restaurantes, albergues com preços mais em conta, bebedouros ao longo do caminho, pontos de recolha de lixo e a existência de um outro ponto de dormida a meio do percurso são sugestões deixadas para a dinamização do caminho e não só: “a gastronomia local poderia ganhar bastante apresentado ementas com preços económicos, promovendo produtos como as pataniscas ou arroz malandrinho”.

Homens, estudantes, jovens e solteiros: o perfil do peregrino que passa em Vila Verde

Clara Magalhães na tese de mestrado que apresentou caraterizou os peregrinos, que num período de tempo, passaram por Vila Verde. Dos 114 inquiridos maioritariamente eram jovens, entre os 18 e os 29 anos (51%), seguindo-se as faixas etárias entre os 30-39 anos, com 18%, assim como entre 40-49 anos (18%).

Relativamente ao género dos peregrinos, a amostra apresenta um equilíbrio entre os peregrinos homens e mulheres, com valores que oscilam entre os 52% para o sexo masculino os homens e 48% para de mulheres.

No que refere ao estado civil, 61% dos inquiridos são solteiros, seguidamente os casados (33%), os divorciados (4%) e em união de facto (2%) são uma minoria.

Relativamente ao grau de instrução, os peregrinos inquiridos são maioritariamente detentores de cursos universitários 62%, designadamente 45% são licenciados, 15% são mestres e 2% são doutorados. Sucessivamente encontram-se os que concluíram o ensino secundário (34%), os que possuem o 3º ciclo (3%) e, finalmente, os detentores de 1º/2º ciclo (1%).

Quanto à situação profissional, dos 114 inquiridos, a maioria são estudantes (43), seguindo-se os que exercem profissões técnicas (18), profissionais, como médicos ou professores (14) serviços e pessoal de vendas (13), escriturários e administrativos (11), trabalho manual ou operário (10), diretores ou gerentes (4) e desempregados (1).

Por fim, relativamente ao perfil dos inquiridos importa salientar que 95% dos peregrinos percorrem o Caminho de Santiago que responderam ao questionário são de origem portuguesa.

Lazer e religião motivos para caminhar
A segunda componente do questionário destinava-se a aferir dados quanto às principais motivações apresentadas pelos peregrinos da atualidade para realizar o Caminho de Santiago. De acordo com as respostas, 30 indivíduos referiram ser por questões de lazer, 29 por religião, 26 por curiosidade, 11 por desporto e 18 por outras razões.

Deste modo, a partir dos dados obtidos, parece verificar-se, de facto, um grande equilíbrio entre os motivos religiosos, de lazer ou até mesmo de curiosidade, dados que permitem confirmar que “o peregrino da atualidade não realiza o percurso dos Caminhos de Santigo apenas por motivos religiosos, mas por outras razões”.

Igualmente, a amostra permite confirmar que o peregrino da atualidade é muito mais propenso para viajar em grupo (91%), do que sozinho (9%). Relativamente aos meios de deslocação para realizar o percurso, se a pé ou de bicicleta, 79% dos inquiridos responderam que realizam o Caminho a pé, enquanto 21% usa a bicicleta.

Por fim, a última questão desta componente destinava-se a saber se se tratava da primeira vez que os inquiridos percorreram o Caminho de Santiago. Neste caso, 55% dos inquiridos responderam que percorriam o Caminho pela primeira vez, enquanto 45% já o havia feito em outras ocasiões.

As duas últimas componentes do questionário aplicado, destinavam-se a obter dados especificamente para o itinerário do Caminho de Santiago no concelho de Vila Verde. Curiosamente, a percentagem dos inquiridos que refere ter tido conhecimento do itinerário de Vila Verde pela primeira vez é igual ao dos inquiridos que responderam à questão anterior sobre se era a primeira vez que faziam o Caminho de Santigo.

“Esta concordância de percentagens remete para a importância de divulgar o Caminho de Vila Verde, nomeadamente nos espaços de maior concentração de peregrinos, como em Braga, nomeadamente na Sé e no Albergue de Braga”, refere Clara Magalhães.

Os dados obtidos a partir do questionário permitiram igualmente avaliar o nível de divulgação do Caminho de Vila Verde, mas também através de que meios. Entre aqueles que conhecem o tramo vila-verdense, a maioria é residente no Concelho (29), seguida pelos que conhecem através de amigos (19) que falaram sobre o mesmo.

Importa destacar ainda que a quase totalidade dos inquiridos que já percorreram o Caminho de Vila Verde gostaram (97%,) e que, 95% recomenda este itinerário.

Por fim, foi ainda bastante importante perceber que do total dos inquiridos que já percorreram o tramo de Vila Verde, 92% revela a intenção de repetir o percurso.

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