Amares

Primeira biografia ilustrada de António Variações contém factos inéditos do cantor amarense

Uma nova abordagem e um trabalho de pesquisa próprio foram as duas condições que a editora pediu a Bruno Horta para criar a primeira biografia ilustrada de António Variações. O autor revela ao ‘Terras do Homem’, as premissas que estiveram por detrás da elaboração desta publicação que conta com ilustrações de Helena Soares (ver entrevista)

Como surgiu a ideia deste livro?
Depois da estreia do filme biográfico realizado por João Maia, em agosto de 2019, a editora Suma de Letras pediu-me que pensasse numa biografia de António Variações. Mas com duas condições: que a abordagem fosse nova e que houvesse um trabalho de pesquisa próprio, em vez de fazermos apenas um resumo dos factos já conhecidos.

O objetivo passava por construir um livro baseado naquilo que se conhecia do Variações ou houve, também, a preocupação de introduzir factos menos conhecidos?
A preocupação de revelar factos menos conhecidos esteve presente desde o início. Daí, por exemplo, que tenha decidido entrevistar pessoas que conheceram António Variações, mas que não costumam falar sobre ele em público. Pensei que trariam novos elementos e novas perspetivas e penso que não me enganei. Além disso, visitei arquivos e bibliotecas à procura de documentos de época que me dessem contexto e revelassem aspetos novos. Foi assim que cheguei ao relatório de 1968 que a PIDE, a polícia política do Estado Novo, escreveu sobre a família de António Variações (à época, era apenas António Rodrigues Ribeiro, não era cantor nem tinha nome artístico). Esse documento em particular estava inédito e é revelado neste livro. Para mim, houve dois Antónios. Até 1976, um rapaz humilde com o sonho de ser cantor, mas que não conseguia libertar-se e queria experimentar muitos caminhos de vida. Depois de 1976, percebe que o caminho é ser artista, gravar discos, dar concertos, ser fiel à sua maneira de estar e de pensar. É a partir daí que nasce António Variações.

Como foi conjugar o texto com as imagens?
A resposta a esta pergunta quem a pode dar é a Helena Soares, cujo talento está à vista de todos. As imagens é que se conjugaram com o texto, porque foram criadas após a escrita. Neste sentido, se este livro fosse uma canção, eu escrevi a letra e depois a Helena fez a música.

Digamos que esta é a primeira publicação ‘desenhada’ do Variações. O peso foi maior na sua concretização?
Exatamente, é a primeira biografia ilustrada de António Variações. Penso que a responsabilidade seria sempre enorme, qualquer que fosse a forma do livro, porque quando se está a escrever sobre a vida de outra pessoa é preciso não errar nos factos e ter extremo cuidado nas interpretações.

Houve muitas alterações ao longo do processo criativo?
Desde o início, quisemos que cada capítulo tivesse o título de uma canção. E assim foi até ao fim. A investigação e a escrita demoraram cerca de seis meses e cada capítulo que ia escrevendo revelava novas interpretações sobre António Variações. A escrita propriamente dita é que nos leva a organizar o pensamento e entender o assunto que temos à frente. Conjuguei datas que aparecem em vários documentos, entrevistas e depoimentos. Passei horas a olhar para fotografias, à procura de informação pouco óbvia. Telefonei a pessoas, e encontrei-me com algumas, que estiveram com António em diferentes fases da vida. Diria que ao longo do tempo, o texto se moldou a mim e eu também me moldei ao texto.

Como está a ser a receção ao livro?
As pessoas têm reagido muito bem ao livro, com comentários de incentivo e, claro, também alguns elogios, o que me deixa muito satisfeito. O facto de se tratar de uma biografia ilustrada surpreende muito as pessoas e o facto de o biografado ser António Variações emociona-as. Nas últimas décadas, ele tornou-se uma figura muito querida dos portugueses.

Há ideias para apresentá-lo em Amares?
Não está pensado, mas gostaria muito que acontecesse. Se alguma entidade que estiver a ler esta entrevista quiser associar-se a uma apresentação do livro em Amares, é muita bem-vinda.

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“António Variações era cor num Portugal cinzento e era muito importante que isso se notasse no livro”

Helena Soares é uma jovem ilustradora de Viana do Castelo que recebeu o convite da ‘Suma de Letras’ para ilustrar a biografia de uma personalidade da música portuguesa. O entusiasmo inicial aumentou exponencialmente quando descobriu que era o António Variações. “É uma abordagem nova, diferente, e é também a primeira biografia ilustrada de António Variações, havendo sempre espaço para ser criativo”.

Como surgiu esta proposta de ilustrar um livro sobre Variações?
A proposta de ilustrar este livro surgiu a convite da editora Suma de Letras, chancela do grupo Penguin Random House. Inicialmente, recebi um email da Diana Garrido (quem editou “António Variações, Uma Biografia”) que me perguntou se eu estaria interessada em ilustrar um livro de uma personalidade da música portuguesa. Fiquei desde logo muito entusiasmada com essa ideia, e reunimos em Lisboa, na sede da Penguin, poucos dias depois. Nessa reunião, soube que a personalidade da música portuguesa seria António Variações e, se já estava contente com a possibilidade de ilustrar um livro para este grupo editorial, mais ainda fiquei quando tive essa informação. Foi um projeto muito especial para mim.

Que desafios teve à partida para concretizar o trabalho?
Ilustrar é sempre um desafio e neste caso, em que a ilustração tem um papel tão importante – todas as páginas do livro, 152, são ilustradas – não foi exceção. Um dos primeiros desafios foi “mergulhar” no universo Variações, tentar ver tudo o que havia para ver, ler tudo o que havia para ler: fazer uma pesquisa mais aprofundada não só sobre a sua história/percurso, mas sobretudo sobre a pessoa por detrás do artista, de modo a tentar conhecer a sua personalidade, a sua forma de pensar e sentir. Outro desafio foi, depois, ao longo do processo, trazer para as ilustrações, e para a paginação, a minha própria interpretação resultante dessa investigação, aliada à do autor do texto, Bruno Horta, de modo a obtermos um resultado harmonioso e coeso.

Já conhecia o Variações ou teve que fazer um trabalho de pesquisa prévio?
Já conhecia e sempre foi alguém que me despertou curiosidade e admiração. Conhecia muitas das suas músicas e sabia a sua história de uma forma geral. Contudo, não o suficiente para me sentir confortável para começar logo a ilustrar a sua biografia. Quando inicio o desenvolvimento de um projeto, considero fundamental documentar-me e aprofundar o conhecimento sobre o tema em causa, tentar estabelecer uma base sólida a partir da qual possa trabalhar, fazer interpretações, definir associações, estabelecer um caminho a seguir. Faz parte do processo. Neste caso, através de textos, entrevistas, documentários e registos fotográficos, foi essencial procurar conhecer a pessoa além do artista, tentar perceber a sua forma de pensar e ver o mundo.

Quando a ‘personagem’ já é conhecida e tem as suas próprias idiossincrasias, o desenho é mais ou menos fácil? Há o receio de defraudar o leitor por já ter essa ideia pré-concebida?
Não sei dizer se é mais fácil ou mais difícil. Continua a ser um desafio. O facto de se tratar de uma figura conhecida, ícone da música portuguesa, e de um livro que conta a sua história, impõe naturalmente certos limites, no sentido em que, a nível textual, não há como fugir aos acontecimentos. Ao nível da ilustração há também um imaginário visual que terá de estar presente, não só na representação de António Variações, como da época e do estilo musical em que se enquadra. Variações tem uma imagem marcante e existe todo um universo visual que lhe é associado e que o leitor certamente espera encontrar no livro — e faz sentido que assim seja. No entanto, a ilustração não se prende exclusivamente ao que é real, dando espaço para explorar diferentes leituras e criar imagens novas, que não seriam possíveis através do registo fotográfico, por exemplo. Há, portanto, a preocupação de fazer uma representação fiel de António Variações, no sentido em que este seja facilmente reconhecível pelo leitor, mas não tanto pelas ideias pré-concebidas que possam existir. Procurei desenvolver este projeto sem dar importância a ideias pré-concebidas que, muitas vezes, podem estar muito longe da verdade. A intenção é que o próprio leitor, no final do livro, faça também a sua própria interpretação do que leu e do que viu, mantendo ou destruindo as ideias que pudesse ter inicialmente.

Onde fica a criatividade num trabalho como este?
Apesar da história presente neste livro não ser inédita — no sentido em que se trata de uma biografia, de factos reais acerca de um artista incontornável da música portuguesa — a abordagem que lhe é feita, quer no texto quer na ilustração, é. É uma abordagem nova, diferente, e é também a primeira biografia ilustrada de António Variações, havendo sempre espaço para ser criativo. A criatividade fica nas opções tomadas ao longo do processo, nos símbolos e códigos visuais definidos para representar os diferentes aspetos e momentos da vida de António Variações, na tradução de ideias e de associações para imagens. Muito mais do que ornamentar ou ser o reflexo direto de um texto, a ilustração serve como uma segunda camada de informação, uma narrativa que corre paralelamente ao texto. Ou seja, a ilustração não é acessória ou condicionada necessariamente pela componente textual — antes a complementa e ambas se acrescentam mutuamente. O trabalho de paginação também é importante neste aspeto, estabelecendo efetivamente a relação entre o texto e a imagem no objeto final, e contribuindo para a intensificação da mensagem que se pretende passar.

De que forma a história ajuda na concretização do desenho? Ou pelo contrário, pode até constranger a realização do mesmo?
Texto e ilustração devem funcionar como um todo, de modo a alcançarmos o resultado pretendido. Na maioria das vezes, e tal como aconteceu neste caso, o texto é desenvolvido primeiro e só depois, a ilustração. A ilustração costuma partir do texto, que serve como base para a criação e organização das imagens. Apesar de, para este livro, ter feito algumas ilustrações antes de conhecer o texto, a maioria foi feita posteriormente, de modo a manter o fio condutor da história e a estabelecer a coerência narrativa entre texto e imagens. Além de servir como uma orientação para o desenvolvimento das ilustrações, também é natural que a leitura do texto indique alguns caminhos a seguir no desenho, por aproximação ou distanciamento do que está escrito, criar metáforas visuais, associações, paralelismos. O “constrangimento” que o texto pode impor ao desenho – que não entendo como algo negativo – acaba por ser também aquilo que “ajuda” ao desenho. Ou seja, é uma característica, necessária para que as duas componentes – texto e ilustração – se complementem, formando um todo, coeso, com o mesmo propósito.

O produto final é muito diferente do inicialmente pensado? Ou foi uma coisa muito ‘work in progress’?
Foi bastante work in progress, apesar da existência inicial de um plano/ideia geral para a concretização do projeto. Foram muitos meses de trabalho contínuo e ao longo desse tempo vão surgindo sempre novas ideias. Outras ideias podem ser melhoradas e, durante o processo, uma ilustração pode, a qualquer momento, sugerir soluções que até aí não tínhamos pensado. Quando se mergulha num projeto tão longo como este, o próprio processo de trabalho acaba muitas vezes por, de forma natural, responder às questões e novos caminhos vão surgindo. No entanto, há certos aspetos do livro que foram bastante automáticos, pensados desde o início. Era claro para mim que o livro teria de ser colorido, com o rosa, o azul, o amarelo e o verde como cores principais. São cores vibrantes, chamativas, associadas a Variações e à estética pop. António Variações era cor num Portugal cinzento e era muito importante que isso se notasse no livro. A divisão da narrativa visual em três momentos também foi planeada: um primeiro é marcado por tons pastel, alusivos às suas origens, à família, à infância e às primeiras influências; um segundo que, através de cores mais escuras, remete para o período em que viveu em Amesterdão e que marca o ponto de viragem na sua vida; e, por fim, um terceiro, em tons vibrantes, como reflexo da cultura pop e da carreia de António Variações. Ao longo do livro, vão surgindo também alguns elementos que servem como códigos visuais, com significado, e que ajudam a relacionar momentos da biografia ou a criar metáforas, por exemplo. Estes símbolos também foram pensados numa fase inicial, por exemplo: as flores campestres, associadas às origens, à nostalgia, à essência; as flechas, alusivas à liberdade, à expressão criativa e sexual; e as estrelas, em representação do sonho.

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